IGREJA, GLOBALIZAÇÃO E DESGLOBALIZAÇÃO

Voltar

Não é preciso ser economista para perceber os fluxos e os refluxos do mercado; um sereno humanismo resolve. Quando se anunciou à farta que o mundo estava inapelavelmente se globalizando, a Igreja, em diversos documentos, entre os quais o de Aparecida em 2007 alertou para o fato de que os costumes e as ondas de comportamento passam. Falava do efêmero da situação humana. O mesmo ela já dissera na Gaudium et Spes, do Vaticano II em l965. A Igreja observa o mundo, mas não surfa em todas as suas ondas.

Naquele distante l965, ainda em plena guerra fria, ela alertava contra o progresso sem justiça e contra a visão monetarista na qual o mundo mergulhara. Condenou a corrida armamentista e os gastos astronômicos que levariam o mundo a desastres e carências. Condenou os governos de partido único e as ditaduras disfarçadas em democracia que, contudo, por pesada propaganda governamental, impunham ao povo dogmas econômicos muito mais exigentes que os dogmas da fé. Um povo forçado a viver aquelas economias não tinha escolha. Tudo isso foi dito de outra maneira, mas com clareza. Fui formado nessa escola de não dicotomizar o mundo em direita e esquerda, cristãos e não cristãos, católicos e evangélicos, progressistas e conservadores. Entre uma onda e outra o mundo tem outras ondas, às vezes bem mais serenas…

Disseram que tudo seria mais barato e acessível se o mundo se globalizasse. Resultado: alguns produtos, sim, baratearam, mas a vida encareceu. O consumismo exagerado e as novas necessidades criadas pelo poderoso marketing que invadiu as mídias a preço de ouro, tornou a vida mais cara porque o mundo se endividou demais para ter aquele pouco mais… Quem ontem podia criar três filhos, agora cria um ou dois e quem podia ter uma casinha com cinco anos de salário, agora, nem com trinta consegue. E a casa que hoje custa dez vezes mais é mais bonita, mas menor do que a dos nossos bisavós nos anos 50. O previsível colapso de algumas nações gastadoras que fizeram empréstimos e depois não têm como pagar a conta, trouxe a festa da gastança e agora traz as lágrimas do arrocho.

A moeda única e o mercado comum, de resto, já protagonizada pelo anarquista Pierre Proudhon, virou realidade, mas não virou felicidade. O mundo de hoje deve mais do que o de ontem devia. Os países ricos devem o olho da cara e os pobres, por conta do mercado de juros pagam de novo o que já pagaram há anos. As ilhas de efêmeras prosperidades, como é o caso do Brasil, Rússia, China e Índia, começam, a descobrir que sua prosperidade depende de países compradores que podem se tornar insolventes.

Resumindo: a Igreja católica, tantas vezes pichada como incapaz de olhar o futuro, porque padr4e não entende de economia… predisse tudo isso no Vaticano II, na Mater et Magistra, na Populorum Progressio, em Puebla e, agora, em Aparecida. Não foi lida nem mesmo pelos economistas católicos. Do seu jeito os bispos alertavam contra a ditadura do mercado e os dogmas da mais valia, que cada dia tem valido menos. O economês pode ter e tem os seus profetas, da mesma forma que os tem a fé. Mas, se é verdade que os crentes devem ouvir os economistas e analistas de mercado, antes de aplicar seu dinheiro, mal não faria se estes analistas ouvissem também as análises do evangelho. Foi Jesus quem alertou, há dois mil anos, contra o acúmulo exagerado, a riqueza ostensiva que se torna ofensiva, a má distribuição das riquezas, a ganância dos tomadores e emprestadores de dinheiro, contra os juros sem alma e contra o dinheiro que gera dinheiro… Ele falava também a um tempo como o nosso. Continua ignorado. Mas o mundo que depressa se globalizou descobriu depressa que o mercado é apressado, mas não é nem nunca será ponderado. Poucas pessoas resistem diante do dinheiro fácil. O resgate da dívida é que não é!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

Wallmedia