A Tribuna – Como será a sua participação na vigília dos jovens, que vai
contar com a presença do papa Bento XVI?
Padre Zezinho,scj - Será uma vigília de duas horas, na qual jovens de vários Estados irão cantar, dar testemunhos e dançar. Entre os mais de oito grupos que participarão desse encontro, um será composto de seis jovens que integram os meus quatro grupos de cantos de cunho solidário e libertador.
A Tribuna - Quais músicas vocês escolheram para cantar?
Padre Zezinho,scj - Vamos interpretar uma canção de louvor pela natureza, que se chama “Cantiga de Louvor”, e uma de dor e tristeza pela Amazônia destruída, que se chama “Elegia pela Amazônia”. As duas músicas serão acompanhadas por imagens. Entre uma música e outra eu vou falar umas duas ou três frases
sobre ecologia. A Amazônia precisa ser libertada. Está sendo crucificada por grupos que visam o lucro e nada mais que o lucro.
A Tribuna - Acha que vigílias são capazes de parar os desmatamentos na Amazônia?
Padre Zezinho,scj - Se todas as igrejas, jornais, rádios e televisões… se o mundo gritar, chegará uma hora em que as pessoas que destroem a natureza vão perceber que o que fazem é assassinato futuro. Há um limite para a ganância. De tanto falarmos e protestarmos contra os desmatamentos, pessoas importantes já estão sendo presas. Quem quer vida para o Brasil precisa continuar a gritar. Eles podem não querer vida futura para o Brasil, mas nós queremos.
A Tribuna - Mesmo com gente sendo presa, os desmatamentos continuam. Eu insisto: palavras mudam alguma coisa?
Padre Zezinho,scj - Palavras mudam. Mataram Jesus e os apóstolos, mas o mundo mudou depois deles. Eles tem medo de quem fala, por isso matam. Irmã Dorothy, Pe Josimo, Chico Mendes não saíram armados em defesa da terra. Falaram. Se todo mundo falar, especialmente os jornalistas e as igrejas, eles terão medo. Irão ver que o dinheiro deles não é assim tão poderoso. Um povo apaixonado pelas suas águas e pelo sue verde pode detê-los. Nossa indiferença e que os mantém lá.
Todas as ONGs, partidos políticos, igrejas, escolas… todos precisam gritar. Temos que espalhar a consciência de que a Amazônia não pode ser dizimada. Vamos ter que aprender a viver com este oceano verde.
A Tribuna -O senhor já visitou a Amazônia?
Padre Zezinho,scj - Várias vezes. Inclusive, estive lá, dia desses. Sobrevoei queimadas, queimadas, queimadas, queimadas e mais queimadas. E não há Ibama que consiga controlar esta fúria. Se o povo não reagir não há Ibama que consiga segurar essa gente. Por isso compus a Elegia pela Amazônia que cantaremos no Pacaembu.
Amazônia, Amazônia, é proibido queimar. / Amazônia, Amazonia é proibido matar. Pense nas milhares de pessoas que já morreram por causa da Amazônia e nos milhares de animais que morrem nessas queimadas. Deus levou milhões de anos a criar esta obra prima e um sujeito risca um fósforo e queima aquela parte milenar a floresta porque quer aquele solo para ganhar dinheiro. Precisa ser assim? Quem lhe deu esse direito? Nenhum governante pode dar tal direito. Conviver, sim, dizimar, nunca!
A Tribuna - Mudando de assunto, muita gente atribui ao atual Papa uma personalidade conservadora. O senhor concorda?
Padre Zezinho,scj - Se for, é um conservador inteligente, como são os curadores de patrimônio público, de obras e arte e de museus. Ela sabe o que precisa ser preservado na Igreja e o que pode ser repensado. É um teólogo profundo. E não tem medo de suas convicções. Só agora seus livros começam a ser lidos. Até agora sabia mais de Ratzinger a partir dos que o desmereciam do que a partir do que ele escrevera. Perguntei a um desses católicos que gostam de pichar quem não pensa como ele se havia lido algum livro de Ratzinger. Gaguejou e engasgou. Lera entrevistas contra ele. Nunca lera nada dele! Assim não dá! Discorde, mas seja honesto. Deixe o homem falar!
