A repetição bem utilizada costuma gerar excelentes efeitos pedagógicos. Seria, pois, injusto e imaturo criticar a oração do rosário, o uso de palavras chaves nos encontros e movimentos de Igreja ou o repassar de temas que devem ser lembrados com freqüência. Repetir faz parte da catequese e da vida.
Quem ama declara e demonstra o seu amor de muitas maneiras, às vezes repetindo as mesmas palavras. Há sobremesas e doces que repetimos de bom gosto porque queremos o seu sabor. Há palavras que repetimos porque queremos que sejam ouvidas, Há outras que gostamos de ouvir e até oramos juntos porque elas nos ajudam a meditar melhor.
Outras religiões também repetem seus mantras e suas invocações na masbaha, Cantores repetem show após shows as suas canções mais conhecidas. Locutores repetem as mesmas frases características da sua emissora. A televisão repete 50 a cem vezes por dia a propaganda de algum produto. Trata-se da mesma mensagem repetida, mas o povo aceita à espera do próximo segmento do programa.
Não está tudo errado com a repetição. Quando, então começa o erro do pregador ou do fiel que repete as mesmas idéias, a mesma prece, as mesmas palavras, o mesmo maabaramalamaialama que supostamente é o som do dom de línguas por ele recebido? Quando há erro no mesmo comando de fechar os olhos, levar a mão ao peito, tocar a mão do outro erguer as mãos e louvar?
Quando a repetição deixa de ser pedagógica e envereda pela mesmice? Quando não é progressiva e não traz elementos novos, num claro sinal de que o pregador ou o animador do grupo ou da multidão não leu nem estudou mais nada, desde o último encontro. Não está repercutindo a doutrina da Igreja. Repete, mas não repercute. Não cantou um canto novo, nem evoluiu. E não evoluirá porque não lê e não se serve das luzes que Deus dá aos outros irmãos na fé. Faz meses que ele ou ela falam sempre as mesmas coisas. Apenas trocam de auditório, mas na televisão sai a mesma cantilena.
Quando com um sorriso nos lábios os fiéis mudam de templo, ou aceitam ir à missa das 9,30h sabendo de antemão o que o pregador dirá e como dirá, é sinal de que o pregador não está se aprofundando no pensar da Igreja. Quando até os adolescentes o imitam apostando antes da missa quantas vezes ele dirá as mesmas palavras, estamos diante de um irmão ou se for animadora de televisão ou rádio, de uma irmã que por falta de leituras acorrentou-se às palavras de sempre.
Grave alguns programas de rádio e televisão e depois analise as palavras e as expressões do animador, da animadora ou do padre. Grave os sermões e perceberá quem evoluiu e quem apenas repete. O repetir pode ser bom, desde que não afete o repercutir da fé!
Se você prega mande gravar dez de seus programas ou sermões e veja se não está se repetindo por repetir! Inclua nessa pesquisa o rosário. Ele pode ser repetido sem ser repetitivo. Depende de quem o conduz!
TEOLOGIA E MARKETING
Pe Zezinho scj
Escreveu cinco livros, que não eram os melhores livros do país, mas soube divulgá-los. O outro escreveu também cinco excelentes livros, bem mais profundos e documentados, mas não soube divulgá-los. O cidadão fundou uma igreja que não era a mais pacífica e ordeira do mundo, mas soube divulgá-la. Garantia milagres e salvação e dizia ouvir Deus a lhe falar. Impressionou! O outro cheio de fé criou uma denominação cristã cheia de ternura e de paz, mas não soube divulgá-la. Nunca enchia seus templos. O compositor escreveu cinco canções que não eram as melhores canções do planeta, mas soube divulgá-las. O outro, celebrado letrista e cantor, escreveu também cinco canções de excelente conteúdo e qualidade, mas não soube divulgá-las.
