Ter chegado aos 70 anos de vida e aos 45 de sacerdócio e pregação não me recomenda mais do que os outros meus irmãos chamados ao mesmo ministério. Alguém aos 30 anos pode ser exímio pregador da fé, rico de conhecimentos e prudente no falar e outro, aos 70 pode não ter aprendido a arte de subir ao estrado e ao púlpito para anunciar e propor caminhos de fé.
Falo, então, como alguém que escreveu, pregou, publicou, cantou e chegou às multidões e aos pequenos grupos, lecionou e ainda leciona, é chamado a dar conferências para pais e educadores e exerce sua missão atrás de microfones e diante de câmeras.
Acho que tenho algo a dizer sobre isto de enfrentar holofotes, subir a palcos, estrados e púlpitos falar e cantar por duas ou três horas ao povo que vem de longe ou ao povo que me chamou. Meus irmãos pregadores idosos como eu, e meus colegas mais jovens é que podem escolher não me ouvir ou ficar com seus outros mentores, que também sabem do falam quando propõem as suas teorias. Eu proponho as minhas.
Sobre o uso da mídia minha práxis e minhas ideias são simples. Conto histórias que depois facilitam a nêmesis da questão. A luz do sol queima e causa bolhas em quem se expõe demais e sem a devida proteção; helicópteros caem mais por imperícia dos pilotos que achava fácil subir sem as devidas aulas de pilotagem; balões com ou sem GPS matam o pregador que diante da mídia sobe confiante de que os ventos não o desviarão; barcos naufragam quando seus condutores não escolhem caminhos profundos, ou quando ignoram a tempestade que se avoluma e saem afoitos confiando na graça de Deus e na própria perícia. Hã ondas que não se enfrenta: não com parcos recursos de navegação. O próprio Jesus recomendou prudência de guerreiro e de combatente aos seus discípulos.
Mídia de um jeito ou de outro supõe perícia ou imperícia, da mesma forma como o manejo da luz ajuda ou prejudica o espetáculo. Quando Paulo afirma que somos dados em espetáculo ao mundo diz uma verdade fenomenal. Nem que não queiramos, quando estamos lá anunciando Deus e caminhos para Ele, estamos em evidência e os olhos do povo estão voltados para nós, mais do que seus ouvidos. E ali que o pregador da fé naufraga ou por não ir fundo, ou por arriscar demais, ou por abusar da luz e da própria imagem, sobretudo em tempos de mídia para milhões…
É bem mais fácil lidar com a assembleia que conhecemos do que a multidão que jamais veremos. O discurso não pode ser o mesmo. Tirar um helicóptero do solo por alguns instantes não é a mesma coisa que subir a 3 mil metros e viajar com ele oitenta km enfrentando ventos e nuvens. Pilotar a lancha no raso é bem mais fácil do que enfrentar as ondas a 6 km da costa. Quem não estudou para isso não deve sair de sua área de segurança.
Professor de Comunicação Religiosa e observador da linguagem das igrejas, no caso dos católicos, tenho visto e ouvido pregadores, leigos e sacerdotes que não se preocuparam em aprender o mínimo necessário para vôos mais longos da pregação católica. Lembram o porteiro do hospital que ousou operar o coração dos pacientes porque não havia médicos naquele dia. Lembram o guarda do cais que entrou na lancha e saiu para o mar alto. Lembram o rapaz que achou que sabia pilotar um Cessna porque seu tio tinha um e ele voara muitas vezes ao lado do seu tio…
Percebe-se que tais pregadores falam do que não sabem. Não leram o CIC (Catecismo da Igreja Católica). Numa entrevista, a moça que dirigia um programa católico de orações e intercessões perguntou-se como se tirava este CIC de católico… Confundiu CIC catecismo com CIC carteira de identidade católica. Um rapaz que fala a milhões de pessoas no seu programa, perguntou ao bispo se Puebla era alguma comunidade cristã primitiva…
São mais do que imaginamos. Tiveram uma chance de pregar e agarraram-na com cara e coragem e fé. Mas não fizeram a sua parte. Não se prepararam, não lêem, não estudam Bíblia, não conhecem os principais documentos da Igreja para todos os fiéis. Ignoram as principais encíclicas e os principais documentos para Brasil e a para a América Latina. Mas sabem e divulgam os documentos que interessa ao se movimento de Igreja.
Acontece que aquela mídia, criada ou gerida por eles, pertence a todos os católicos porque atinge inúmeras dioceses. Não podem, portanto orar em línguas, expulsar demônio, pausar a missa para curar enfermidades atribuídas ao inimigo, ou assumir pregações e práticas que a Igreja permite ao grupo que as viva em grupo, mas não acha correto que se faça na mídia que supostamente é para repercutir documentos oficiais da Igreja e analisar o Catecismo para todos.
Não faz sentido pregar a fé com sotaque do movimento, com sotaque da ordem ou congregação e por lá um pregador ou uma pregadora que não conhece a doutrina católica a fundo. Seria como entregar um navio de grande calado a alguém pouco perito que navegará pelo raso e, mais dia menos dia, o encalhará porque não ouve o prático que conhece o leito do rio.
