PREGADOR E PROSELITISTA

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Numa cidade do interior de Minas gerais havia um sacerdote católico de alma ecumênica. Um dos pastores das igrejas vizinhas não era. Poderia ser o oposto, como de fato também acontece. Mas, no caso que serve como paradigma, o padre não era proselitista e o jovem pastor era.

De fato, há pregadores cristãos incapazes de se imaginar pregando sem arrastar um fiel da outra igreja para a sua. Confundem converter para Jesus com puxar para a sua assembléia. Só é convertido quem ora com eles, canta como eles, lê a Bíblia como eles e segue os ritos deles.

O problema é ético, é moral. Se há uma política e uma ciência moralmente ambíguas, também há uma fé moralmente ambígua. Quando da construção em Los Alamos, da primeira bomba atômica americana, Litze Meiner que era uma cientista de formação judia, negou-se a participar da sua construção. De outra feita, dez mil cientistas e engenheiros assinaram publicamente, nos Estados Unidos o compromisso de não trabalhar na Guerra nas Estrelas e de não aceitar nenhum dinheiro da SDI. (Iniciativa Estratégica de Defesa) Aumentaria o ódio no mundo e geraria no planeta um inverno nuclear que baixaria o clima da Terra de 10 a 15%.

Cientistas como Edward Teller, tido como o pai da Super Bomba H, e políticos como Ronald Reagan, queriam aquele escudo. Segundo os que assinaram o protesto, assim não valia a pena serem cientistas. Pensaram na humanidade e no diálogo.

Hoje os poucos paises que possuem bombas, sem que o mundo lhes desse direito a elas, querem que o mundo negue aos outros o direito do qual eles se apossaram. Se tais paises destruíssem suas bombas e aceitassem o controle de uma comissão internacional, poderiam exigir de outros que não desenvolvam usinas nucleares. Mas eles acham que ninguém pode inspecioná-los, enquanto exigem este poder sobre os outros. Em resumo, eles podem e os outros, não! Dupla moral e dupla medida. Eu posso tê-la porque sei o que fazer e os outros não podem porque não saberiam tê-la. Se para o mundo é perigoso que todos tenham, também é perigoso que seis a dez paises a tenham. É um jeito injusto de fazer política ou ciência. Deus não os fez nações para se sentirem mais do que os outros. Mas eles alegam que seus líderes sabem o que fazer com suas bombas. E será que sabem escolher seus líderes, um dos quais um dia dará a ordem fatal para o seu exército?

Fé ambígua

Dá-se o mesmo com as religiões. Quando um pregador se revolta contra a igreja que vem tirar dele os seus fiéis, mas acha perfeitamente válido que ele tire os fiéis das outras igrejas, estamos num campo minado. É fé ambígua. Eles podem escrever para a tia, os primos ou chegar a uma família católica e convidá-la conhecer a verdade deles, mas aí de quem convidar alguém deles para ser católico. Aí, não pode! E não pode porque Deus revelou tudo a eles e só eles sabem ler a Bíblia e interpretá-la. Não há outra maneira de crer senão a deles. Os, outros, por mais doutores que sejam, mesmo com 40 anos de estudos, mesmo com três ou quatro doutorados são tapados, bobalhões, burros, sem luz alguma, em suma, uns coitados! A garotinha ou o garotão de 20 anos sabe mais do que todos eles. Quanto mais gentil se é com eles, mais abusam. Querem levar todo mundo para a sua religião, mas ninguém toca nos seus fiéis. E há quem ache isso unção e graça de Deus… Acham-se mais do que os outros e pensam que Deus os abençoa ricamente por sua falta de respeito por religiões com séculos de existência. Se tais religiões erraram ontem eles erram hoje copiando comportamentos ultrapassados. .

Presumidos e prevalecidos

Ao invés de diálogo e respeito pela pregação dos outros, o pregador age como se sua pregação fosse a única certa e que, portanto Deus dá a ele o direito de encher o seu templo com ex-fiéis dos outros grupos, que ele foi aliciar nem sempre com a verdade.

Honestos para com Deus

O ecumenismo supõe a honestidade de admitir que haja o que aprender um com o outro e há verdades em comum a serem vividas. As diferenças sejam respeitosamente administradas, mas um não puxa os fieis do outro! Caso um fiel escolha ir para lá, que seja escolha dele e não bombardeamento do pregador que precisa encher seu templo, porque só lá se conhece a verdade mais verdadeira.

No fato que deu origem a esta reflexão, o sacerdote católico aceitou, com a anuência do bispo diocesano, celebrar um casamento ecumênico no templo da outra igreja. O noivo era católico. Conhecendo os pegadores e as comunidades, o bispo achou que, naquele caso seria um gesto amigo. O pastor tinha permitido, em outros casos, que seu fiel fosse ao templo católico. O clima era de muito respeito e amizade. Era ecumenismo sadio.

