RELIGIOSOS CONFUSOS E PODEROSOS

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Num fatídico dia de São Valentim, no século XIV, cristãos enlouquecidos pela seita dos “Flagelantes” mataram 2 mil judeus em Strassbourg, sob a acusação de que eles trouxeram a Peste Negra para a Europa.

Pregadores enlouquecidos que se flagelavam em penitência pelos pecados do mundo, eles passaram a se apresentar como os santos da hora e os únicos que poderiam salvar a Europa da Peste Negra que matava uma ou duas em cada três pessoas, a depender dos hábitos de higiene da cidade. A peste foi tão devastadora que alguns paises ficaram reduzidos a 55% do que eram. E houve aldeias onde nem 10% sobreviveram. As pessoas caiam nas ruas com pústulas pelo corpo e sufocadas, morriam de morte atroz.

Declarando-se os novos santos e intercessores, porque tinham triunfado sobre a carne, não hesitavam em calar, anular, exilar ou matar quem a eles se opusesse. Deus os tinha suscitado para salvar o povo daqueles demônios. Com o tempo tornaram-se piores do que a peste que combatiam.

Naquele tempo a credulidade popular levava muitos a muitos acreditarem que o mundo estava governado pelo demônio e que se podia respirar inadvertidamente o demônio pelo ar. Era o jeito de falar da gripe que não entendiam. Com tantos males ao seu redor os fiéis tinham que ter proteção. Os novos beatos lhes davam esta garantia.

Uma freira que morreu nove horas após ter comido uma folha de hortaliça foi diagnosticada como vítima de um demônio que ela comeu. Não conheciam as bactérias e seu conhecimento de medicina era mínimo, e além disso, errado.

Então religiosos ignorantes passavam-se por sábios e escolhidos por Deus para salvar o povo da doença e da peste. Havia religiosos prudentes, cultos e sábios, mas não eram ouvidos. O povo parecia encantar-se com os que não liam nem estudavam, mas inspirados por Deus e iluminados pelo céu pareciam donos da nova verdade. Ensinavam barbaridades ao povo que os ouvia e neles acreditava, mas do que nos verdadeiros estudiosos. Ente a palavra do médico e a do pregador, ficavam com a explicação do pregador.

Com o tempo as pregações de religiosos ignorantes que se passavam por iluminados, tornou-se a mais a nova peste da Europa. A febre vinda das pulgas que picavam ratos e as pessoas foi substituída pela febre da religião imediatista que dava recados de Jesus, dos anjos e expulsava todos os tipos de demônios.

Entre os anos 1095- 1294 com os místicos a dominarem a cena a conversa era o fim do mundo que muitos prognosticavam para logo. Até homens tidos como santos davam data para a vinda do Cristo. E garantiam isso aos seus dóceis ouvintes que jamais ousariam questioná-los. Como questionar uma pessoa tão santa? As pessoas esperavam pelo céu, mas o que realmente temiam era o inferno. As descrições de terror, inferno, catástrofes eram inúmeras. Os videntes que falavam do inferno e das suas torturas eram procurados. Falavam de cheiro de enxofre queimado.

Monges como um certo Richalm diziam que o mundo estava cheio de uma massa espessa de demônios. O demônio cansado a um pé de alface e inadvertidamente foi comido por uma freira que morreu logo depois… Teólogos cristãos e maometanos ensinavam que a maioria da raça humana iria para o inferno. Eram poucos os que se salvariam. Só os escolhidos. Até pensadores famosos ensinavam que uma criança que morresse sem batismo iria para o inferno. Só mais tarde outros pregadores ensinaram que a criança não vai para o inferno e sim para o Limbo. Mas para o céu não iam…

Bertoldo de Regensburg autor muito lido no Século XIII escreveu que, para cada pessoa salva, haveria 100 mil condenadas ao inferno. Autores e catequistas descreviam o inferno como um lugar de fogo debaixo da terra. No mesmo século houve grandes santos cheios de misericórdia como Francisco de Assis, Antônio de Pádua e novos santos humildes e serenos, para quem Jesus era bom e amoroso e resgatava pela caridade. Mas os pregadores de ameaças nunca deixaram de fazer adeptos.

