PADRES MIDIÁTICOS

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Havia os padres apostólicos, os padres missionários, padres pregadores, padre diocesanos, padres educadores, padres religiosos. Era assim que o povo, ou os especialistas falavam. Há um novo tipo de padre na praça. O padre de mídia. E não se entenda isso de forma depreciativa. É bom e auspicioso e pode ser muito bom para a Igreja, nesse tempo de milhões de católicos indo para outras igrejas que mergulharam de corpo e de alma na mídia, tempo de poucos ministros ante a multidão de ovelhas sequiosas por ouvir palavras de consolo.

Há o padre na mídia e há o padre de mídia. Ir de vez em quando não é a mesma coisa que estar lá o tempo todo. Para alguns de nós, embora importantíssima, a mídia é secundária. Para outros irmãos, ela é primordial. É a palavra ampliada. Vivem desta mística. Não é uma diferença sutil. Mexe com as estruturas da pessoa. Padre para as quatro paredes do templo ou da escola ou padre para milhões? Pregador para fiéis que posso ver ou para fiéis que nunca vi nem jamais verei, mas que bebem dos meus ensinamentos? É possível conjugar as duas experiências? Há quem consiga, e há quem não.

Quem escolhe direcionar o seu ministério para multidões em retiros, shows, palestras, canções, programas de rádio e de televisão, entendendo-se chamado a falar às massas, segundo dizia Paulo dos que desejavam o episcopado: bonum opus desiderat, deseja uma coisa boa. É claro que a Igreja precisa de comunicadores que saibam chegar a milhões, conheçam os instrumentos modernos, saibam manuseá-los e queiram usá-los ao máximo da sua capacidade. É um ministério até há pouco secundarizado ou até diminuído entre os sacerdotes. Para alguns, não parecia sacerdotal. Era coisa de artista! Também o povo queria saber se éramos padres de paróquia ou de colégio. Qualquer outra missão lhes parecia estranha. Padre que canta, dança e faz cantar e dançar? Padre que se assessora de artistas, cantores, e faz shows na praça? Padre que fala debaixo de luzes e holofotes? A atuação de João Paulo II dissipou algumas dessas dúvidas. Sabendo usar, só pode ser bom!

O fato é que o advento da mídia e sua abertura escancarada para as religiões, que mergulharam seus pregadores de corpo e de alma naqueles microfones e naquelas câmeras suscitou novas vocações e novos enfoques para o ministério também do sacerdote católico. Há milhares de horas de programas semanais de evangelização, conduzidos pelos pregadores das mais diversas religiões através da mídia no Brasil. Façamos as contas. Só em quatro das sete emissoras de televisão, católicas, contabilizou-se, por dia, uma média de 60 diferentes programas, já que suas grades são diferenciadas. Por mês são mais de 1.600 horas de programação com uma sucessão de convidados e pregadores para alimentar a sede de fé dos telespectadores católicos. Acrescentemos as emissoras de rádio, que tranqüilamente passam de trezentas cada qual a sua programação, às vezes coligadas, e teremos um quadro que chega tranqüilamente às 5 mil horas de programação. Os evangélicos costumam ir ainda mais longe no uso da mídia.

Até aos anos 80 isto era impensável. Houve uma explosão da mídia religiosa, que se pulverizou em milhares de programas e emissões. A hora é da mídia religiosa e dos pregadores dessa mídia! Tornam-se seguidos ouvidos, ovacionados procurados e conhecidos. O profeta ultrapassa o apóstolo em credibilidade. Opondo-se ao que propõe Paulo em 1 Cor 12,28, muitos do povo ouvem mais o padre da mídia do que o da paróquia ou da diocese. Acreditam mais no que ouvem e vêem pela mídia do que no que ouvem dos bispos ou do pároco no púlpito. Alguns enviam seu dinheiro para longe, lá onde estão os padres que falam para milhões. É fato e tem que ser solucionado.

Ordenado para ser como João Batista, que precede e aponta para Jesus e, como Maria, que acompanha e aponta para o Cristo, entendemos que o sacerdote católico, seja ou não seja ele digno de seu chamado, foi ungido (xristós) como um outro cristo para falar, conduzir e apontar na direção do verdadeiro Cristo. São homens que apontam o tempo todo para Jesus. Podem fazê-lo de muitas maneiras, em altares, púlpitos, livros, revistas, cátedras, salas de aula, praças, estádios, palcos, rádio e televisão. Alguns se especializam e são chamados de doutores em teologia, moral, sociologia ou direito, mestres, licenciados em alguma forma de saber, Outros sabem pouco, mas o pouco que sabem comunicam bem e com unção. Há lugar para todos nos púlpitos da Igreja.

