Eu sei mais sobre ele do que ele sobre mim. Nem poderia ser diferente. Eu sou um quase anônimo e faz tempo que ele deixou de o ser. Barak Hussein Obama é cidadão de um novo tempo. Aparece como um homem síntese. Carrega simbolismos imensos! É negro e é branco, é africano, havaiano, americano, indonesiano. Cresceu muçulmano e é cristão. Consegue respeitar a duas heranças, sem sinais de fanatismo.
Vai demorar até que um Joe Smith se torne presidente de algum país árabe, mas 45 anos depois do monumental discurso “I have a dream!” pela unidade de negros e brancos, gritado para mais de um milhão de pessoas em Washington DC, por um pastor negro chamado Luther King, logo depois assassinado por um racista, o que aconteceu? Os americanos em conflito com vários países árabes, elegem um homem chamado Barak Hussein Obama, filho de pai negro e africano e de mãe branca e americana. Nunca pensei que veria brancos a chorar de alegria pelo sucesso de um negro. É claro que os inconformados torcerão pelo seu fracasso. Eu torço pelo sucesso. Será bom para o mundo.
Este país cheio de surpresas que são os Estados Unidos da América, com todos os seus grandes erros e acertos, todas as suas virtudes e defeitos, mais uma vez nos surpreende. Exatamente como sonhava o mártir Martin Luther King, o senhor Barak Obama não foi julgado pela sua cor, mas pelos valores que se propõe resgatar para a sociedade que o elegeu presidente. No céu Luther King deve ter agradecido a Deus que fez isso acontecer tão depressa: o tempo de duas gerações.
Pobre que estudou em duas das mais famosas universidades americanas, uma delas Harvard, Obama foi ser advogado entre os pobres e não fugiu às suas origens. Usou sua cultura e suas chances para aumentar as chances de quem era como ele. Tornou-se cristão, sem jamais esquecer os valores dos muçulmanos. Buscou incansavelmente o diálogo sem perder o sorriso franco quase de menino crescido. Senador, viu e sentiu o que os Estados Unidos ganharam e perderam nos últimos anos.
Ele é uma síntese. Branco e negro, muçulmano e cristão, pobre e afluente, simples e influente, respeitoso dos antigos e propenso a mudanças, talvez Barak Hussein Obama consiga mudar o que pretende mudar.
Não concordo com algumas de suas idéias sobre aborto, união civil entre gays, mas a maioria dos americanos acha que isso não fará a diferença para o seu país. Também não concordava com algumas das posições belicistas de seu oponente John MCain, também ele herói e lutador. Mas os americanos apostaram no jovem síntese. Não tenho que concordar em tudo com alguém que tem grandes valores. Terá também os seus defeitos. Mas o que sei é que ele parece ser bom de diálogo e de democracia, pelo que disse e pelo que dele dizem.
Morei quatro anos nos estados Unidos, voltei para lá por mais alguns meses e nunca imaginei que um dia eu veria uma família negra na presidência e uma branca na vice-presidência, brancos e negros chorando juntos na rua pela vitória de um filho de branca e de negro, os brancos a falar como se Obama fosse deles, como de fato é. Estive lá quando mataram John e Robert Kennedy e Luther King. Vi a dor daquele povo. Vi em todos o sonho de nunca mais ter que ver barbaridades como aquelas.
Vejo, hoje, a esperança deles de que seu país, que se revela grande e ousado na guerra e na paz, consiga sair da enorme crise em que se meteu. O mundo torce por eles porque, gostemos ou não da América, se ela bater por mais tempo no poste da insolvência haverá engavetamento no mundo inteiro. Deram a direção a Barak Obama.
Tenho orado por ele. Aqueles ombros esguios de 48 anos têm um peso enorme sobre si. Ao que tudo indica, há milhões dispostos a apoiá-lo. Bom para os americanos e, de certa forma, bom para o mundo. Um homem capaz de diálogo é sempre uma esperança. Não bato palmas para tudo o que ele diz, nem para os que diz o nosso presidente, o acessível Lula. Mas sei discordar e elogiar. Quando tiver mais razão para discordar do que para elogiar, direi o que penso e certamente votarei contra e motivarei meu povo a fazer o mesmo. Espero que os americanos saiam do atoleiro em que se meteram. Um país que em 100 anos entra em mais de 130 conflitos armados mundo afora, pacifista é que não é! Você aprovaria se o Brasil fizesse o mesmo?




