FALAR DEMAIS DE SI MESMO

Voltar

Noto que na era fortemente voltada para o sucesso do indivíduo, o testemunho tornou-se uma assinatura em baixo do sucesso pessoal. A linguagem segue o modelo: “- Deus me deu sucesso pessoal porque eu me converti!” “Tenho um apartamento e um carro porque me converti”. Converta-se e Deus ouvirá suas preces!”

Há muito “eu” e uma enorme barganha nos depoimentos e testemunhos e há muito pouco de “nós”, “os outros”, “os verdadeiros santos”. Raramente se fala daqueles a quem Deus favoreceu antes de nós.

É por essa razão que eu questiono a atual catequese do testemunho pela mídia. Funciona como vitrine. Quem vai a um programa de televisão dar testemunho de sucesso pessoal lembra os manequins de vitrine. Você olha e entra para comprar uma roupa daquelas. Você os ouve na televisão e vai lá onde eles forma para ver se consegue o que eles conseguira. É muito raro que alguém dê testemunho de graça recebia sem dar o endereço do templo que freqüentou! Parece o sujeito que mostra o bilhete premiado e aponta para a loja onde o adquiriu, ou mostra a pedra preciosa e o endereço do garimpo onde a encontrou. Pode até ser válido, mas quando se insiste no endereço e na hora do culto, testemunho após testemunho, estamos diante do marketing da fé. Diz o povo e, com razão, que quando a esmola é demais o santo desconfia. Quando os milagres são dados como certos, é hora de desconfiar daquela novel igreja…

A meu ver o recurso ao testemunho tem sido exagerado. Acentua demais o indivíduo e atribui casa, dinheiro, sucesso ao fato de alguém estar agora numa igreja. Gostaria de ouvi-los depois de perderem o carrão, a casa, o barco e a loja. Deveriam ler Jó!

Ultimamente, os santos de verdade andam meio esquecidos. Falo dos católicos porque os evangélicos seguiram outra tradição. Não cultuam nem com atos de elogio e veneração os servos de Cristo. Não chamam de santos os que Jesus santificou, mas a seus membros ilustres chamam de reverendos e consagrados. Terão explicações teológicas para isso, mas algumas igrejas terão que explicar as fotos de seu fundador à entrada dos seus novos templos… Se estão lá é porque o consideram um homem de Deus. Nós também temos imagens de Francisco, Clara, Terezinha porque os consideramos santificados por Jesus! Estes testemunhos nós cultivamos.

Acontece que até entre católicos ultimamente se conta pouco tais histórias. Francisco de Assis, Vicente de Paula, Tereza de Ávila, Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Dom Elder, Irmã Doroti andam meio de escanteio. Mas ouve-se a mocinha entusiasmada e o rapaz a contarem o que Jesus fez na sua vida. Desde que o aceitaram. Fala-se muito mais do que Deus fez por quem está ao microfone do que o que Deus fez por santos de muito maior estatura e merecimento. Confira em algumas emissoras e veja quem está dando testemunho. Observe a programação para saber se contam a vida e os atos dos grandes santos… Testemunho de neo-convertidos, muito espaço! Vida de santos canonizados, pouco tempo, quando há!

A meu ver é um perigoso ensimesmar, egocentrismo disfarçado de testemunho. Com tantos santos para mostrar, mostram a si mesmos. “Ganhei um apartamento, um carro e uma casa depois que aceitei Jesus!”…

Torno a dizer: – Não sou contra o testemunho pessoal. Sou contra o exagero: 90% é demais. O mundo, a fé, o cristianismo não começaram com esses indivíduos. Deus fez muitos santos antes deles e fará muitos depois. Que os novos “santos” redimensionem os seus chamados e suas santidades. Se forem sacerdotes, deverão falar ainda menos de si, já que o sacerdócio não permite que alguém fale demais de si mesmo.

Não somos assim tão importantes quanto pensamos ser. Diminuamo-nos, e é possível que, então, o Cristo cresça através do seu humilde testemunho. Falemos menos de nós mesmos e quem sabe, um dia, o mundo falará mais de nos, exatamente porque nos expusemos pouco. Sirva-nos de exemplo a mãe de Jesus! Atribui-se ao bispo Fulton Sheen, de Nova York que em meados do Século XX tinha um programa pioneiro de televisão o pensamento: “ Em geral quem se apressa a escrever sua auto-biografia acaba por não merecer uma biografia!”

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

Wallmedia