Porque atingiram milhões e influenciaram milhões de pessoas muitos passaram a ser considerado os melhores. O marketing faz isso. Governa-se pelo impacto e pela quantidade de pessoas atingidas e não necessariamente pela qualidade da obra. A escolha é de cada pessoa. Considero-me teólogo porque quero aprender mais e mais sobre Deus, embora não seja doutor. Imagino-me pastoralista porque estudo a comunicação e a catequese das igrejas e as diversas pastorais que elas desenvolvem. Nenhuma Universidade me concebeu o titulo de Doutor, mas teólogo é todo aquele que se ocupa com bastante intensidade dos assuntos de Deus entre nós, ou Deus em si mesmo. Vivo querendo saber quem é Deus e como Ele age. Vivo a estudar o modo como as religiões ensinam e como as pessoas reagem à idéia de Deus. Li já não sei quantos títulos nesses quarenta anos de sacerdócio, não só os da minha igreja, mas também os de outras, na busca de saber mais sobre o Deus em quem eu creio. Escrevi também sobre Ele, o pouco que sabia para as pessoas que talvez soubessem menos.
Encanto-me, pois, com os teólogos e doutores profundos que certamente foram muito mais longe do que eu e que seguramente sabem mais a respeito dele. Encanto-me também e, as vezes, preocupo-me com os irmãos que dizem tê-lo experimentado e afirmam que Deus lhes fala de vez em quando. Ocupo-me dos assuntos profecias, milagres, poderes especiais, céu, inferno, graça, pecado, virtudes, misericórdia, justiça, profetas e videntes. Leio a bíblia com bastante freqüência, e quero saber cada dia mais sobre a pessoa de Jesus Cristo. Acho que faço teologia. Teologia é o que eu persigo, como todo padre e todo leigo deve perseguir e buscar. Os teólogos doutores, mais do que nós porque é este o seu chamado especial e fizeram por merecê-lo. Defenderam teses que ajudarão as Igrejas a evoluírem, assim se espera!
Acho que nesses quarenta anos tenho feito uma espécie de teologia da comunicação e de comunicação da Teologia, posto que haja cristãos cultos que têm dificuldade de chegar ao povo quando pregam. Tenho tentado ensinar um humanismo que nasce dessa visão teológica de Deus, no mundo e de Jesus Cristo entre nós. Tenho feito opções que levam á redenção da pessoa humana, e já errei em algumas escolhas. Teólogos também erram. Mas voltei atrás. Pedi desculpas por ter dito o que algum irmão bispo ou teólogo achou que poderia levar á confusão. Gostaria que todos os pregadores fizessem o mesmo. Nem sempre a teologia nos faz mais perfeitos ou mais santos. Às vezes é só informação. Não chega a se tornar sabedoria.
Oremos pro nós mesmos, para que nos tornemos bons teólogos. Oremos pelos teólogos para que consigam ir fundo sem perder o fôlego! A vida deles é difícil. O mundo tem aplaudido mais a festa do que a testa!
FÉ NAS ANTENAS E NO MARKETING
Pe Zezinho scj
O projeto dos pentecostais
Algumas igrejas neo-pentecostais já nasceram sob o signo das antenas. Nunca tiveram que fazer a transição do púlpito. A Igreja Universal é uma delas. Entendeu desde o começo que o seu crescimento dependeria da mídia. Edir Macedo sempre demonstrou entender a importância do púlpito ampliado. Colheu em menos de vinte anos os frutos de ir lá pregar para o fiel na sua casa e no seu carro e não esperar que ele viesse aos templos. Quando começou a erguer seus templos o fiel já estava conquistado pelas antenas. Ele e outros grupos neo-pentecostais apostaram neste novo púlpito.
Menos sensibilidade
Entre os pregadores católicos e evangélicos tradicionais não houve o mesmo empenho, senão anos depois. Poucos padres ou pastores usavam o rádio ou a televisão, enquanto muitos pastores neo-pentecostais já começaram seu ministério atrás de um microfone ou diante de uma câmera. Há hoje uma geração de jovens padres católicos com essa mesma sensibilidade. Querem chegar a milhões e trabalhar na mídia. É um desejo piedoso e justo. Parafraseando São Paulo (1 Tm 3,1) diríamos que quem deseja esse tipo de liderança deseja uma nobre missão.
