O MONGE MARKETEIRO

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Conta uma história maliciosa, mas rica de provocação e de ascese que num cenóbio, onde moravam cerca de 200 monges, cada qual em sua gruta, havia um monge marqueteiro. Enquanto os outros oravam em particular em suas grutas, mas duas vezes ao dia tomavam juntos suas refeições e três vezes desciam para orar juntos, ele não fazia nem uma nem outra coisa. Transformou sua gruta em lugar de peregrinação o que fez com ela deixasse de ser ermida. De ermo não tinha mais nada. Ele se declarava monge contemplativo, mas gostava mesmo era de agito!
Gritava com as mãos em concha chamando os fiéis que vinham pedir oração e conselhos aos outros monges. “- Venham orar comigo. Deus está me usando com suas revelações. Por minha bênção ele cura feridas, caroços, dores antigas, ele dá paz e restitui a vista aos cegos e as pernas aos coxos. Venham orar comigo. Deus me deu uma missão especial. Eu tenho, pela graça de Deus o que vocês precisam!”
Entre os outros monges e cenobitas havia quem reclamava, posto que o monge marqueteiro estava desviando os fiéis para si. Um dia o abade, isto é, o monge pai lhes disse: “- Não agridam. Limitem-se a fazer o que faz um monge. Orem pelos que vierem e, se não vierem mais, orem por quem não veio. Monge não depende do número de visitas, mas da qualidade e da quantidade de preces e gestos que faz pelo povo de Deus.”
O monge marqueteiro prosperava. Um pátio diante de sua gruta precisou ser alargado para que as carroças e os cavalos tivessem um lugar. E havia uma equipe de alimentação e outra de arrecadação para cuidar das necessidades dos que vinham ouvir o monge revelado e iluminado. Nossa! Como Deus iluminara aquele cenobita, agora, ex-cenobita e ex-ermitão! Ele agora era figura pública que passava cercado de guarda-costas, abençoando os visitantes à procura de prodígios e profecias garantidas. E ele as tinha!
Durou alguns anos, os outros monges testemunhando silentes e serenos e ele sensacionalizando os dons que Deus lhe dera. O monge apenas redescobrira o marketing da fé que Jeremias já condenara em Jr 14,14 e Jesus em Mt 24,24-26. Além disso, o monge tinha um precedente no mago Simão que vira a utilidade do milagre para a sua carreira.
Acabou aos poucos. O povo percebeu que seu santo tinha o esquema e que os outros tinham o testemunho! O monge mudou-se para a cidade e o lugar voltou ser lugar de caridade e de oração, sem agito e sem espalhafato! Ia-se lá pelo silêncio e por causa de todos e de Cristo e não apenas por causa do monge sensacional e marqueteiro.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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