Há os que sabem muito e comunicam pouco, os que sabem pouco e comunicam muito e os que sabem muito e comunicam muito. A mídia existe para que os que sabem muito comuniquem muito mais e cheguem a milhões de olhos e ouvidos e os que sabem pouco comuniquem bem o pouco que sabem, para milhões de cabeças e corações. Não se espera dos padres que sejam doutores e um poço de cultura, mas que sejam bons pregadores, criteriosos e prudentes no que dizem, naquele veículo onde falam em nome da Igreja como um todo e não apenas em nome do grupo de fiéis dos quais escolheram fazer parte.


Ao irem diante daquelas câmeras, ou atrás daquele microfone pregar para milhões de católicos, do sacerdote católico se espera que saiba falar a todos e nunca apenas ao grupo de fiéis que ele admira e cuja mística ele segue. Tem que se fazer tudo para todos para salvar a todos. Não pode usar daquele veículo poderoso para pregar apenas aos que entendem a sua linguagem. Seria enclausurar a mídia e a palavra.

Aí começa um dos dilemas da mídia dos religiosos no mundo de hoje, entre eles, os religiosos católicos. Tornou-se sectária, é pouco ecumênica, às vezes não abre espaço para outros nem da própria igreja. Está lá falando para milhões em nome da sua denominação e com linguagem da sua denominação, ou da sua nova igreja e apenas dela? Ou fala em nome do seu movimento de igreja e quase só dele? Muitos não conhecem e nem fazem esforço de conhecer os outros enfoques e as outras linguagens. Parecem cardiologistas receitando sempre o mesmo remédio para o coração, não importa qual seja o problema.

Nos últimos tempos ouvi isso de bispos e pessoalmente vi sacerdotes, religiosos e religiosas deixando suas comunidades que não priorizavam a mídia e indo em busca de dioceses, ordens ou comunidades que a prioriza. Queriam falar e querem falar a milhões e consideram urgentíssimo que alguém lhes fale. Onde estavam, sentiam-se tolhidos, posto que o projeto daquele hospital, daquela creche, daquela escola e daquelas paróquias era outro.

Como que enraizado no seu coração estava um microfone, um instrumento musical, uma câmera: traduzidos como ir à multidão. A mística de ir lá, onde não se pode nem há como ir pessoalmente os invadiu e não conseguem se imaginar pregando a palavra para poucos, quando podem pregá-la a milhões. Pode não parecer dilema para quem optou por se padre na mídia, mas o é para quem sente o apelo para ser padre de mídia. Assim como há padres que querem ser professores, missionários em lugares pobres, párocos na áfrica ou na Índia, agora há os que querem cantar, expandir-se, ir a milhões e estar na mídia. Acreditam nisso!Querem isso!

Aí entra uma segunda série de primeiras perguntas.
-Entendem o que estão pedindo?
-Sabem que é cruz da pesada?
-Estão prontos para lidar com a fama e o poder da mídia?
-Saberão administrar a notoriedade, a idolatria que dela vem?
-Vencerão a solidão que também acontece com a fama e o poder da mídia?
-Aceitarão ser mais um nome ou um mito e uma referência do que uma pessoa?
-Saberão viver sem os laços de uma comunidade paroquial?
-Aceitarão pregar a doutrina universal da Igreja e estarão abertos aos outros enfoques, ou serão pregadores daquele grupo, dono daquela mídia?
- Saberão usar do poder sem passar por sobre a pregação e os direitos da paróquia ou diocese aonde chegam?
-Puxarão aqueles olhos e ouvidos para si e para o seu movimento, ou os reconduzirãos para a Igreja local?
- Serão catequistas ou proselitistas?
-Pregarão mais o “ide lá” do que o “vinde aqui”?
Quem gravar os programas de rádio e televisão das mais diversas igrejas e grupos de igreja ouvirá muito mais o apelo “vinde aqui” do que o “ficai aí e ide aos daí”. Querem chamar e agregar. Não buscam a multidão para que se encontre, mas para que ela venha ao seu encontro! É só analisar as palavras de ordem sempre entremeadas de “ venha lá, onde estaremos pregando” .

