O PULPITO MCDONALDIZADO

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O termo não é meu. Usa-o um admirado escritor e jornalista, Alberto Di Franco a respeito da imprensa. Eu o adapto ao púlpito católico. Num artigo do dia 01.12.08 no Estado de São Paulo, (Jornais-hambúrguer versus qualidade) o respeitado professor de Ética e Comunicação pela Universidade de Navarra diz que o jornalismo moderno, mais do que qualquer outra atividade humana reclama rigor, curiosidade, ética, paixão.

Entre outras análises provocadoras, diz que a ética informativa não é um dique, mas um canal de irrigação. Admite que seja preciso investir na leveza formal, mas nada disso supera a qualidade do conteúdo. Só um produto consistente tem a marca da permanência, diz ele. E usa o termo “mcdonaldização” dizendo que ela é um risco a se evitar para não frustrar os leitores.

Sem ter usado o termo do ilustre pensador, tenho dito bastas vezes aos meus alunos de Prática e Crítica de Comunicação da Fé que o grande risco para a pregação católica e pentecostal moderna, é o “pret-à porter”, pronto para vestir, ou o “fast food”, pronto para comer. Falo da mensagem pré-digerida, pré-pensada e oferecida ou vendida como pronta. É só ler e seguir que a vida do fiel mudará. Fulano leu, fez, repetiu e seguiu aquela fórmula e está feliz: conseguiu isso mais aquilo, salvou-se. Quem discorda ou quer muita explicação perde um tempo precioso. Se deu certo para quem fez aquele caminho daquele jeito, porque questionar? Não lhe ocorre que os mesmos 4 graus que serviram para a sua miopia não servem para qualquer um que entre na sua sala. Isso de emprestar os óculos da fé do pregador ou do fiel agraciado para os outros é perigosa padronização que pode terminar em cegueira ou acidente.

Falo das palavras de ordem, dos sermões poli-copiados ou fotocopiados, das frases, gestos de comando, motivações repetidas à exaustão que, de certa forma, condicionam o fiel. Tais pregadores repetitivos agem como os funcionários da cadeia McDonald: -Sai mais um cheesebúrgher no capricho!

Já estava pronto e enrolado antes de o freguês pedir. Outras cadeias oferecem pizzas prontas. Para chegar a mais gente, de maneira mais rápida eles trabalham sempre com os mesmos produtos que, praticamente, já estão empacotados e prontos para o freguês apressado.

Os sabores também não variam. Em geral as crianças, os mais jovens e os transeuntes urgentes querem aquele sabor e querem-no logo. No McDonald e estabelecimentos similares, todos encontram o que desejam, porque desejam pouco e logo, embora os médicos digam que tais alimentos não são adequados como cardápio diário. Uma vez ou outra e, olhe lá!

A urgência de salvação criou pregadores urgentes que também trabalham com respostas prévias e já embrulhadas. O aconselhamento, a psicologia, a paciência de acompanhar caso por caso foi substituída em muitas pregações pelo: ore assim, faça assim, repita isso xy vezes,siga meus conselhos, faça o que milhares fizeram e tudo Deus fará o resto. Ao invés do “passe na farmácia”, mandam passar no templo.

Nada de errado em passar na farmácia onde há fórmulas prontas. Mas o médico em geral tem anos e anos de estudo. Nada de errado em repetir liturgias e práticas religiosas. O perigo é a falsa garantia que vem com o conselho apressado, dado por gente que mal estudou teologia ou catecismo, quanto mais psicologia ou psiquiatria. Cai tudo no pacote pronto: Deus quer, Deus disse, Jesus está me dizendo…

Como o paciente não questiona o médico que às vezes atende depressa demais e erra no diagnóstico e na profilaxia, também há fiéis que não questionam as preces padronizadas e as respostas prontas do pregador de rádio ou de televisão. Ligue alguns programas da noite, da madrugada e da manhã e verá também a mcdonaldização da fé. Se a fórmula deu certo com tal e tal pregador e com tal e tal igreja, porque não repetir?

Roupa pronta comida pronta, fé pronta, roupa light, comida light, fé light. Até parece normal. Mas uma coisa é vestir o corpo ou encher o estômago com produtos pré-fabricados. Outra é preencher um coração. Discordo desses discursos rápidos, pim-pam-pum, iguais, repetitivos, feitos das mesmas respostas e expressões e de mesmas palavras no rádio e na televisão. Entendo a repetição do culto, mas vejo enorme diferença entre o culto e a pregação. O culto é história! A pregação, muita vezes, não passa de fast food para a alma, placebo ou panacéia. Provoquei e penso que isso deva ser discutido mais vezes. Os sermões pelo rádio e pela televisão andam excessivamente decorados. Será o Espírito Santo assim tão repetitivo?

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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