Querem falar para milhões
Alguns jovens sacerdotes não escondem que desejam pregar para serem ouvidos e não hesitam em mostrar-se para poder mostrar Jesus. Antes que nos apressemos em dizer que é vaidade analisemos caso por caso. Pode haver a mesma vaidade no que prega para ganhar aplauso no púlpito de uma catedral ou de uma casa de retiros para onde chama os fiéis. Não é porque um prega para dez milhões que é necessariamente mais vaidoso. Ele pode estar humildemente querendo atingir milhões.
Vaidade projetada?
Se for verdade que as antenas, o palco, as luzes podem envaidecer, também é verdade que podem mostrar um pregador sereno e humilde que não se encanta com o veículo que usa. Alguém pode ser vaidoso numa carruagem antiga e o outro ser humilde num carro moderno. Depende da maneira como aparece ao volante! Nos dois casos dá para ver o pregador dizendo –Olhem eu aqui!, ou , Permitam-me ajudá-los!
De cima do telhado
Quando em Mateus 10, 27 lemos que Jesus mandou pregar de cima do telhado podemos ler a proposta de duas maneiras: -Aceitem aparecer para falarem a mais pessoas, ou exponham-se mais para que mais gente os ouça. Quem sobe ao telhado aparece mais. Se ele souber aparecer com humildade e conteúdo, estará servindo maravilhosamente o Senhor que o deu em espetáculo ao mundo ( 1 Cor 4,9 ).
Fé ou espetáculo?
Se fizer isso para ser aplaudido e brilhar mais, então estará oferecendo um triste espetáculo de pregador que não resiste à super-exposição. Deverá repensar a sua necessidade de aparecer. Pode ser zelo e humildade de quem se arrisca, mas pode também ser desejo incontrolado e até inconsciente de ser o primeiro, ou de ganhar os aplausos do mundo. Como ninguém de nós conhece o íntimo dos outros,só Deus pode saber se é zelo por mais almas, ou busca de mais aplausos. Ao pregador compete saber a diferença. Ele sabe por que está na mídia…Se para incensar ou for incensado. Quem sofre a tentação de pequeno Deus não resiste ao cheiro do incenso. Acaba se expondo demais e aceitando mais veneração e elogios do que merece. Pode enganar quem o segue, mas não a Deus.
MARQUETEAR-SE
Pe Zezinho scj
O verbo talvez não exista, mas deveria ser criado. Um seria marquetear e o outro, marquetear-se. Isto é:colocar-se no mercado e falar bem de si para atingir algum objetivo.
É o que, nos tempos de eleição fazem os políticos, ressaltando apenas as suas boas realizações e os seus sucessos, e esquecendo as corrupções de seu partido, os desvios de verba e todas as acusações de que foram alvos desde a última legislatura. É também o que fazem o cantores ao divulgar o seu disco. Fazem os mesmo as religiões, esquecidas de seus pecados e defeitos, a lembrar apenas o seu sucesso, seu crescimento, seu progresso e as curas acontecidas entre eles.
A tendência do ser humano é de se auto-exaltar e, se possível, diminuir o outro ou, não querendo diminuir, ignorando. Há um pouquinho de pequeno deus em cada ser humano porque muitos se imaginam acima da média. Se for crente vai se achar mais crente do que os outros. Com raras exceções um crente admite que o outro possa crer mais e mais certo do que ele. Se for político, vai se achar alguém com soluções melhores para o país do que os outros. É muito raro um político que admita que outro partido tenha alguma solução melhor do que a dele a oferecer.
É por essas razões que se municia de argumentos e se cerca de marqueteiros que possam ajudá-lo a falar bem dele mesmo e se possível, jogar um pouquinho de cizânia na terra do outro.
