A observação de um leigo católico de que sou um padre multimídia levou-me a refletir sobre mim e os outros padres multimídia. São inúmeros. Pregam no púlpito, nas liturgias, em templos e palcos e shows, no rádio, na Internet, na televisão, escrevem para revistas e jornais, cantam, publicam livros e canções, alguns dançam e até têm ônibus com o seu rosto estampados nas laterais ou atrás de si nos palcos, fazem uso do marketing, freqüentam os mais diversos programas de rádio e de televisão e usam de todos os veículos de comunicação para levar a mensagem na qual acreditam e do jeito que a entendem e lêem. Alguns deles montaram editoras, emissoras de rádio e de televisão e mergulharam de cheio no anúncio moderno da Palavra de Deus.
Não sou nem posso ser contra, posto que a Igreja pede exatamente isso de quem acha que pode correr o risco da multimídia; risco, porque se trata de um ato de coragem. Eu mesmo faço isso, com menos ousadia do que muitos de meus companheiros. Fui um dos que apostou na mídia moderna, mas fiz minha leitura e outros fizeram as deles. Um livro é o que é, mas seus leitores nem sempre concluem do mesmo jeito. Há que se respeitar o autor e os leitores. O fabricante de macarrão nunca sabe com o que ele será misturado e como o cozinharão…
Assim, a mídia das igrejas. No caso dos católicos, os padres e leigos multimídia sabem ou deveriam saber que há limites que não se ultrapassa, porque falam em nome da Igreja. Mas, no momento, parece que cada um estabeleceu até onde quer chegar. Não havendo normas, cada um inventa as próprias.
Há os que sobem mata à dentro até o topo das oito quedas e há os que vão até um ponto seguro e de lá não passam. Na catadupa da mídia há escorregões e quedas fragorosas, mas há os que chegaram ao topo, de onde se pode ver toda a paisagem e implantar sua mídia e seu jeito de ver a vida. Há os que optaram diferente. Foram mais pé ante pé. Achar adjetivos para os dois é muito fácil. Paulo já condenava isso falando aos coríntios sobre isso de ser de Paulo, de Paolo ou de Cefas…(1 Cor 1,12; I Cor 3,4-5 ) Tolice das piores! Saber o que leva um a correr todos os riscos e outro a ir aos poucos, abrindo picadas mais seguras é algo que passa pelo crivo do discernimento. Coisa para psicólogos e pastoralistas. Mídia com voracidade e ansiedade pode ser corrida de obstáculos em terreno escorregadio. Não se pisa em qualquer terreno!
Olho os mais de 200 sacerdotes ou leigos e leigas, que podem ser chamados de multimidiáticos porque trabalham em três ou mais meios; olho quem está, como eu, há quatro ou cinco décadas diante de microfones e holofotes, vejo os novos pregadores e suas ousadias, concordo, discordo e, quando aceitam conversar comigo digo a eles, pessoalmente o que penso. Acho que um diálogo entre quem subiu antes pelo terreno escorregadio da cachoeira e quem está subindo agora, ajudaria a Igreja. Isto é, se quem criticasse soubesse também elogiar e se o outro soubesse ouvir e entender que alpinistas precisam conversar. Nunca se sabe de onde virá a avalanche!
O que seria dos novos alpinistas sem a prudência dos seus antecessores? O que seria dos velhos alpinistas sem os modernos equipamentos dos novatos? Mas seria muito bom para a Igreja, se houvesse normas bem claras para quem enfrenta milhões de olhos e ouvidos em nome dela e do Cristo. Como está, parece corrida de “vai quem quer e corre como pode!”




