Que nem tudo vai bem com o Brasil e com praticamente todos os países do mundo, é sabido. Também se sabe que há países com maior e menor grau de cidadania. Na “Republica” da Platão, Livro V, um dos critérios de cidadania era a capacidade de os cidadãos saberem o que era e o que não era deles: o “meu” e o “não meu”. A julgar pelos colossais desvios de verbas, pelos impostos ditatoriais que nem sempre retornam em forma de melhorias, pelos preços sempre acima das tabelas, pelos salários sabidamente injustos, pelos caixas dois de partidos, pelos apadrinhamentos, pelos ladrões de gravata ou de chinela, estamos longe desta cidadania. No Brasil, boa parte do que seria do povo acaba em mãos de políticos inescrupulosos com seus apadrinhados.
Mas estamos melhorando. Já houve ex-governador preso, governador pilhado em flagrante e preso, deputados obrigados a renunciar, mensalão provado e documentado. Se nem todos foram punidos, já é um bom começo que a mídia publique e mostre os documentos da corrupção. Apesar dos seus defeitos, sem a imprensa este país seria bem menos democrático. Igrejas que apenas anunciam não servem. Igreja também precisa denunciar o que fere o povo.
Como país estamos entre o mais e o menos, um pouco mais para mais do que para menos. Temos mídia mais ou menos isenta, igrejas mais ou menos abertas a diálogo e desapegadas de riquezas, policiais mais ou menos preparados e honestos, Ongs mais ou menos honestas, políticos mais ou menos desapegados e honestos, organismos fortes, racismo combatido, produtos mais ou menos de alta qualidade, impostos mais ou menos sonegados, preconceitos condenados, violência denunciada… O mostrador se aproxima do mais e se distancia do menos.
A população ainda segrega, mas com delicadeza. A segregação é hoje de cunho econômico. Índios e negros podem ser vistos ao lado dos brancos, desde que cada qual na sua devida classe… Por isso temos piscinas, condomínios, hotéis, shoppings, lojas e restaurantes de ricos, de classe média e de pobres. A cor da pele já não importa. Importa o poder aquisitivo. Entra quem tem como pagar! Há shows aonde o pobre não vai e shows aonde o rico não vai. O preço os separa. Mas já temos um presidente sindicalista de sucesso que veio da pobreza e ainda fala como pobre e ex metalúrgico; seu vice-presidente é um empresário de sucesso que se mostra corajoso sereno e simples. Um país onde se pode eleger dois cidadãos supostamente opostos não vai assim tão mal!
Entre os candidatos à presidência, praticamente todos são de esquerda moderada. Ninguém tem a intenção de dividir o país em dois ou de por fogo nas instituições. Não há nem haverá bolivarianismo por aqui. Há quem já foi guerrilheiro, mas jura que nunca pegou em armas, quem foi exilado por combater a ditadura, quem quis o poder pelas armas e agora não quer mais; há quem veio da pobreza e subiu na vida pelo estudo e pela pertinácia. Também há católicos, evangélicos e ateus, gente bem casada e quem sofreu a tristeza do divórcio. Eles conhecem a dor, a decepção e sabem que um país não é feito nem de pessoas nem partidos angelicais. Mas querem o melhor. Parece que nos convertemos ao diálogo.
Vejo isso nos restaurantes de ricos e de pobres: chão limpo, mesas limpas, ninguém fumando, pessoas educadamente nas filas. Também nas filas de banco e de padarias, cada qual espera a sua vez. No metrô e nos ônibus a maioria dos jovens cede a vez aos velhinhos, as crianças são respeitadas, nos estacionamentos há vagas para os idosos e os portadores de algum limite, as grávidas ainda encontram delicadeza. Nosso presidente e nossos militares foram ajudar o Haiti que perdeu 200 mil vidas e o Chile que foi literalmente devastado. Poucos brasileiros se queixaram. Acharam certo. Existe o senso de alteridade. Também fomos vítimas de enchentes e sabemos o que é perder tudo e recomeçar.
Não somos um povo tão desorganizado. Ainda se respeitam os juizes e estes ainda levam em consideração os direitos da pessoa. As igrejas ainda se encontram e, mesmo os pregadores que não dialogam, já não chutam os símbolos um do outro. Diminui o número dos que se proclamam mais eleitos do que os demais. Fiéis e pregadores hoje contentam-se em se proclamarem eleitos.
Este ainda não é o país dos meus sonhos, mas já não é o país dos meus pesadelos. Há bandidos, há droga, há feras humanas passeando pelas ruas e arrastando velhinhos e crianças, há meninos queimando índios e empregadas em pontos e ônibus, há criminosos espreitando nossas casas. Mas tudo indica que serão derrotados. Melhoramos e melhoraremos. Parece que o país adolescente irresponsável de ontem começa a amadurecer. É possível que daqui a vinte anos os partidos, as igrejas, o judiciário, a receita, as mais diversas instituições terão se aperfeiçoado a ponto de não ser preciso pegar em armas para mudar a cara da Nação. Movimentos violentos perderão o apoio do povo. Terão que se enquadrar na vida política, como os outros fizeram. Talvez estejamos condenados a fazer política e a dialogar, o que é bem melhor do que derramar sangue em nome de fé ou de ideologia.
Tudo somado, sou um brasileiro que lutou 45 anos como sacerdote para ver meu povo dialogando. Não fui e não sou o único. Acho que vencemos. Ex guerrilheiros e combatentes, ex exilados, chegaram ao poder e à maneira de Nelson Mandela entenderam que vingança não leva a nada. Os que ainda conservam ódio no coração terão que amansar. Talvez não sejamos o Brasil que eles queriam, mas faz tempo que nos transformamos num país que não quer mais revanche nem ódio, venha ele da esquerda ou da direita. Os irados que se acalmem, e os calmos demais que aprendam a ira justa. Aí, talvez, possamos cantar que nossos risonhos lindos campos têm mais vida que nossa vida neste colo tem mais amores. Quem viver verá! Sonho com um Brasil parlamentarista, porque um povo que não aprende a parlamentar mais cedo ou mais tarde acaba por se lamentar. Oro para que tal tsunami não nos aconteça!




