MICROFONE QUE NÃO É MEU

Voltar

Prego a convite das igrejas há bem 45 anos. Já pregava a convite de grupos e movimentos antes de ser ordenado padre, aqui e onde estudei. Achavam-me um cristão de palavra fácil e envolvente. Meu pai era mineiro contador de “causos” e, de tanto ouvir outros compadres dele, aprendi a contar histórias. Por que não contar também histórias da salvação e refletir de maneira atraente e chamativa sobre elas? Foi dom recebido que ainda hoje, depois de quase 50 anos, preciso desenvolver, porque os termos e as linguagens do mundo e da Igreja mudam com freqüência assustadora. Padre Leo aluno meu, também era assim. Seus “causos” eram encantadores. Mas quem aparecia não era ele: eram seus personagens.

Desde o começo alguém me ensinou para eu nunca mais esquecer que padre não tem microfone. Emprestam a ele. Nem aquela assembléia é sua, nem o altar, nem microfones nem câmeras. São de Cristo, da Igreja, da comunidade. Não estão lá para que ele conte histórias e “causos” de sua infância, e de sua família, nem para que fale de si para ilustrar algum tema. É dos outros e para os outros que ele deve falar. Se aceitar que alguém conte sua linda e comovente história, deixe que outro fale. E só responda se, fora do templo, alguém perguntar. Ainda assim, tome cuidado com o marketing de si mesmo e com possíveis mentiras que os vizinhos, parentes e amigos poderiam desmentir.

Falar de si não e boa coisa para um sacerdote. Há temas bem mais interessantes e empolgantes na Igreja. Se falar, como estou fazendo neste momento, seja para ilustrar ensinamentos aprendidos para que outros possam refletir sobre o tema.

De qualquer forma, o padre que nos preparou para a ordenação, éramos 13 candidatos, dizia bem claro que o púlpito não seria nosso, nem microfones. Teríamos que dar ali a mensagem da Igreja e não a nossa.

Hoje, quando subo a um púlpito, a convite, ou quando me entrevistam, sei que não devo me prolongar em historinhas de minha infância ou de minha vida de padre e, sim, sobre o que o povo me ensinou, o que vi e ouvi da Igreja e quais os temas centrais que a Igreja quer que eu aborde. Não respondo a mais do que três perguntas sobre minha pessoa. Depois, ressalto o povo, outros colegas padres, outros autores e outras cabeças.

A Igreja Católica tem história rica de conteúdo e personagens interessantíssimos que merecem ser conhecidos. O microfone que me emprestam é para apontar para os outros, os holofotes são para mostrar os outros e as câmeras não devem demorar em mim. É o que passo a quem diz aprender comigo. “Protagonismo Discreto” eis a idéia. É o que ensino é o que tento viver!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

Wallmedia