Salve, ó santo objeto!
O piedoso padre orava, na madrugada, pelo rádio:
“Ó santo sudário de Jesus, ó sangue precioso do meu mestre, ó coroa de espinhos que o feriu, ó água santa que verteu do seu lado santo, levem a Jesus a nossa prece para que ele possa nos abençoar nesta vigília…”
Vários erros em três linhas. Alguém não teve a gentileza de alertá-lo para seus erros, ainda que bem intencionados. Seu professor não o corrigiu, ou ele ignorou o que aprendeu em aula. Tivesse estudado as linguagens da fé não diria da forma como disse. Qualquer catequista mais ou menos versado em doutrina católica sabe o que é essencializar e parcializar. Nem a coroa de espinhos, nem o sangue derramado, nem a água que verteu do lado dele existem mais. Nem água do Rio Jordão que trazem em vidrinhos é a água do rio onde Jesus foi batizado. Só há o nome e a mística. Rios são águas que passam e não voltam. Vale tanto um vidrinho de água do Paraíba ou do Amazonas quanto aquela água do Rio Jordão. Não são as mesmas águas do batismo. Até o rio mudou de curso, posto que os rios mudam! Se o distribuidor daquela água explicasse o que faz, ela até que teria sentido. E convém lembrar que pode ser água poluída…
Mesmo que aqueles objetos ainda existissem não poderiam ser tratados como pessoa, posto que eram parte da pessoa de Jesus, ou o instrumento que o torturou. Uma coisa é venerar a cruz sem falar com ela, mas porque foi nela que Jesus aceitou morrer por nós. Funciona como altar de imolação. Eu uso uma no peito sabendo que ela apenas lembra como Jesus morreu por nós. Não falo com a cura no meu peito. Uso-a como lembrança da vitória sobre a morte porque uso uma cruz vazia.
Seguindo na mesma trilha, teríamos que carregar coroas de espinhos na cabeça ou no peito em homenagem a Jesus. Mas aí escolhemos sinal como todo mundo escolhe os eu. Os evangélicos escolheram a Bíblia que Jesus também não leva debaixo do braço! Sabemos apena que um dia ele abriu o rolo dos profetas e leu. Ele não andava nem com rolos que profetizavam sua vinda, nem com a cruz que profetizava sua morte. Mas usou de alguns símbolos como cuspir, fazer lama e aplicar na pessoa a ser curada! Podemos, sim usar dos símbolos, mas não tratá-lo como se fossem pessoas ou mistérios. Falar com a cruz é o mesmo que falar com a placa que aponta para São Paulo…
Posso falar com Jesus que sei que está vivo contemplando sua cruz, mas não posso falar com a cruz. Há preces que falam com a cruz, mas precisam ser explicadas, porque a cruz não ouve. Licença poética em religião precisa de explicação. “Salve ó Cruz, única esperança” são poema e expressão que merece explicação. O fiel precisa compreender que estamos falando com o crucificado que está vivo no céu. A verdade é que todo cuidado é pouco na hora de falar com ou aos sinais.
Que Deus possa te abençoar!!!
Também o verbo poder precisa ser revisto. Que Deus possa abençoar, que Jesus possa abençoar são traduções inadequadas do inglês, língua usada pelos primeiros que praticaram o pentecostalismo católico (Notre Dame, Fort Waine, Indiana, USA) Morei lá perto em Milwaukee, Wis. USA e visitei a Universidade de Notre Dame. Naqueles dias ouvi inúmeras vezes esta prece, que em inglês soa diferente. Quando o fiel americano diz “May God Bless you” não está dizendo “que Deus possa te abençoar”. No caso ele usaria, “I hope He can”. A expressão “may He” é um piedoso desejo de que Deus o faça e não que Deus possa. Poder, ele pode. Para isso não precisamos orar. É uma ajuda da qual Deus não precisa! Se o fará é outra coisa. Por isso a palavra may exprime desejo de que Deus aja e não de que ele tenha poder.
Já, a palavra em português não pode dar a entender que desejemos que Deus possa ou queira. Ele pode e quer, porque ama. O que podemos pedir é que Deus aja logo, e venha logo em socorro. Que Deus “abençoe agora”, que Deus “aja o quanto antes em você” “que Deus atenda o seu pedido logo” seriam as expressões mais adequadas para traduzir a palavra May God Bless you. Como foi traduzida não expressa o conceito original!
Com estas há muitas outras expressões que precisam de explicação. A tal espada luminosa de São Miguel nunca existiu. Então não há demônio a ser expulso por esta espada! O pregador não pode transformar lenda ou trechos de livros apócrifos em expressões pseudo-litúrgicas. Se insiste em usar, primeiro explique! Que quer orar ao sangue preciso de Jesus para o salve, explique!
Pediram-me cera vez que orasse este texto e eu o modifiquei. Ao invés de dizer “ O sangue precioso de Jesus, purificai-me” eu disse: O Jesus cujo sangue precioso foi derramado por nós, purificai-nos” O padre reclamou que eu mudara o texto. Concordei e expliquei que não aceito orar textos que semeiam confusão no povo. O sangue precioso de Jesus derramado naquele dia não existe mais. Mas Jesus, sim! E mesmo que o sangue estivesse ainda borbulhando eu não falaria com ele e sim com Jesus!
Chamou-me de preciosista. Já podem imaginar que adjetivo lhe apliquei! Quem ensina catequese confusa que pode levar ao erro é o quê?