A mídia gera ídolos e fidelidade cega. Se o pregador não entender qual é exatamente o seu papel, em pouco tempo o seu rosto e o seu retrato estará maior do que o púlpito e o altar onde ele atua. Por mais que fale contra as imagens daqui a pouco sua imagem estará lá, na porta de algum dos seus templos anunciando mais um congresso ou mais uma campanha. Seus discípulos o considerarão inquestionável e abominarão o padre ou o bispo ou o pastor que ousar fazer perguntas sobre as suas pregações.

Quem deseja a mídia saberá dialogar com quem dele discorda, já que se expôs voluntariamente num telhado e numa casa de vidros de aumento onde cada palavra e gesto chega mais longe? Saberá escapar das armadilhas do marketing, mesmo que seja o da fé? Saberá ser mais do que um produto vendável? Conseguirá divulgar-se sem exagerar, sem se apresentar com fenomenal, profeta da hora, primeiro, homem do céu e canal do milagre? Pedirá desculpas quando a profecia e o milagre não se verificaram? Quando a irmã que ele anunciou como curada, meses depois, outra vez enferma, pedir o microfone para dizer que não foi curada, dará a ela o mesmo microfone? Saberá pregar também o insucesso, a perda, a vitória do outro ou só proclamará vitórias?

O grande perigo da mídia é a mentira ampliada, como naqueles gigantescos outdoors que, de longe, parecem perfeitos e de perto se vêem cheios de falhas. Saberão eles admitir suas falhas pessoais? Andarão mo meio do povo como um do povo, ou flutuarão, ladeados de guarda-costas que Jesus nunca teve? Não escolherão isso, ou na verdade sempre quiseram isso?

O pregador de mídia precisa encarar estas perguntas porque será tentado o tempo todo a não ser ele mesmo e a virar um mito e um símbolo. Vai aceitar? Adotará o esquema, já que mídia e marketing sem esquema raramente funcionam?

E há outro tipo de perguntas.
-Querem falar à multidões para ensinar que verdades?
-Passariam num exame de universa e num teste de conhecimento de teologia, psicologia, historia e sociologia?
-Passariam num teste sobre os últimos dez documentos oficiais da Igreja? Não é em nome dela que pregam para milhões?
Não há bispo nem superior religioso nem colegas que não queiram na sua diocese ou na sua ordem um pregador culto, sereno, ponderado que sabe o que diz e consegue chegar a milhões de fiéis. O problema dos bispos é achar este pregador, porque nem todos têm serenidade, abertura, universalidade, cultura e equilíbrio emocional para missão tão exigente. Os que poderiam não querem esta missão. Muitos que a querem não se mostram maduros. Estão indo com muita sede ao pote. As luzes os encantam demais. Nem sempre traduzem o que a igreja realmente ensina. O conteúdo de muitos deles deixa a desejar.

Mas é preciso caminhar nessa direção, porque há os bons e bem informados, alguns deles muito jovens, mas bem preparados. Seria o caso de convidá-los para esse mister. Não se ordena padres midiáticos, mas pode-se pedir a alguns sacerdotes que se tornem midiáticos. Se testemunhos pessoais interessam eis o meu:

- Nunca pedi para trabalhar na mídia, nunca procurei rádios, televisões ou editoras, nunca pedi que me chamassem para shows. Fui convidado e procurado para tudo isso. Consciente dos meus limites, nunca assinei documento algum, exceto os que a congregação à qual pertenço julgou oportuno assinar. Assim, quem me chamou poderia me mandar embora quando quisesse e eu também. Não procurei a mídia nem o direito de pregar para milhões. Foi-me oferecido e eu decidi se queria ou não. E sempre dizei claro que seria um padre na mídia e nunca um padre de mídia. Contrato assinado, não! Queria a liberdade de ir ou não ir e de pregar o que minha Igreja manda. Diretores artísticos ou de marketing em geral interferem no que deve ser dito ou cantado.
Sei, porém, que se trata de um novo modo de pensar a pregação, com ênfase forte no veículo e no seu efeito. Há quem queira isso! Que se permita. Que se cobre! Àquele a quem muito se deu, dele se exija mais! (Lc 12,48). Mídia é muito! Nada justo que a Igreja cobre muito mais daquele que a procurou e quis!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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