Mal ditas ou mal entendidas, algumas palavras podem gerar enormes conflitos, ainda que expressem a verdade que o outro lado não deseja ouvir; ainda que sejam ditas com a melhor das intenções. Pessoas famosas precisam de maneira especial tomar cuidado até com os pontos e vírgulas das entrevistas que dão, ou dos discursos que pronunciam. Do outro lado, adversários esperam por esse descuido. Um “s” a mais ou duas palavras fora de contexto são o quanto basta para que levem adiante o seu objetivo. Quem busca um pretexto para justificar o que faz precisa apenas de uma palavra confusa do lado desafeto. Acontece com os políticos, com os religiosos e com os artistas.
Atinge o papa, o presidente, o cantor, o esportista, a atriz, o super-astro… As pessoas ouvem o que dizem que eles disseram e não mais procura saber se realmente eles disseram aquilo que se disse que disseram. Nem procuram saber o contexto. Ficam com o boato e com a distorção, mas não com a verdade.
Inocentemente o fumante Gerson famoso como jogador de futebol brasileiro segurou um cigarro numa propaganda de televisão e recitou o texto de um publicitário no qual, alardeando as vantagens do cigarro em questão deveria dizer: – Leve vantagem você também. Alguém maldosamente levou a propaganda para o lado político e moral e o Brasil passou a falar da lei de Gerson, quando Gerson nada tinha a ver com os corruptos e aproveitadores deste país. Frase mal dita e manipulada por gente mal intencionada e difundida por quem não quis saber do contexto.
Anos atrás Pelé e nos últimos anos Gilberto Gil, Caetano Veloso, Lula, Fafá de Belém, Luana Piovani, Paulo Betti, Wagner Tiso, bispos e sacerdotes católicos, deputados e atrizes foram citados fora de contexto e isso lhes custou enormes aborrecimentos. MiIhões de pessoas lêem a manchete e o comentário, mas não se importam em saber o que realmente foi dito e como foi dito. Isso lembra a história da entrevista tendenciosa feita a um bispo a quem o repórter ateu perguntou: God is now here? O bispo respondeu : Yes, God is now here. No texto o repórter juntou as duas últimas palavras. Quem leu o texto e não ouviu o bispo ficou informado de que, ao invés de dizer Deus agora está aqui ( now here) teria dito que Deus não está em lugar algum ( nowhere). Bastou alguém tendencioso juntar duas palavras e o santo bispo defensor do milagre da eucaristia foi transformado em ateu.
Isso dá uma idéia dos riscos de um pronunciamento ou de uma entrevista. Ainda bem que hoje em dia existem pequenos gravadores que podem registrar até 70 horas de entrevistas. Sugiro aos artistas, religiosos e políticos que tenham dois deles onde quer que estejam. Se um falhar, o outro os defenderá. Nada contra os repórteres. É que muitas vezes eles colhem a matéria, mas é um outro que a redige e transforma em manchete. Coisas de impacto e de vendagem…