Naquele dia, o pastor teve que viajar e, não o encontrando pessoalmente, mandou um bilhete para o colega e amigo católico, com um pedido de desculpas. Solicitou ao amigo pastor da igreja vizinha que viesse e este, impossibilitado, delegou a função para o novo pastor da mesma fé evangélica, porém de uma cidade vizinha. Era jovem, recém empossado e viera dos Estados Unidos, onde estudara Bíblia.


Não deu outra! O pastor convidado, jovem ainda, não acreditava em ecumenismo. Era proselitista de primeiro costado. Quis pregar sozinho, mas o pai da noiva insistiu que queria a palavra do padre católico. Assim se fazia nas duas igrejas. Nas cerimônias em conjunto falavam os dois.

Contrariado e visivelmente amuado, o jovem pregador deu a palavra ao padre visitante, que falou aos dois, noivo e noiva, sobe a importância de dois cristãos de igrejas diferentes conviverem em quase tudo na unidade do amor e da fé. Que com sabedoria e respeito mútuo, em função filhos que teriam, eles administrassem as diferenças diante do Senhor. Foi aplaudido pela sua serenidade e pelo carinho das duas igrejas que o admiravam pela sua presença amiga na cidade.

O jovem pastor falou a seguir. Foi um tapa depois de outro na cara da noiva, do noivo, do padre católico e da assembléia. Era proselitista. Falou para a noiva da sua igreja da impossibilidade de um casamento dar certo quando o noivo não se converte a Jesus. Olhando para a noiva, instou com ela para que assumisse a missão de trazer o seu marido para a verdadeira fé, das trevas para a verdadeira luz. Convidou o noivo a procurar Jesus na igreja da noiva. Instou os presentes de outras igrejas a conhecerem o verdadeiro Jesus. Disse que aquele casamento era auspicioso porque significava que o amor trouxera alguém para a verdade. O fato de o noivo católico aceitar casar numa igreja evangélica era uma vitória de Jesus.

A festa acabou ali. Os católicos se retiraram, ainda durante a cerimônia. A noiva chorava aos prantos. O noivo ficou lívido. Na sacristia só faltou o pai da noiva bater no pregador. Levantou a voz dizendo que aquilo fora um crime contra Deus que é pai de todos e contra Jesus, que pediu respeito e unidade entre os que o seguiam. O jovem pastor o enfrentou em nome da Bíblia. A mãe chorava a um banco no ombro da irmã e da filha que se casara em clima de guerra por causa de um pregador inflexível e sem educação.

Não houve bolo. A comunidade evangélica foi embora humilhada. Não mereciam aquilo. Ninguém merecia. Alguns jovens quiseram quebrar o carro do pregador. Foram impedidos por alguns senhores católicos e evangélicos. O padre foi embora silencioso e triste, depois de beijar o noivo e a noiva e, sem dizer nada, consolar os dois casais. Disse que os visitaria depois, coisa que fez no domingo.

Quando o velho pastor voltou e soube, seus olhos se encheram de lágrimas. No domingo seguinte às três da tarde, o velho pastor, o velho padre, o pastor titular da outra igreja que não pudera vir e delegara a função ao novo pregador estavam todos consternados, a pedir perdão às duas comunidades pelo trágico incidente. Jesus certamente não abençoa tais comportamentos. Os três amavam Jesus e queriam unidade e respeito. Havendo diferenças, elas eram administradas com afeto de irmãos que eles eram.

O jovem pregador proselitista, quinze dias depois foi transferido pela direção da sua igreja para outro Estado com o aviso de que, se tornasse a provocar tamanho conflito, seria demitido de todas as funções. Sabe-se que ele mudou de igreja e aderiu a uma outra, proselitista, dessas que não admitem ecumenismo e, hoje, prega do mesmo jeito numa periferia de São Paulo. Tem tido conflitos com pregadores evangélicos que não aceitam seu jeito radical de converter pessoas. Não se consideram seus colegas.

Infelizmente, ainda hoje, para alguns pregadores católicos, evangélicos e pentecostais, dialogar é coisa de demônio. Dizem que quem puder tirar o fiel do outro, deve fazê-lo. Não são pregadores: são pegadores. Pegam quem podem e puxam quem podem. Segundo eles a vitória será de quem pregar a doutrina pura, sem mistura e sem concessões. Acreditam que Deus os escolheu para devolver ao mundo a pureza dos primeiros cristãos que, aliás, deram muita dor de cabeça aos apóstolos! Dizem que o mundo será salvo pelo fundamentalismo! É o que se houve e o que se vê em alguns templos, emissoras de rádio e congressos. Ou é falta de leitura da Bíblia, ou é leitura selecionada. Só valem os trechos que enchem seus templos! Fé ambígua!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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