As razões de tal comportamento nascem do seu ego super-inflado . Se o que se marketeia faz parte de uma igreja, certamente esta igreja é a melhor, porque caso contrário ele não estaria lá. Entra-se para um Partido este é o melhor, porque senão ele não estaria lá, e, se torce por um time, o time é o melhor, porque senão não estaria entre aquela torcida…Na verdade, tais indivíduos estão falando de si mesmo: – Faço parte do melhor, escolhi o melhor, meu grupo tem a melhor solução!
É por isso que o diálogo político e religioso é tão difícil. É que grande número de políticos e religiosos simplesmente não aceitam a hipótese de que tenham que aprender com os outros, ou de que outros possam ser melhores em alguma coisa. Como dialogar, se falta o essencial do diálogo que é a humildade e os valores do outro? As escolas e as igrejas precisam trabalhar muito sério na afirmação do indivíduo mas também na afirmação do outro. Sem o outro não há eu que sobreviva com honestidade. Viemos dos outros, temos que viver com os outros e provavelmente, quando morrermos, outros nos enterrarão. Provavelmente não: certamente!
Pe Zezinho scj
Por curiosidade tomei tempo e resolvi zapear as emissoras FM que entram na nossa região, pelo rádio do meu carro. Contei 87 emissoras, 44 delas com programação religiosa. Fiquei pensando no que há de bom e de mau em haver tanta gente anunciando soluções para os ouvintes, porque é isso o que quase todas fazem.
Nossa loja é a melhor, temos os melhores produtos, melhores e mais baratos, conheça a melhor igreja, aqui tem mais Jesus, aqui há mais fé, mais milagres, mais curas, temos os melhores ternos, vestidos e sapatos, nosso banco é mais camarada, compre aqui que levará mais vantagem…
Todos se oferecem como lugares e grupos de solução. Fiquei ouvindo suas promessas e garantias de melhor produto e mais eficiência. Entendi, então, que esta é a era do marketing exacerbado. Vende mais e consegue mais quem mais se exalta e se enaltece. O discurso de todos é muito parecido e repetitivo, alguns notoriamente vazios. Vivem de frases feitas e slogans. Também as igrejas.
Não há como deixar de perceber que se trata de marketing e religião demais. Como em imensa avenida repleta de painéis e propagandas, já não se percebe mais nem os prédios nem as pessoas. Tornamo-nos um país de letreiros, luminosos e apelos para comprar, aderir e vender. As mensagens perderam a isenção. A maioria dos pregadores ou divulgadores deixa entrever quer só com eles é possível conseguir o melhor. Não é um tempo de modéstia.
SILENCIO DE PREGADOR
Pe Zezinho scj
O ofício de pregar, algumas vezes exige silencio. Houve um dia na vida de Jesus e do seu servo Francisco em que pregaram sem dizer palavra. Muitos santos fizeram o mesmo. Precisamos aprender esta verdade. Se calar nem sempre resolve, falar também não…
Diante de Herodes que o ridicularizava Jesus preferiu não abrir a boca(Lc 23,8-9) Herodes impressionou-se. O mestre que falou com Pilatos e com inimigos e perseguidores, porque era totalmente aberto ao diálogo, preferiu o silêncio quando o rei o ridicularizou. O rei faltou-lhe ao respeito, mas ele ao invés de irar-se ou faltar com o respeito ao rei, calou-se. Dizer o que quê diante de alguém que faria uso de suas palavras para usá-lo politicamente? Herodes não queria saber nada.Pediu um milagrezinho… Ganho silêncio. Não levou Jesus a sério, não houve conversa.
Francisco saiu pelas ruas de Assis sem dizer uma palavra. Na cidade onde tanta gente ostentava riqueza ele e seus companheiros ostentaram sua pobreza. O povo que tirasse as suas conclusões! Foi sua maneira de pregar sobre o cidadão pobre. Há que haver um lugar para ele! Mas primeiro as pessoas precisariam perceber que ele existe. Então, em vez de os outros passarem por eles se notar, eles desfilaram para a cidade ver. Era como se dissesse: -Olhem para nós que éramos ricos e nos vestíamos como vocês e agora vestimos saco e somos pobres. Pregaram sem dizer uma palavra.
