FRASES DE EFEITO

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O risco de falar bonito para efeito de rádio ou de televisão, mas sem substância é que, um dia, alguém pode querer checar se é só discurso decorado, ou se sustentamos o que foi dito. Contarei o fato e os fatos que o seguiram.

A moça havia decorado um discurso bonito, que a fazia parecer culta, letrada e bem informada. Venderia melhor o seu novo livro. Falou das obras de Mia Couto, de Inácio de Loyola Brandão, Freud e Jung, Sartre, dos livros mais poéticos da Bíblia, do Catecismo Católico, das encíclicas de João XXIII , de Paulo VI e de João Paulo II, dos Documentos do Vaticano II, da Declarações de Puebla e de Santo Domingo, dos pronunciamentos sociais da CNBB. Ela dizia que sem cultura não dá para alguém ser missionário eficiente nos dias de hoje.

O jornalista, que estudara e lecionava teologia, um tanto quanto cético e curioso e outro tanto malicioso, enveredou pelo discurso dela. Quis saber que livro de Mia Couto havia lido, já que ele não tinha tido acesso a tal literatura. Ela não soube citar nenhum. Perguntou sobre ele, se era brasileiro ou português e de onde viera. Ela só soube dizer que era de um país da África. De Inácio de Loyola não lembrou nenhum título, nem passagem. De Freud e Jung não soube citar nenhuma obra. Sobre Sartre, afirmou ser inglês e conseguiu apenas citar “O Ser e o Nada”, mas mostrou não saber descrever seu conteúdo. Não se lembrava de nenhum nome de encíclicas de João XXIII e de João Paulo II. Foi desconversando a cada invectiva do jornalista, que a essas alturas, quis ir à fundo, já que ele também não tinha lido alguns daqueles livros, mas não saia por aí dizendo que lera. Foi um massacre. A menina saiu chorando do programa. – Ele não precisava humilhar-me daquele jeito…disse, irada e ferida na alma. Sua amiga lembrou que ela usara o programa para mostrar uma cultura e um conhecimento que não tinha e para um marketing errado de si mesma e de seu pequeno livro. Ele apenas reagira. -Você quis ir lá para mostrar quem não era, amiga! Ele entrou no seu discurso. Quem não o levou adiante, foi você que achou que todo mundo engoliria o seu marketing.

Acontece com muitos cantores, artistas e pregadores religiosos que citam frases erradas, de autores errados, ou assumem, como se fosse deles, frases de algum escritor conhecido que muita gente já leu e sabe de quem é. Às vezes a frase é citada com erro e fora de contexto.

O perigo das frases de efeito é que são decoradas, mas não assimiladas. Em comunicação precisa valer o princípio de que toda a afirmação precisa ser corroborada com o embasamento de quem a faz. Vender maçãs e depois entregar bananas é sempre um risco. Alguém pode querer saber onde estão as maçãs anunciadas. Aprendamos a dizer em que livro, e em que parte do livro está o que dissemos. Foi Jesus quem disse que o nosso sim deve ser sim e o nosso não deve ser não. O resto, coisa boa não é ( Mt 5,37).

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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