Para um religioso que aposta na doutrina de Jesus quem é o Sr.Julian Assange, mais conhecido como Mr. Vikileaks, por conta das notícias que coletou e que se acha no direito de espalhar quando, quanto e onde quiser? Herói da liberdade de imprensa ou terrorista que dispõe de petardos armazenados para mirar contra quem ele bem entender?
É imoral ou não é expor em público o que uma pessoa disse privadamente, ainda que tal pessoa seja pessoa pública? Um jornalista comete imoralidade ou não comete quando ouve uma conversa de um casal num quarto contíguo e a publica na primeira página do jornal? O que está num e-mail para alguns amigos pode ser objeto de publicação para o mundo inteiro? Posso entrar na casa de alguém, pegar o bilhete que foi deixado na cômoda e publicá-lo com o argumento de que tudo o que uma pessoa publica faz pertence ao público?
O que fez Julian Assange ao coletar informações sigilosas de embaixadores e expô-las ao mundo é liberdade de imprensa ou agressão? Haverá divergências na interpretação do seu ato, até mesmo entre os religiosos, mas seu gesto cai na esfera do Tu e Eu. A partir do conceito que tenho do outro e do meu papel na sua vida e da sua vida na minha, as notícias que dou e transmito a seu respeito soarão como respeito ou agressão. Se sei que minha atitude pode afetar gravemente sua vida ou missão, então sou responsável pelo que vier a acontecer depois que eu vazar a notícia. Foi o caso da Escola Base em São Paulo. Era calúnia, o casal foi destruído, a escola vandalizada e os jornais nunca foram punidos.
Noticias não geram indiferença. A depender do seu conteúdo e teor elas podem levar a crimes, suicídios, assassinatos e ódio coletivo. Se alguém usa desta arma como metralhadora giratória faz como o sujeito que tem bala, tem metralhadora e dispara seus projéteis em praça pública.
Pode-se argumentar que embaixadores às vezes assumem atitudes criminosas. Ainda assim o jornalista que tem acesso a notícias sigilosas tem o direito de jogá-las no ventilador do mundo. Mas isto é opinião de quem acha que a pessoa deve ser protegida, caso a notícia lhe cause dano irreparável, posto que seria um julgamento prévio e condenação a priori.
O ponto de vista cristão é o de que o pecador deve ser poupado. Se alguém acha que deve dar a notícia terá que omitir alguns dados: local, data, pessoa. Será o fato não circunstanciado, em favor de alguém que acabaria punido previamente pela opinião pública.
O fato não circunstanciado também é notícia. Livros de filosofia e psicologia estão cheios deles. Narra-se o fato verossímil, mas não se dá nome nem endereço. Dizer quem o fez, quando fez e como fez é papel da polícia e não do jornalista. Não é o que pensa grande número deles, nem o que pensa Julian Assange.
Fez jornalismo de primeira qualidade a jovem repórter de 26 anos que não filmou nem anotou o nome de um desequilibrado que tentava atirar-se do topo de um prédio de 15 andares. –Não é notícia que o ajude ou que ajude a população, disse ela. No dia seguinte, uma foto mostrava apenas o prédio e dava a notícia de que um cidadão em crise fora salvo pelos policiais. Foi notícia não circunstanciada. O suicida em potencial foi poupado. Ele, seus filhos e família. Há jornais e jornais, jornalistas e jornalistas, assim como há religiosos e religiosos, pregadores e pregadores. Nem tudo cabe numa folha de jornal e nem tudo deveria caber num púlpito…