Há silêncios eloqüentes e há falas inúteis. O pregador escolha. Não fale nem demais, nem de menos. Jesus poderia ter ensinado uma longa oração quando os discípulos lhe pediram ajuda para orar. O pai Nosso tem nove sentenças curtas. Foi ele quem disse que ( Mt 6,7 ) não era preciso usar de muitas palavras e de vãs repetições para ser ouvido por Deus. Disse e fez! O puxadores e oração poderiam aprender com ele. Sucintos e densos!
Não há nada de errado em repetir palavras. Mas quem as repete precisa dar-lhes um por que, um conteúdo e um limite. Há uma repetição pedagógica e um que Jesus mesmo classifica de inútil e vã. Há um eu te amo repetido com ternura sempre crescente que os anos não desgastam, assim como há um Pai Nosso e uma Ave Maria que na boca de muitos fiéis nunca são vazios. Nascem da contemplação. Seus olhos mostram o que estão contemplando. Quem não tem novas palavras porque talvez lhe faltem ou porque não tem o hábito de ler a Bíblia ou livros novos talvez se sinta bem repetindo com sinceridade o que sabe e conhece. Há doutores que recitam o rosário porque repetir lhes faz bem. Mas há que haver um sentido nesta repetição. A escolha é nossa: muitas palavras que valem a pena ou poucas palavras que também valem e, se preciso silencio total. As palavras estão no dicionário. Quando se agrupam o sentido está no coração de quem as pronuncia!
MEDALHAS,VELAS E CESTAS BÁSICAS
Pe Zezinho scj
Por necessitar de uma graça, Mariana passou a usar um crucifixo e uma medalha. Acreditava que a lembrança de Jesus e de Maria no seu peito, a ajudariam a orar mais e conseguir o que queria.
Pedro, agradecido por ter conseguido o que pediu, caminhou 160 km de seu bairro em São Paulo a Aparecida. Cresceu com aquele sacrifício.
Juliano e Márcia cujo pai escapou da morte em Portugal, deixaram duas enormes velas queimando em Fátima, sinal da sua gratidão pela graça alcançada.
Helena escreveu uma prece num cartão, embrulhou-o num pano, costurou-o e o pôs no travesseiro do filho usuário de drogas. Um padre lhe sugeriu que o fizesse. Ela não hesitou. Fez, não por acreditar no poder do papel ou do pano e, sim, porque entendia que sua prece de mãe simbolicamente estava lá, enquanto o filho se debatia na sua luta contra o vício. Deus viu o seu gesto.
Mauricio e Débora prometeram que dariam cem cestas básicas ao longo do ano para uma casa de crianças com HIV, se a filha se libertasse de um relacionamento deletério com um homem que já tivera seis mulheres e traficava drogas.
Todos se sentiram em diálogo com Deus. Em gestos expressaram as suas esperanças ou a sua gratidão. Há gestos pessoais e gestos sociais. Maurício e Débora escolheram beneficiar os filhos feridos em troca da graça recebida.Os outros optaram por sinais.
A Igreja sugere que se possível se faça alguma caridade. Não se opõe ás velas, medalhas, crucifixos, caminhadas e outros sinais e gestos. Mas aconselha vivamente as obras de misericórdia. Se Jesus diz em Mateus 25,31-46 que elas levam para o céu, certamente aceitará nossa caridade como gestos de esperança ou de gratidão. Somos e queremos ser a Igreja do pão repartido, da Palavra partilhada e dos sinais de misericórdia plantados onde quer que formos. Mesmo se nem sempre o conseguimos, vale o esforço.
