Sentir-se um humano entre sete bilhões e, dentro da nossa igreja, um crente católico entre um bilhão e alguns milhões, supõe a mística da luz. É que, para iluminar melhor o mundo que desejamos mais iluminado, não bastam nem nossas velas ou tochas, nem a do nosso grupo. Precisaremos de todas as luzes que pudermos para tirar o mundo das trevas do egoísmo, da corrupção e da violência. Aí entra nossa disposição e capacidade de ver luz nos outros católicos que não vêem tudo do mesmo ângulo que nós, nas outras igrejas e outras religiões, nos agnósticos e nos ateus.
Podemos até discordar da maneira como alguns jogam seus holofotes sobre nós, ou da maneira como impõem suas tochas, mas a luz deles ilumina e, com o devido diálogo, talvez iluminemos juntos. Bastaria um pouco mis de humildade para admitir que o outro também vê…
Anuncio Jesus há cinco décadas, desde os meus vinte anos e aprendi, a duras custas, que quem não admite que há luz nos outros não conseguirá passar a eles a própria luz. Reconhecer o que há de Deus nos outros é o primeiro passo para oferecermos a eles um pouco do que Deus pôs em nós.
Uma das coisas mais difíceis é convencer um sujeito convencido que é mais e recebeu mais do que a maioria dos mortais. É quase impossível fazer alguns católicos radicais que o outro grupo católico é iluminado; difícil convencer alguns evangélicos ou pentecostais ferrenhos que na outra igreja há pessoas iluminadas e que, entre os ateus, há pessoas iluminadas. Também entre os ateus há os ferrenhos e irados que não conseguem imaginar vida inteligente nas religiões. Prefiro nem citar seus nomes, mas estão nas livrarias com títulos ofensivos aos crentes.
Basta alguém dizer que crê para que eles se sintam superiores ao pobre mortal que ainda admite a existência de um criador. Não precisam ser iluminados, porque iluminaram-se com seus estudos e sua incomensurável lógica. Literalmente não adoram a Deus porque já têm a quem adorar: sua vasta cultura. Os radicais que não aceitam luz fora deles e do seu círculo, uns e outros parecem inteligentes, mas apenas parecem. Intus legere, termos de onde vêm as palavras entender e inteligência , supõe a capacidade de abrangência, de ver por outros ângulos, principalmente por dentro… Nunca saberemos o sabor de determinada melancia se não entrarmos nela e não experimentarmos, ainda que apenas um micro-pedaço. Mesmo que não gostemos de seu líquido, saberemos qual o seu sabor. Mesmo que não gostemos de religião e do jeito de o outro crer, conhecer um pouco da sua luz é fundamental para um mundo em diálogo.
Pessoas iluminadas fazem a diferença, porque emitem conceitos, luz, cultura, conhecimentos, pensamentos elevados e cheios de alteridade. Quem jamais lê livros de outra igreja, ou de ateus nunca saberá a luz que há nos outros. Tenho inúmeros amigos que passaram a me aceitar como sacerdote católico e a ver o catolicismo com mais simpatia quando perceberam que eu conhecia alguns livros dos ateus e de outras igrejas. Não tenho que concordar, mas tenho que saber o suficiente para entender um pouco das outras luzes. Eles fizeram o mesmo comigo. Foram ler meus livros e os que indiquei, mais os que indiquei do que os meus, o que parece justo! Nossas mentes se abriram.
A mística do “um entre bilhões” ajuda a distinguir entre ser convicto e convencido. O convencido joga suas convicções por sobre os outros e coloca sua luz acima de qualquer luz que não venha do seu magnífico gerador… O convicto põe ao lado das outras a luz que recebeu. Nunca diz nem age como se tivesse a luz mais forte da redondeza. Apenas ilumina…




