A IGREJA DAS ROSAS ESPECIALÍSSIMAS

Era uma vez um jardim cheio de flores. Todas elas, lindas e perfumadas. Flores nunca são feias. Nenhuma era mais flor do que a outra. Havia muitos lírios, muitas açucenas, milhares de rosas e centenas de outras espécies. Mas, no meio dessas rosas decentes e inteligentes, algumas rosas, só algumas, de tanto se auto elogiarem e de tanto ouvirem elogios à sua beleza, enlouqueceram.

 

Um dia, ouviram, de um jardineiro tresloucado, daqueles que falam sem pensar e depois dizem que ouviram aquilo de Deus, que o bom Deus só gosta de rosas. Gostaram da conversa e passaram a ensinar que só as rosas brancas, amarelas e vermelhas vão para o céu das flores. Fundaram a Igreja das rosas especialíssimas.

 

Ensinavam que lírios e açucenas e hortênsias não são flores de verdade porque não cheiram, nem se parecem com flores perfumadas pelo Espírito de Deus. Classificaram-nas como ervas daninhas. O perfume delas viria do demônio. Por isso, quando as outras flores louvavam Deus, elas, as rosas especialíssimas, não iam ao culto das outras flores, nem no das rosas normais e achavam todo o tipo de defeito nelas. Sustentavam que só rosas especiais são perfeitas e só rosas especiais sabem louvar a Deus e servir a Deus; diziam ainda que Deus só gosta de rosas especiais.

 

Como conseqüência, não chamavam as outras flores de irmãs. Irmãs eram só elas, rosas vermelhas, amarelas ou brancas. Segundo elas, as outras flores não eram fieis ao plano de Deus para as flores. Se as outras flores quisessem ser flores de verdade, todas elas deveriam tornar-se rosas porque elas, sim, é que eram flores dignas de Deus.

 

Teimavam em ensinar que lírios, violetas, açucenas, malmequeres ou hortênsias embora pareçam flores, não são puras, nem irão para os jardins eternos; jamais enfeitarão o altar e o trono de Deus… Quem não se vestisse como rosa, cheirasse como rosa e não agisse como rosa não merecia entrar no jardim celeste.  E cantavam que, no principio só havia rosas. Deus não pode ter criado outras flores, porque Deus não criaria nada tão impuro. Assim pensavam aquelas flores amalucadas, motivadas por um jardineiro tresloucado.

 

Uma humilde abelhinha e um beija-flor muito sereno que passavam pelo jardim, acharam aquilo muito engraçado. E a abelhinha comentou:

 

-Para mim não existe flor mais flor que outra. Não são a mesma coisa nem são iguais, mas todas têm seu valor. Eu nem gosto do que as rosas oferecem. Há polens bem mais gostosos. As rosas não estão com essa bola toda.

 

E disse o beija-flor, que de flores entendia:

-Por enquanto isso aqui ainda é um pedaço de céu, mas, no dia em que todas a flores cheirarem como rosas e se comportarem como rosas, isso aqui ao invés de jardim vai virar um inferno. O céu respeita as diferenças. O inferno é que quer tudo igualzinho porque fica mais fácil dominar… Se Deus quisesse que tudo fosse rosas não teria criado milhares de flores… Todas as flores vão para o céu.

 

Isso disse o beija-flor. Mas naquele jardim, as rosas tolas continuam dizendo e ensinando que no trono de Deus só entram rosas.

 

Moral da estória : Algumas flores não conseguem ser ecumênicas.  Acham-se a únicas dignas deste nome! E quase tudo começa com algum jardineiro ensandecido, chamado pregador…

 

© Padre Zezinho scj

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