PULPITO E PROJETO PESSOAL

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Não deixa de ser perturbador o fato de que nos últimos 40 anos, para conseguirem realizar seus projetos na mídia, inúmeros pregadores e pregadoras tenham deixado suas ordens, dioceses ou congregações. Transplantaram-se para vicejar. O assunto é tabu e ninguém gosta de ouvir falar do fato. Consideram julgamento moral, quando na verdade é constatação de algo mais profundo no seio da Igreja. Como tal, desde que não se citem nomes, deve ser estudado porque tem implicações psicológicas e sociológicas. Como no caso do bispo Donato, se não se toma providências, alastra e acaba em aberta dissensão!

O que houve com estes religiosos que desejavam engajar-se na mídia? Viram mais longe? Seu grupo não estava preparado para entender as novas exigências da evangelização? Viram mais do que seus companheiros que ficaram? Foram injustiçados a ponto de não poder fazer o que sonhavam? Ou seu projeto pessoal era tão grande e abrangente que não cabia mais no seu voto de obediência àquele bispo e àquela comunidade?

Há um púlpito que dói e já se falou dele à farta. Dói em quem formou o pregador de cuja eficácia quem o formou não pode mais participar. Se proveito há, e há, outros que não o formaram recebem as benesses e quem formou foi apenas plataforma de lançamento.

Outro cenário

Merece reflexão profunda o fato de que, para evangelizar alguns pregadores precisaram de outro cenário, outros impulsos e outros ambientes. Caímos na questão da palavra dada e da fidelidade. É válido ir embora realizar um novo sonho porque o grupo não o possibilitou? Não havia no meio um voto de obediência e uma proposta de renúncia em favor do coletivo? E onde ficou ela quando venceu o indivíduo com o seu projeto, sua nova carreira, seus novos vislumbres e suas novas obras?

Um jovem americano que sonhava ser químico entrou para uma companhia que se dispôs a custear seus escudos e mestrados, posto que ele era uma promessa. Por dezesseis anos estudou à sombra da Q E. Companhia de Produtos Químicos! Nome fictício para situação real… Tudo ia bem até o dia em que tendo criado alguns novos produtos e, desejoso de crescer ainda mais, pediu um laboratório mais completo para si e para sua equipe. Não lhe foi concedido. Outra companhia percebeu seu potencial e lhe ofereceu chance de crescer, laboratório e dez vezes mais do que percebia na Q & E. Não hesitou. Entre o que tinha prometido e recebido e o que poderia conseguir e receber escolheu a si mesmo. A Q & E lhe coarctara a criatividade. Foi o que disse! Saíra para ser coerente consigo mesmo! Está rico e é solicitado para encontros no mundo inteiro. Pelo novo contrato ele está proibido de mencionar o nome da companhia que lhe possibilitou a formação que tem. Quem não sabe considera-o genial e eficaz. Quem sabe, inclusive a mãe, acha que ele perdeu alguma coisa no transplante. Pragmático, ele afirma que não cresceria, se não tivesse ido embora.

Injunções psicológicas

Haverá sempre uma dor em quem acha que precisa ir porque não foi respeitado no seu direito de crescer. Se tiver sensibilidade o conflito explodirá mais tarde, como0 explode em casamentos terminados sem a devida solução! Foi abandono d e fidelidade e descumprimento de promessa. Haverá outra dor no que ficou e entendeu que não se muda uma história por razões de crescimento pessoal.

No seu livro A Transparência do Mal Jean Baudrillard chama a este crescimento de excrescência. É um crescer fora e por fora. Em religião chama-se de transcendência a capacidade de ir além, sem romper com o limite. No caso de ser preciso romper com alguém, algum grupo ou alguma linha divisória, ou a linha era estreita demais ou o sonho era demasiadamente grande. Aí faz sentido refletir sobre ascese, perder o mundo inteiro para ganhar-se, ou conquistar o mundo com o risco de perder-se.

Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma? (Mt 16, 26)

Projeto pessoal e projeto midiático

A mídia e o projeto midiático são hoje duas grandes tentações colocadas diante do pregador. Lembra o demônio e Jesus na montanha e o “tudo isso te darei, se cederes a mim…”. (Mt 4,9) . Cantar a canção com heresia sobre Maria porque a gravadora não faria o disco, se fosse mudada aquela letra, ou renunciar ao CD, mas não cantar o que um católico jamais poderia cantar? Qual a escolha? Ir ao programa, mesmo sabendo que o cenário contradiria a mensagem, mas ir, porque mesmo assim haveria chance de anunciar Jesus para 70 milhões de pessoas? O papa iria? De 100 bispos, quanto iriam? Vale tudo para se atingir a multidão?

O desafio é grave. Subir ao púlpito para falar a milhões, ou não subir porque atrás do púlpito há uma mensagem que contradiz o evangelho? Escolhem-se os milhões de olhos ou a Palavra de Deus que, literalmente, proíbe dar pérolas aos porcos?( Mt 7.6) Há ou não há lugares adequados e inadequados? Está correto um projeto que não liga para os lugares da Palavra? Se não há diferença entre o caixote e o púlpito, o palco e o presbitério, há certamente uma enorme diferença entre a boate e o templo! Clima de templo em qualquer lugar pode até ser admirável, mas clima de boate no templo não faz absolutamente nenhum sentido.

Por conta de maior divulgação não estamos caindo na vulgarização da mensagem? A pergunta visa provocar. Quem sabe o que quer terá suas respostas e deve ser ouvido. Quem não demonstra saber, pelo menos tem algumas perguntas a desafiá-lo. Não se sobe impunemente, nem ao pequeno nem ao grande púlpito!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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