A doutrina da graça precisa da doutrina da prudência e da sabedoria. Está na mesma Bíblia que nos pede para confiarmos em Deus… Se cremos que Jesus é Deus, então Deus quando esteve neste mundo e era visível disse que quem sai para a festa deve levar provisões, quem vai pelo caminho deve levar a bolsa, quem se propõe a construir deve saber se tem cacife, quem se propõe a sair como soldado em ordem de batalha deve sabe conhecer mais do que a estratégia do inimigo: deve saber se seus combatentes estão preparados.
Jesus não pregou o Reino do improviso, do Deus dará um jeito, ou do orai que Deus fará o resto. Além de orar precisamos saber das coisas daqui e crer nas coisas de lá. Um pouco mais de escola, de filosofia, teologia, pastoral, psicologia, antropologia e sociologia ajudaria muito aquele que empunha um microfone da fé. Pelo menos terá perguntas mais sólidas a fazer a pessoas também sólidas que ele se encarrega de convidar.
Tenho seguido as entrevistas de católicos, evangélicos e pentecostais e vejo, com alegria que há os que buscam abrangência e profundidade. Mas há, também, os parcos de recursos e conhecimentos, que não saem nunca da vivência pessoal, do testemunho de vida, do anúncio da última canção gravada, ou da última cura testemunhada. Estão lá para exaltar o Senhor, e não para abrir os olhos do seu povo para as grandes negociatas e as imensas corrupções e desvios de verbas e negociatas à luz do dia. Pregam apenas o Deus que os salvou e salvará, mas estão longe de haver lido Isaias, Jeremias, Amós e Oséias. Também não devem ter lido com atenção os salmos dos quais pelo menos 120 têm cunho politico e questionador de uma sociedade injusta. Cantam apenas a parte do louvor.
Por entre glórias a Deus e aleluias não se ouvem doutrinas de como viver num país violento, corrupto, cheio de crack, viciado em craques da bola, craques da telinha; que toda semana canoniza mais um cantor ou artista e raramente fala dos santos de ontem e de agora; que dá cobertura à crise dos hospitais, mas não vai lá mostrar um hospital católico dirigido por freiras que não deixam ninguém na porta esperando por cuidados.
Vivem num mundo que chama de conservador quem é contra o aborto ou contra o divórcio e a pregação do sexo sem compromisso; que considera moderno quem se cala diante das graves questões nacionais, mas ora divinamente e canta maravilhosamente o amor de Deus por ele… Moderno agora é orar por novos convertidos e ultrapassado é lutar pelo direito dos fetos e dos aposentados. Ligue o rádio e a televisão religiosa e cheque o conteúdo das falas e pregações. Onde está Mateus 25, 31-46? O que mais se vê e se ouve está em Mateus 7,15-22.
O excesso de individualismo leva pregadores a ousados marketings e ousadas auto-exposições que salientam seus rostos e suas pessoas para vender mais os seus produtos. Os documentos oficiais de sua Igreja fiam nas poucas estantes de quem os comprou e leu. Não são retransmitidos senão por algumas emissoras onde o apresentador tem formação cultural católica sólida. Assim, o livro do papa, cheio de conteúdo e solidez nem sequer ganha dez segundos no dito programa, mas o livro do pregador é fartamente divulgado dia após dia. E o povo fica sabendo o que escreveu o pregador famoso, mas não o que disse o papa que é um dos homens mais cultos do nosso tempo.
Nada contra a divulgação de alguma obra, ainda mais se for usada em benefício de algum projeto de Igreja, mas alguém teria que usar do mesmo espaço para levar os fiéis a conhecerem o que o papa e os bispos acabaram e dizer e mostrar também aqueles livros… Ou estarei propondo o impossível?
Nos meus programas- e quem os viu já sabe- mostro mais os livros dos outros do que os meus, e embora tenha composto mais de 1.700 canções e gravado mais de 120 CDs canto pouco; dou o espaço para os jovens. Não vendo meus escritos e canções. Deixo isso ao encargo da editora. Minha missão é falar do Deus que age em mim, mas age também nos outros e apontar para os que têm algo mais profundo do que eu a dizer ao povo. A mim o povo já ouve. A eles, não ouve nem conhece bem. Então eu os revelo para que lhes seja dado o espaço que me foi concedido. Prefiro que o povo conheça o que diz o Papa do que o que eu digo.
Entre outras práxis e propostas tenho proposto que se divulguem mais as vidas dos verdadeiros santos que já estão com Deus. Quero saber mais dos santos canonizados do que das vidas dos pregadores do momento. Quero saber mais do que disse o Papa do que o que anda dizendo o pregador que mais repercute no momento. O que ele diz não tem mais profundidade do que o que dizem o papa e os bispos. Não quero vender milhares de livros se o povo não ler também os do papa e de outros pensadores católicos. Quero mais profundidade e mais catequese católica e menos destaque para nós pregadores da mídia. Estamos lá para ressaltar os outros e não a nós mesmos.
É um pouco do que penso e do que ensino. Se acha que erro, fique com os outros. Se acha justo pop que digo, procure hoje mesmo algum livro do papa e algum documento da Igreja. Vai ver mais sabedoria lá do que nos livros de pregadores famosos, os meus inclusive! Entre aqueles e os meus livros, fique com aqueles. Bispos e papas têm mais a dizer do que eu. Meus escritos só se justificam se apontar para quem sabe mais do que eu. Para isto serve a fama por mais relativa que ela seja!




