O PAPA E AS REPERCUSSÕES

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Como em toda sociedade aberta e democrática, opinar é um direito e uma conquista. Assim, a visita de Bento 16 ao Brasil, ainda de maioria católica, produziu o que se esperava. Os católicos que aceitam as doutrinas católicas defendidas pelo papa vibraram. Os que colocam restrições a determinadas exigências e posturas o observaram com uma lupa. Os que abertamente prefeririam um outro papa, aceitaram algumas coisas, mas não viram mudanças no horizonte da Igreja. Ele veio e se foi e a impressão que se tem é que cada um ficou na sua.

Os colunistas continuaram dizendo o que diziam sobre ele, exceto por este ou aquele acento sobre política, modernidade ou diálogo. Um deles no dia seguinte até chamou a Igreja de assassina por não adotar a camisinha. Não deram maior importância à sua aproximação com o povo e aos gestos de quem acolhe o interlocutor. A admiração de milhões continua, a discordância de outros milhões prosseguirá.

A vinda de Bento 16 lembra o texto de (Mt 27,63; João 7,2). Sobre Jesus também as opiniões se dividiram e ele foi chamado de impostor, sedutor das massas, bom e justo. As cabeças andavam divididas. Uma leitura atenta de João 7, 1-24 dá bem um quadro de como andavam as coisas no tempo de Jesus. Jesus sabia que era odiado por alguns e amado por outros. Sua doutrina e seus gestos incomodavam. Alguns tinham medo de opinar sobre ele, porque poderiam ser excluídos do seu círculo. A campanha contra Jesus e o que ele exigia com relação a família divórcio,separação de casais e vida funcionou. Ele não podia esperar aplausos. E Jesus repetia com clareza que não estava falando de si mesmo e não buscava ser aplaudido nem glorificado. Que seus interlocutores não julgassem pela aparência e sim pela justiça.

Antes em Lc 7,21-27 fizera o elogio de João porque o profeta não balançava como cana aos ventos do momento. E comparou a liderança do seu tempo com crianças tocando flautas que exigiam que os outros dançassem ou chorassem com as suas músicas (Lc 7,31-32).

Se é verdade que há religiosos tocando flautas e querendo que o mundo dance como a sua igreja também é verdade que há certas mídias e outros religiosos querendo a mesma coisa. Se o papa não abranda o discurso, chegam a chamá-lo de alienado e até de criminoso…Quem lê Lucas 6, 1-49 percebe que Jesus veio para questionar os costumes e a religião daqueles dias. Seu discurso não poderia agradar a todos, como não agradou. Acabou crucificado.

Se já está difícil ser cristão e católico e sustentar doutrinas que o mundo não quer ouvir sobre o dinheiro, o lucro, a justiça social, a vida, o feto, o aborto e a união de homem e mulher, mais difícil ainda é ser papa. Pensando bem, ele veio dizer aos católicos que se situem e não se deixem sitiar, mas que também não sitiem os outros. Franqueza e defesa firme das suas idéias sem proselitismo sensacionalista e sem fé histérica, medrosa ou excessivamente emotiva, foi o que ele propôs. Talvez seja ouvido, talvez não! Mas veio e disse.

O tempo dirá se mexeu ou não mexeu com as cabeças. Naqueles dias Jesus também recebeu mais ofensas do que adesão. Demos tempo ao tempo. O papa pode estar fora da realidade, mas profetas e analistas do lado de cá e do lado de lá também podem. Eles podem achar que o papa com 60 anos de teologia está por fora da realidade, mas os teóricos marxistas e capitalistas também achavam que sabiam, ou ainda acham que sabem e, mesmo com um vastíssimo poder de compra, de fogo e de marketing nas mãos, deu no que deu. A menos que os jornalistas estejam mentindo, o mundo que parece livre das idéias e Cristo anda mais irado e raivoso!

Por isso valem as perguntas que Bento 16, fez em Aparecida, no número 3 da abertura da 5ª Conferência do Celam: O que é realidade? O que é real? Realidade são apenas os bens materiais, os problemas sociais, os econômicos e os políticos? Porque ainda queremos ser discípulos de Cristo?

As respostas estão na solidez da catequese! Se soubermos ensinar aos que quiserem aprender talvez as coisas mudem. Ser católico só na hora de ganhar aplausos não funciona! Estamos aqui para também fazer perguntas ao mundo que nos faz perguntas.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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