NÃO ERA O DEMôNIO
Pe Zezinho scj <
A moça entrou em crise. Foi sofrimento demais para aquela cabeça de 19 anos. Bastou para a vizinha trazer umas quinze comadres da Igreja dela para expulsar aquele demônio e trazer mais uma católica perdida para Cristo. Não deu certo. O suposto demônio, diferente daqueles da televisão que respondem tudo o que o exorcista pergunta e quase sempre do mesmo jeito, não tinha lido o script. A cada pergunta do jovem pastor exorcista, a moça gargalhava mais e olhava com mais raiva. Quando ela se apossou de uma perna de mesa, todo mundo fugiu. No templo deles, ela seria controlada pelos obreiros de plantão, mas lá na casa da moça foi diferente. Parecia o episódio de Atos 19,14-16 em que o demônio pôs para correr nus e em petição de miséria os sete filhos de Cevas que pretendiam exorcizar, sem ter o poder para isso.
Aí, um exaltado grupo de jovens católicos da RCC, evidentemente sem a orientação do padre ou da própria RCC, guiados por uma menina mais entusiasmada achou que o Espírito Santo os queria salvando aquela moça. Foram lá na manhã seguinte. Começaram a orar sobre ela. Ela ficou quieta por algum tempo, até que, outra vez, entrou em crise. Não sobrou um para contar a história. Não tinham lido Atos l9,14-16 nem a 1 Cor, capítulos 12 a 14. Assumiram função que não lhes cabia.
Dona Julia, uma querida vovozinha, negra, de 79 anos, que carregara a mãe da menina nos braços, soube do acontecido e foi lá. Sentou-se, chamou a moça que veio docilmente por a cabeça no seu colo e começou a alisar aquele rosto sofrido. Por um longo tempo não orou, não deu ordens, não falou em demônio, não disse uma palavra. Só deu colo. Aconchegou a menina, enquanto murmurava uma canção de ninar. Depois levantou o rosto da moça trouxe-a para mais perto do colo e olhando-a nos olhos perguntou -O que é que está doendo tanto nocê, menina?Moça linda que é, me faz um papelão desses! Cadê o riso que morava nesses zóios? .
A moça chorou por uns dois minutos e contou da sua raiva contra o pai que fora embora com uma sua amiga da mesma rua, dos seus temores e da rejeição que sentia na firma, do desprezo de um ex-namorado. Guardou aquilo tanto tempo que se descontrolou. Vó Júlia calmamente explicou que aquilo tinha solução. Três horas de boa conversa e a menina aceitou comer que já não comia há seis dias. O sono bateu. Vó Julia segurou no rosto dela e disse, com aqueles olhos de anjo maduro:- E vê se não me arranja mais confusão.Eu não quero mais ver a menina tão bonita, machucada desse jeito Se doer me chama que a véia aqui tem um colo gostoso pra você. Amanhã eu volto pra falar de religião e de Deus se você quiser.
Ela quis. Dormiu quase 20 horas e nunca mais se falou em demônio naquela casa. Vó Julia tinha entendido a catequese da Igreja. Um padre psicólogo, amigo da família comentou:- Vó Julia fez tudo certo. A moça precisava era do espetáculo da caridade e não o do poder Os outros foram lá mostrar que tinham o poder de Deus sobre o demônio. Ela foi sem poder algum, não deu ordens e não viu nenhum demônio. Viu apenas uma pessoa jovem ferida na alma. Foi lá e acolheu Deus lhe deu a palavra certa, do jeito certo e na hora certa! Isto, sim, foi oração de cura e de libertação.E ela fez isso sem ter dito uma só palavra de oração.Primeiro veio o gesto de presença silenciosa e libertadora.A oração veio depois do gesto. É isso que muita gente não entende.
EU DEMAIS E NÓS DE MENOS
Pe Zezinho scj
Você veio de um grande Outro,para viver com os outros e pelos outros. Nasceu de dois outros. Cresceu no meio de outros para aprender a ser um eu entre bilhões de outros.
Não será feliz se puser o seu eu acima dos outros e se tudo tiver que ser do seu jeito; se assumir compromisso com os outros os cancelar de acordo como os caprichos do seu eu; se amar apenas por um tempo enquanto o outro lhe puder ser útil; se descartar amigos e amores porque o seu eu se cansou e quer outras experiências.