Estamos em 2006, sete séculos depois daqueles acontecimentos. Este novo século aparece com características de catastrofismo. Muitos pregadores do medo e do demônio chegam até a conversar com ele diante das câmeras para mostrar o seu poder sobre o maligno em nome de Jesus.

É um tipo de peste pior do que a dos ratos, das pulgas e das aves, pior do que a Peste Bubônica, mais rápida do que a Peste Negra: é a peste do fanatismo e da ignorância que relembra aquele fatídico século XIII. São novos pregadores que criam até demônios da unha encravada, da dor de cabeça e da diarréia, ou são pregadores guerrilheiros e terroristas que mandam seus seguidores se explodirem matando as pessoas de outro país ou de outra crença.

O remédio contra os demônios e encostos é sempre e, infalivelmente, uma visita ao templo daquele pregador – e não pode ser de outro-, onde serão expulsos por alguém que tem a luz de Jesus. A pessoa liberta dos demônios tem lá um refúgio seguro contra a contaminação onipresente de satanás. Um desses pregadores chegou a dizer num programa de televisão que todos ali naquele templo tinham o encosto. Só que ele ainda não tinha se manifestado…

A multiplicação indiscriminada de pregadores, de milagres, visões, recados do céu, tendas de milagres, casas de graças, lugares de prodígio, tardes de exorcismo mostra que caminhamos rapidamente para uma era de domínio desses pregadores. O confronto entre eles mesmos é inevitável porque estão falando de poder sobre os demônios e por conseguinte poder sobre os fiéis dado a eles e não aos outros. Quem prega ou pensa diferente não tem chance perto deles.

Os primeiros sinais têm sido massacres de fieis que oram num templo de outra corrente muçulmana ou hindu, destruição de templos e imagens dos outros, agressão direta e ameaças pela mídia, passeatas ditadas pelo ódio, com pedido de morte a quem os desafiou.

Os religiosos ponderados não têm força para detê-los. Tais pregadores de fim dos tempos e de catástrofes iminentes são aplaudidos como se soubessem do futuro. Milhares lotam seus templos para ouvi-los falar do que os salvará: a santidade pessoal, adquirida onde? Nos templos deles ou nos escritos deles. Quem está com o demônio? Quem os questiona!

Tal peste pode se espalhar ainda mais depressa porque é divulgada pelo rádio e pela televisão.

Vencerão os lideres religiosos sensatos que realmente conhecem a Bíblia e a História e que sabem onde deram as mais de 200 profecias e os mais de 200 pregadores de fim de mundo? O povo ouvirá os que pedem diálogo e solidariedade ou os que garantem que só eles sabem o caminho da salvação? Quanto tempo levará até que as autoridades percebam que já se inventou demônio demais e já se instalou no povo excessivo medo e dependência em nome da fé?

Quando um grupo religioso cresce demais se pode esperar opressão. Religiosos no poder não sabem conviver com quem discorda deles! Imediatamente jogam seus fiéis na rua e invocam os seus números para provarem que Deus lhes deu autoridade. Estão-se crescendo e ninguém mais os deterá é porque Deus quer que o mundo siga a pregação deles!

Podem estar errados? Sim e estão, mas quem vai convencê-los disso, se o poder está nas mãos deles e se, inebriados por suas obras e por seu crescimento e suas conquistas em menos de 50 anos vivem a certeza de que um dia o mundo orará, cantará e louvará do jeito deles? Ario, Donato, Montano, Nestório e outros criadores de grupos iluminados também tinham certeza de que Deus estava com eles porque eram muitos. Fundaram seus grupos e suas igrejas. Duraram algumas décadas ou séculos, mas passaram, não sem levar muitos com eles.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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