FORMADORES DE OPINIÃO

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No canal de televisão onde ela e ele trabalham, sabe-se que eles e seus colegas são formadores de opinião religiosa. Todos eles sabem da sua importância. Chegam mais longe do que 99 entre cada 100 sacerdotes da sua igreja. São leigos consagrados. Falam a milhões e influenciam milhões.

Então devem saber que “a quem mais foi dado, de tal pessoa se exige muito mais”. É o que disse e diria Jesus. Exige-se mais daquele em quem mais se confiou. (Lc 12,48) Os que, a pretexto de longas orações, devoram as casas das viúvas receberão punição muito mais severa. Para eles custará mais caro nesta vida e na eternidade o preço de confundir conforto, lucro e dinheiro com o anúncio da Palavra (Mc 12,40)

Para gregos e judeus anteriores a Jesus valia muito o direito de possuir e o acesso ao poder. Isto era sinal da benção de Deus ou dos deuses, (1Cr 29,28) (2 Cr 1 : 12) possuir muitos bens e poder era coisa a ser buscada. Mas havia, também, canções e poemas como os salmos 52,7 e 62,10 entre muitos outros que alertavam contra os que confiam demais no que possuem ou no poder que conseguiram. (Jó 21,7) (Sl 36,12 ; 375).

Provérbios 30,8 não pedia nem riqueza nem pobreza, mas bons costumes. Salomão no começo foi elogiado por não ter pedido riqueza e sim sabedoria (1 Rs 3,11). Morreu longe de Deus por ter cedido ao luxo, à riqueza, ao poder e aos prazeres e por ter se portado como um semideus. O rei pregador se corrompera.

Com Jesus, tudo isso tem limite. O pregador precisa ser um abnegado e um desapegado, (Mt 13,22;Mc 10,24) É difícil perseguir riquezas e conforto em excesso e viver o projeto do reino. Pregador apegado a dinheiro não saberá viver pelos outros e para os outros. Seu eu virá sempre em primeiro lugar. Será individualismo exacerbado e isso vai ao caminho oposto ao do Reino de Deus que é feito de altruísmo.

Com Jesus, primeiro se busca o reino de Deus (Mt 6,33) e o que vier em acréscimo Deus é quem decide. Deus não quer miséria, mas não aceita a riqueza como primeiro objetivo da vida. Se riqueza houver, seja limpa justa e digna e se pobreza houver, seja digna e sem humilhação.

É a doutrina que os católicos pregam, expressa em dezenas de encíclicas e documentos. Quando Proudhon escreveu sua Filosofia da Miséria e, no capítulo VIII, criticava o ser humano e o Deus de algumas religiões por não reagirem o suficiente contra a pobreza (1846) a Igreja não tinha ainda publicado suas mais de 40 encíclicas e documentos sociais que deixam bem claro o papel libertador do cristão desapegado. Hoje muitos jornalistas deixam ver que a Igreja é a favor da pobreza e contra a riqueza, vale dizer, contra o progresso. Nada mais injusto. Não devem ter lido nenhuma dos mais de 20 encíclicas e documentos sociais desde Leão XIII. Se fossem á fonte não nos acusariam de ser contra a riqueza. Somos contra a riqueza injusta e por isso também contra a pobreza provocada pela riqueza injusta.

Com Jesus, quem o segue não deve se preocupar com o que vestir ou tiver; (Lc 12,22) deve ser como o lírio do campo e não deve buscar o sucesso financeiro em primeiro lugar. (Mc 4,19) Em primeiro vem Deus, em segundo as pessoas, e só depois, alguns bens para serem partilhados e colocados a serviço de todos. Aquilo, sim, era revolucionário. Por isso Pedro e Paulo poderiam dizer que não tinham prata nem outro, mas davam Jesus, saúde e paz (At 3,6). Jesus não aceitava disputa pelo poder (Mt 20,21-23 ) e o poder que dava era para servir os outros. ( Mt 10,1) E quem usasse do poder para seu próprio benefício pagaria muito caro. (Mc 12,40)

É próprio de alguns pregadores religiosos que detém algum poder sobre os fiéis que os procuram, persuadi-los de que a Palavra de Deus que a eles chega por meio daquela igreja, ou grupo de Igreja não deve ser questionada. Quem ousa questioná-los está mais perto do demônio do que do Cristo, que os chamou para aquela missão. Discordar deles é o mesmo que ir contra Deus. Argumento falacioso e mal intencionado, até porque alguns que fazem o que o pregador manda, erram com o pregador. Quem matou os idólatras, a mando de Moisés (Nm 25,5) errou. Quem passou os 450 sacerdotes de Baal a fio de espada errou com o profeta Elias. (1 Rs 18,40) Deus não manda matar. Ele não quer a morte do pecador, mas, sim, que se converta e viva. (Ez 18,23)

Pregadores ditatoriais são pessoas perigosas porque chega-se ao estremo de seu projeto ter que vencer a qualquer custo. Não aceitam perder e consideram suas perdas como se fossem perdas de Deus. Era o que, aos prantos, dizia em setembro de 2008, aquele pregador de igreja em crescimento, quando a arrecadação diminuiu e havia o risco de não mais manter o programa na televisão: – Se vocês não contribuírem, Deus não poderá mais falar por meu intermédio. Como vai ficar a divulgação do evangelho, se este programa sair do ar? … Modesto ele!

Formadores de opinião, eles são, mas sempre a seu favor. Quem estiver com as normas da Igreja e contra coisas que eles fazem, pode estar o quanto quiser com a Igreja, mas, para eles e seus fiéis, cuja opinião eles formam, não está com o Cristo. Conseguem inverter o texto bíblico, ao dar a entender que quem não está com eles não pode estar com Cristo! Fazem como João, que proibiu um homem de agir em nome do Cristo porque não era do grupo deles (Mc 9,38). Jesus recolocou as coisas nos seus eixos. Os apóstolos demasiadamente ciosos de seu grupo decidem quem é de Cristo, mas o Cristo decide que há mais gente que é dele. Jesus não aceita ser refém nem de João, nem do grupo dos doze.

Os que concluem que só é de Cristo quem os apóia e aplaude, erram gravemente. Pecam por desmesurado orgulho. Os que apontam como inimigos da obra de Deus quem ousa discordar deles, estão extrapolando. Inverteram a mística da cruz. Carregam a sua, mas não deixam de dar as suas cuspidas em quem os crucificou…

Formadores de opinião precisam ouvir os outros formadores de opinião. Sim, eles formam as opiniões dos outros. Mas quem formará a deles? Tem que vir tudo diretamente de Jesus? Ou vale a opinião de outros iluminados? Vale só a luz que eles pegaram direto do Círio Pascal ou serve a pequena vela e a luz do irmão ao seu lado?

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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