Não entrará no céu se ignorar a dor e a necessidade dos outros. Não vai adiantar ter um discurso bonito e dizer “Senhor, Senhor”, se for mau amigo, mau vizinho, mau companheiro, mau colega, ingrato, egocêntrico, narcisista, e fizer o mundo girar sempre na sua direção.
Se não souber perder e ceder; se proteger o seu eu com um sorriso irônico de dono do pedaço a quem ordem nenhuma, conselho nenhum afeta porque já decidiu quem quer ser queria o mundo ou não queira;
se puser cercas e farpas aos eu redor e só deixar entrar nos eu super-valorizado eu, apenas quem concorda com você ou quem não lhe faz cobranças
se riscar da sua vida quem aponta para os seus deveres e para as renúncias que você precisará fazer em favor dos outros.
Se, toda a vez que os outros o encurralarem e apontarem para o fato de que você não faz a sua parte, não cede, não coopera e não assume, você sair pela tangente elevando-se cada dia mais alto, tome cuidado:
seu eu acabará é saindo de órbita.
Aceite perder não uma, mas muitas vezes. O eterno vencedor é um dos maiores perdedores que se conhece. Não sabe ceder a vez aos outros e decide e espalha que quem o venceu foi mau e jogou sujo. Só conta o lado dele. Não fala dos truques que usou e de quanto empurrou para ficar tanto tempo no pódio.
Ceda muitas vezes em favor dos outros, faça festa quando chegar, em segundo ou quinto ou vigésimo lugar e aplauda quem o venceu. Quem só aceita o sinal verde do farol, um dia acabará se esbodegando numa esquina da vida. Nem todos aceitarão ceder a quem jamais aceitou ceder.
Quando vencer, saiba tratar com carinho e elogio a quem dessa vez perdeu, mas na próxima poderá chegar antes. Você foi feito para vencer, mas não todas as vezes. Não entrou nas maratonas da vida para vencer todas e, sim, para competir com elegância e chegar, mesmo que seja em milésimo lugar. Mas não saiu pela tangente e não desistiu ao ver que não venceria. Prosseguiu, mesmo sem os aplausos e sem a taça.
Se ganhar muito dinheiro, ceda em favor dos carentes não 10% , mas 30 , 60% ou até 90% do que ganha, se você não precisa disso. Quem não é desprendido, não é desprendido porque não sabe deixar ir. Prende para si mais do que pode carregar ou usar. Armazena demais e faz como a caixa d água que ficou choca porque parou de distribuir a água que acumulava. Quando sua conta no banco estiver enorme e ainda assim você tiver dificuldade de dar 10% ou 30% para os necessitados, comece a se preocupar. A riqueza está mandando em você.
Tem-se platéia porque dança, fala ou canta, e a fama já se tornou sua droga, quando pelo aplauso e estádios ou templos cheios, você começar a dizer só o que agrada e arranca aplausos e todo mundo achar você um gênio, um santo, um eleito, um profeta sem igual, um sujeito mais que demais, porque você encanta todo mundo, comece a se perguntar se Jesus e os apóstolos jogaram para a platéia ou se disseram a verdade, mesmo com o risco de não ouvir nenhum aplauso.
Você veio a este mundo por causa de um Grande Outro, por meio de dois outros, para viver no meio de outros, promover os outros, erguer os caídos, pensar o tempo todo no bem dos outros.
Você é apenas um pequeno eu no meio de 6,5 bilhões de outros neste mundo, mas se você insistir que o que vale é o seu eu
e se o seu comportamento denotar o quanto você é apaixonado por si mesmo, comece a se preocupar.
Se, com o tempo, os que você foi deixando para trás não mais aparecerem e os novos perceberem que você gosta demais de si mesmo, é possível que a sua velhice seja muito solitária e, no dia da sua morte talvez nenhum deles esteja lá para chorar ou carregar o caixão.
Talvez alguém escreva na sua lápide: -Mergulhou corajosamente em si mesmo e amou-se profundamente; tão profundamente que perdeu os sentidos e nunca mais voltou à realidade.




