Passei dois longos períodos na Itália, nos anos setenta. O comunismo ainda não sofrera as acachapantes derrotas que aconteceriam dos anos 83 em diante. Era, pois freqüente ouvir a propaganda dos governos da Romênia, da Albânia e outros países comunistas, em italiano, português e francês. A impressão que davam era a de que seus paises tinham progredido em paz e que os pobres ocidentais estavam cada dia mais esmagados pelos seus governos anti-democráticos cruéis e violentos. É claro que não enganavam nem mesmo os mais simples dos seus colonos, que também tinham aparelhos de rádio e também ouviam o outro lado. Chamavam suas ditaduras de Governo do Povo.
Falavam como sectários. Só eles eram bons. Só eles eram certos. O marxismo venceria e o mundo seria comunista. Igrejas, capitalismo, partidos ocidentais, todos pereceriam. A fraternidade era e seria cada dia mais comunista. Erraram! Seu sistema envelheceu depressa e nem precisou ser conquistado. Morreu engasgado pelas próprias palavras. Falou tanto que ninguém mais agüentava ouvir aqueles auto-elogios. Principalmente porque era marketing falso e mentiroso.
Palavras curam, mas palavras demais machucam e matam. A palavra certa pode salvar e amadurecer, mas a palavra excessiva e as intermináveis repetições produzem efeito contrário. Jesus ridiculariza isso (Mt 6,7-9) ao dizer que alguns pagãos achavam que a oração valia pelo palavreado ou pela quantidade de palavras. Sugeria moderação: menos palavrório e mais conteúdo ( Mt 6, 9-12)! A seguir dá o exemplo no “Pai Nosso” de como se pode falar ao Pai com conteúdo de louvor, de súplica, de contrição e de compromisso.
Historiadores e sociólogos afirmam que uma das razões da derrocada do comunismo foi a diarréia de palavras. Seus propagandistas falaram demais. O povo se cansou da mesmice! O regime não tinha mais o que dizer.
As religiões precisam tomar o mesmo cuidado. Quando pregadores e fiéis, toda a vez que abrem a boca, acabam usando os mesmos vocábulos, as mesmas expressões, as mesmas orações, e até o mesmo acento, podem começar a se preocupar. É falta de conteúdo. Alguém lá não anda lendo os outros, nem ouvindo os outros segmentos de sua Igreja. Aprisionados na própria espiritualidade e nos próprios vocábulos acabarão sem ter o que dizer. Não ouviram os outros e agora não são suficientemente criativos para se libertar de seus cacoetes ou de sua tautologia. Todo mundo já sabe o que eles dirão. Veja, ouça, estude e confira! A verdadeira ascese é muito mais criativa! Deus é criativo!




