APRENDER RELIGIÃO

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Aprende-se tudo nesta vida. Ninguém nasce sabendo. Com religião não é diferente.Aprende-se certo e errado, prega-se certo ou errado. Por mais sincero que seja o fiel ou o pregador, ele pode ter aprendido ou pode estar ensinando fé errada.
São poucas as pessoas que se interessam por saber mais religião do que já sabem. Contentam-se com a religião que receberam até os catorze ou onze anos, e depois disso, vivem do pouco que armazenaram. Progridem na profissão, mas não progridem na confissão.
Dão preferência às devoções, promessas, curas, milagres e à constatação espiritual, que chamam de toque. Sentem Deus agindo neles, por eles e para eles. Não mergulham mais fundo em livros para aprender um pouco mais sobre sua fé. A maioria não quer conhecer Deus mais a fundo e nem quer saber das conseqüências de conhecê-lo mais. Também não quer conhecer Jesus mais a fundo. O que aprenderam já está bom. Lembram o comedor de jaca e frango à cabidela que não quer saber de outras frutas e iguarias.
Aumenta o número de templos e igrejas com padres, pastores e pregadores que visam os sentimentos e os eflúvios da devoção. A linguagem é sempre a mesma. Feche os olhos e entregue seu coração para que Deus lhe possa dizer o que ele quer lhe dizer… Como o pregador quer os fiéis em silencio, diz que Deus quer aqueles olhos fechados. Agem como se Deus não conseguisse dialogar com quem tem os olhos abertos. Alegam que é para o fiel se concentrar. E garantem que Deus pensa como ele. Mas não pensa. Querem uma religião que responda às suas necessidades imediatas e que as satisfaça. Buscam o Deus aqui agora já. Ele pode e faz aqui. Estão certos em parte, exceto no item que falta: “se for da sua vontade” , expressão que faz parte da essência do cristianismo. Oramos isso diariamente no Pai Nosso e Jesus morreu usando-a.
Religiões de perguntas não é com tais devotos; só perguntam quando algo não vai bem; e mesmo assim a pergunta é artificial: -Onde é que o Senhor estava quando eu precisei? Raramente perguntam: -Quem é o Senhor? Como era o Senhor antes do Universo começar? Como será tudo depois do Universo? Como eu era antes? Como sou eu agora? Como serei eu depois? Essas perguntas quase não são feitas.
Há outras perguntas que os crentes raramente fazem. -Quem é o outro? Quais seus sofrimentos? Quais são as suas chances? O que posso fazer por ele? Também são perguntas de alteridade que poucos aprofundam.
A maioria das pessoas vive a insuficiente dimensão do seu imenso pequeno eu, religião que não vai um metro além do nariz; no máximo, vai aos parentes e a alguns amigos. Mas não é e nunca será universal e abrangente.
Uma vida sem grandes questionamentos, sem aprofundamentos e sem um grande depois gera uma fé sem questionamentos. Busca-se Deus aqui, agora e já e corre-se atrás de pastores, padres, pregadores que lhes dizem como fazer para conseguir as graça que buscam hoje aqui, agora, domingo às 15 horas na grande concentração onde “certamente” acontecerão milagres…- Venha lá que as 3h da tarde vão acontecer milagres; venha lá porque acontecerão curas e exorcismo. Deus esta se manifestando lá.
Para conseguir esse tipo de religião Simão, o Mago tentou comprar a habilidade dos apóstolos. Eles faziam a graça acontecer assim que oravam. E Simão, o Mago queria este poder!..Para ele era mais truque do que graça. Acabou descobrindo que não se brinca com Deus e com milagres.
A mesma brincadeira tentaram os sete filhos de Cevas, Começaram a expulsar demônios, porque aquilo lhes trazia status e os faria grandes evangelizadores. Saíram de lá arranhados e em farrapos. Cenas semelhantes se repetem hoje, embora os demônios não andem arranhando tanto. Demônios virtuais ou de televisão costumam seguir o script…Não mexem com o pregador que os criou!
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Eu vi e você já viu o pregador dar o microfone para uma pessoa vitimada de demônio. A pessoa falava com voz cavernosa ao microfone. O pregador então falava com o demônio diante de toda a assembléia, para mostrar que Deus lhe dera poder sobre ele. Aquele tipo de entrevistas parou por alguma razão nada difícil de compreender. Estava teatral demais. Os próprios fiéis começaram a duvidar daquelas ações espetaculares.
A fé as vezes é um espetáculo, mas Jesus fugiu disso. Na maioria das vezes pediu que as pessoas não divulgassem o milagre. Com Jesus, milagre não tinha data nem hora marcada. Tinha um porquê. Negou-se a fazer prodígios perante o curioso Herodes, que ele chamara de raposa Fez poucos milagres na sua terra natal e não poucas vezes proibiu os discípulos ou as pessoas beneficiadas de divulgarem o milagre. Jesus não era a favor de testemunhos a qualquer hora de qualquer jeito, com o objetivo de arranjar adeptos.
Nos dias de hoje Jesus não tem sido obedecido. Abundam os milagres, os testemunhos, os convites para mais uma sessão de curas e de exorcismo; missa agora é chamada de Missa de Cura e Libertação, como se as outras missas não o fossem. Toda e qualquer missa depende da hora de Deus e não do esquema do celebrante. Se não reagirmos, acabaremos por viver uma fé espetacularizada e circense, do tipo circumceliones dos tempos dos cátaros.
Os templos e a mídia estão outra vez cheios de cátaros, puristas, donos da verdade, senhores das respostas na ponta da língua. Mas, pregadores de poucas perguntas, povo de pouca reflexão e religião que não passa pela cabeça acabam criando dores de cabeça. A razão? Pensar dói e crer é, também, pensar.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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