O VERBO TELESPECTAR

Voltar

Tendo feito opção mais pelo ethos consumo-divertimento do que pela cultura e pelo aprofundamento, a televisão quase às vezes é deliberadamente superficial e nem mesmo esconde essa opção. Não há como negar os seus valores, mas não há também como negar que muitas vezes é um veículo superficial, atrevido e invasor. Os livros invadem muito menos.

O verbo telespectar que não existe no dicionário, supõe que o sujeito não é apenas quem aparece no vídeo: é também que permite que o vídeo lhe fale. Atrevimento existe lá como cá, porque também há escritores atrevidos, mas a televisão balança mais. Idéias provocam, mas imagens atiçam.

Por isso, sou fã do verbo “telespectar”, que significa ver de longe e com isenção. Mesmo que a televisão possa invadir a minha casa, eu a vejo de longe e tomo distância. Ela entra, se eu quiser, porque o verbo “telespectar”, que é muito mais do que olhar e ver, é atitude de ligar ou desligar as imagens que vêm de longe. Por isso somos telespectadores e não espectadores passivos.

Deveríamos ser donos de olhos criteriosos e, como faz a dona-de-casa que escolhe o alimento que põe na mesa, ou ainda, como faziam nossos avós escolhendo o arroz e o feijão separando-os das impurezas, assim deveríamos encarar a nossa vocação de telespectadores: o que é bom nós aceitamos e incorporamos; o lixo, jogamos no lixo.

Como a televisão tem muito lixo, é tarefa difícil conviver com ela. Precisa começar com os adultos e passar para os jovens, os adolescentes e as crianças. Orlando Fantasini de São Paulo está certo em sua campanha. Se empurrassem lixo pelas nossas chaminés, nós protestaríamos. Então, protestemos contra o lixo empurrado pelas nossas antenas.

Não somos contra a televisão. Somos contra o lixo que ela nos empurra. Liberdade tem limite. Democracia supõe a capacidade de administrar esses limites.

Se o lixeiro não pode jogar o lixo à porta da nossa casa, a televisão também não pode jogá-lo em nossas antenas. Se é proibido divulgar pornografia infantil e violência na Internet, que também seja proibido divulgar qualquer coisa, de qualquer jeito na televisão. Se pode haver censura na Internet, que haja também na televisão. Para isso existem juízes. Se existe controle das armas, que haja também controle do lixo. Nenhuma democracia sobrevive sem esse controle.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

Wallmedia