O PREGADOR PADRE LEO

Voltar

Na última conversa que tivemos pedi a ele que vivesse, porque eu sentiria falta das nossas brigas. Éramos amigos de um dizer ao outro o que tinha que dizer. Foi meu aluno e eu permitia avaliação da minha comunicação nos minutos finais de 90 minutos de aulas. No futuro seriam avaliados a cada sermão. Um dia, ele me deu nota 6. Achou que vim despreparado. No dia em que ele improvisou uma resposta que não tinha porque não lera a matéria dei-lhe a mesma nota. Mas foi coisa de professor e aluno. Ele e eu sabíamos que minha tarefa era ajudá-lo a situar o seu talento. E frater Leo Tarcisio Pereira, mais tarde Padre Leo scj era um pregador-ator. Ele sabia dar vida a tudo o que narrava. Era desses iguais a quem não se verá em décadas.

Não há pregadores perfeitos. Padre Leo sabia que não era. Eu sabia e sei que não sou. Por isso, embora me admirasse muito, às vezes ele me criticava. Às vezes eu, que tenho o costume de gravar as pregações religiosas para meus estudos e para as aulas de “Prática e Crítica de Comunicação das Igrejas”, mostrava a ele trechos de suas pregações que considerava inadequadas ou em falta. Ele esperneava, mas acaba agradecendo. Padre Leo nunca esqueceu que tive algo a ver com sua trajetória. Apostei no seu talento de pregador-ator. Era assim desde Itajubá. E seu talento era tal que, às vezes, fazia vôos perigosamente rasantes. Os vocábulos poderiam ser um pouco mais nobres… Dizia eu. De fala em fala, de correção fraterna em correção fraterna, acabávamos no entendendo. Éramos dehonianos e supostamente padre de pregação cordial. Aquela cruz e aquele “scj” que levamos nos dava esse direito.

Depois de ouvir sua palestra para família, felizmente registrada com o título “Restaurar a vida familiar” entendi que deveria mostrá-la em aula aos futuros pregadores. Ali o Padre Leo mostra todo o seu talento quase completo, -se é que isso existe-, de padre-pregador-contador de histórias-comediante-homem-sério-e- contundente, imitador e orador com um tema forte e um objetivo. É um exemplo das muitas pregações do Padre Leo, que considero um dos melhores pregadores que já vi atuar na mídia nos últimos 30 anos.

Nós dehonianos somos gratos ao Monsenhor Jonas Abib e à Canção Nova que deram a ele o púlpito que Padre Leão não teria entre nós. Onde estamos e atuamos, ele não repercutiria como repercutiu no Brasil e no mundo. Digamos que nós o preparamos e Monsenhor Jonas lhe deu os instrumentos. Ma ele já vinha dos inícios da RCC, da qual era admirador entusiasta, mas que nunca deixou de analisar com isenção. Amava-a e lutava por ela como fez pela congregação, mas tinha o hábito de falar o que pensava. Era uma de suas muitas qualidades.

Mas o pregador-ator, com uma simples e pequena história levava o povo a rir e a chorar e em cinco minutos conseguia trazer à luz alguma passagem bíblica marcante. Sobre ela desenvolvia sua catequese que parecia zigue-zague, mas na verdade era sólida, linear e transversal. Ele brincava e arrancava risos, mas ia ao ponto. Brinquei algumas vezes dizendo-lhe que ele nunca seria um Padre Antônio Vieira porque seu português não era nada rebuscado e escorreito, embora dele fosse capaz se o quisesse. Mas fiz ver que ele se tornara um pregador atualíssimo que sabia por que estava na mídia e compreendia o que significa enfrentar duas ou três câmeras sobre o seu púlpito. Padre Leo entendeu como ninguém a importância do púlpito eletrônico. Optou conscientemente pela fala de mineiro para chegar ao povo e chegou. Escolheu aquela linguagem. E a exerceu muito bem, com algum eventual exagero que ele mesmo reconhecia.

Esses dias vi meu vídeo, gravado na TV Século XXI, perto do Padre Eduardo Daugherty sj : “A cura da minha família”. Logo a seguir, liguei a do Padre Leo: Restaurar a vida familiar. Mesmo estilo, conteúdo semelhante, mesmas idéias, jeito peculiar de cada um. Mas percebi seus recursos. Eu tenho a canção, e ele tinha seu jeito de contador de “causos”, estilo compadre mineiro. Vindos da mesma região há coincidências de conteúdo e de estilo entre professor e aluno, mas tínhamos, em comum, a marca “dehonianos”. Assim como consigo ver o estilo franciscano, jesuíta , dominicano, redentorista, percebo que há, sim, um jeito que, entre nós, passa de um para o outro. Nunca haverá um outro Padre Vitor, mas haverá outros redentoristas com a mesma força de chegar ao povo. É marca da congregação. Por idade, eu, ele, Padre Joãozinho, Padre Fábio que estudou 16 anos entre nós, Padre Marcial, e pelo menos vinte outros colegas bebemos do mesmo poço. Mas entre nós todos, Padre Leo foi quem mais assimilou a linguagem midiática. Dominava o palco e o púlpito, mas não era ele quem brilhava. Conseguia fazer o púlpito e a Bíblia brilhar. Tornava-a interessante. Seus ouvintes sentiam a curiosidade de ler o que Ele contava de maneira tão viça e atual. Era uma das coisas que eu mais elogiava nele.

Não há pregadores perfeitos, mas se alguém quiser saber como se postar diante de câmeras e microfones, e como criar o clima para chegar ao cerne da pregação, recomendo o saudoso Padre Leo. Sua última fala terminou com a canção da minha autoria “Alô, Meu Deus”. Ele gostava dela. A letra fala da volta ao ninho da fé. No caso dele, o ninho era o céu.

Achei que deveria prestar-lhe este tributo. Dizem que minhas canções ainda serão atuais muitos anos depois que morrer. Bondade dos amigos, porque nem todos pensam o mesmo. Mas digo isso de seus sermões e palestras. Continuam marcadamente atuais. Graças ao milagre da mídia, Padre Leo não passará tão cedo. Ele não se repetia. Mesmice não era com ele. Eu diria que sei por que. Do seu jeito de padre mineiro engraçado, mas sério, Padre Leo descobriu a linguagem da grande maioria dos brasileiros. Entre uma e outra lembrança, ainda me surpreendo a rir com ele.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

Wallmedia