MUSICA E VAIDADE

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Diz a mitologia grega que Minerva inventou a flauta, mas Cupido riu dela porque a tocava mal. Então Minerva jogou a flauta fora. Um tal Mirceias a achou e desafiou Apolo, o deus da harpa, a um duelo musical. Apolo venceu e, não satisfeito em vencer, mandou esfolar Mirceias que ousou achar que poderia ser melhor músico do que ele.

Prosseguem as lendas que o Pan, o deus dos campos, herdou a flauta fatídica. O rei Midas, já curado da sua febre de ouro e do castigo de querer ter demais, foi chamado a julgar um duelo entre Pan com sua flauta e o birrento e vaidoso deus Apolo. Outra vez Apolo venceu, mas o rei Midas lhe deu voto contrário, dizendo que Pan era muito melhor músico.

Então Apolo, de mídia poderosa e vaidade ainda maior, puniu o rei Midas que já tinha sido punido por Baco quando pedira riquezas e tudo o que ele tocava se transformava em ouro. Convertido à simplicidade e à verdade, o agora mais singelo Midas elogiara Pan. Discordou de quem caíra no marketing de Apolo que influenciava a todos pela sua beleza e pelo seu poder de persuasão.

Apolo reagiu e decretou que Midas, ao não votar nele era uma besta quadrada e nada entendia nada de música. Deu-lhe orelhas de burro. Por isso Midas levava sempre um turbante na cabeça.

Assim eram as lendas entre os gregos de 300 anos antes de Cristo. Mudou alguma coisa? Não muito. Assim como naqueles dias, através de figuras míticas como Orfeu, Euterpe, Apolo, Pan, Minerva e Mircéias descrevia-se a vaidade ou a humildade dos músicos e compositores -e reis e imperadores como Davi ou Nero eram descritos como bons ou maus músicos-, hoje a mídia secular e religiosa se encarrega de criar seus novos ídolos e deuses através de gravadoras, televisões e rádios, num intenso marketing. Não são apenas músicos: são ídolos poderosos. Passam por cima. Esmagam os opositores.

Nem todos os que vencem ou vendem muito são bons músicos e cantores. Muitos que o são não conseguem o estrelato por falta ou de brilho, ou de marketing. Mas brilhar e ser bem vendido mais não é cantar melhor nem levar o melhor conteúdo. Serve para mim que já brilhei e que sempre tive a consciência de que havia e há músicos e compositores melhores do que eu, – meus amigos sabem disso – mas serve para outros meus amigos e irmãos que se expressam pela arte da poesia ou da canção.

Somos chamados à humildade de compor e cantar. Quanto a sermos ou não divulgados depende mais dos outros do que de nós. Não vale aceitar qualquer divulgação, contanto que vendamos muito. Vale a verdade. Somos como vendedores de pastéis de feira que fazem bons ou maus pastéis. Há quem goste e quem não goste. O povo diz que os que mais gritam nem sempre são os que melhor os fazem. Dizem o mesmo de nossas canções. Conteúdo é uma coisa: marketing é outra. Preste atenção e veja se não é verdade!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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