Ele tem abordado com coragem e clareza alguns assuntos católicos. Gostei das suas duas ultimas encíclicas e exortações. É um homem de convicções, não tem medo de tomar posição. O homem tem uma tremenda cultura e de repente milhões o conhecem apenas por um adjetivo: conservador. Não é justo reduzir alguém tão preparado e culto a um adjetivo preconceituoso. Agora, que os seus livros estão sendo lançados, todos vão conhecê-lo melhor.
A Tribuna - Qual a sua opinião sobre as convicções do Papa?-
Padre Zezinho,scj - Como disse, acho bom. A Igreja Católica está precisando de um banho de convicção.Os muçulmanos, budistas, as minorias estão convictas dos seus direitos. Todos mundo diz e grita : – Eu sou assim e é assim que penso! Os pentecostais e evangélicos apostam nisso! A todo o momento avisam na mídia que são evangélicos. Pois bem , quero que saibam que sou católico! E se quiserem me ouvir direi porque! Acabei de escrever um livro, chamado “Da Família Sitiada à Família Situada” Planejo também um outro com o título semelhante. As pessoas andam muito encurraladas e atrás de jaulas, muros e grades. Parece que o celular, os cartões de crédito e a televisão de plasma não conseguiram tornar a pessoas mais livres e mais convictas. Criamos a civilização do “ é isso aí!” “Se deu na Internet então deve ser verdade” “se meu pregador preferido ou meu artista preferido falaram então é porque é” Precisamos de um povo que pensa! Bento XVI pensa e faz pensar. Gosto disso!
A Tribuna – Não pode ser fonte de conflitos?
>Padre Zezinho,scj – Agredir ou calar-se, também. Expressar-se com respeito, mas com convicção só pode ajudar o mundo. Não estamos neste planeta para agradar ao mundo, às igrejas ou a mídia, mas para dialogar.
A Tribuna - Antes não havia convicção entre os católicos?
Padre Zezinho,scj - Havia, mas acho que perdemos essa coisa maravilhosa que se chama diálogo. Dialogar não é concordar em tudo ou fugir do debate. Discordar não é viver em discórdia e não é falta de amor. Meus pais discordavam de mim em algumas coisas e nem por isso me amavam menos!
A Tribuna - As convicções do Papa são uma provocação?
Padre Zezinho,scj - Você que é jornalista já percebeu que sim! Ele deseja diálogo, mas com respeito. Não devemos nos calar só porque o outro pode não gostar. São Paulo já ensinava isso a Timóteo , no capitulo 4 da sua segunda carta. Um sadio debate controla as hegemonias. Como alguns grupos da Igreja se tornaram poderosos na mídia, ficam hegemônicos. De repente só eles parecem católicos porque aparecem mais. O debate restabelece as coisas nos seus devidos lugares. Estar mais tempo na mídia não significa ser mais católico do que aqueles que têm mídia. Grupos hegemônicos precisam aprender a ser menos fechados e divulgar também as boas coisas dos outros profetas.
A Tribuna - Se essa hegemonia acontece dentro da própria Igreja, não há o risco dela
ser dividida?
Padre Zezinho,scj - Sim! Por isso as pessoas precisam tomar posição. Está em Mateus 24, 25-26. Jesus mandou questionar quem diz que sabe tudo sobre ele! Há um bando de gente semi-morta que não pensa e não fala nada, engole tudo, porque alguém no rádio ou na televisão está falando. E daí? Sou pregador que usa microfones e câmeras, mas isso não me faz mais culto do que os professores de universidade que aparecem menos do que eu. Microfone não dá sabedoria a ninguém. Livros, sim! São Paulo condena polêmicas inúteis, mas ele mesmo entrou em polêmicas. Há santos que concordaram e santos que discordaram em alguns temas. Mas no essencial temos que concordar.
A Tribuna - A insistência em proibir e condenar o uso do preservativo é outro motivo de polêmica. Não acha que isso tinha de ser revisto?
Padre Zezinho,scj - O papa sabe o que está dizendo. A Igreja não quer vulgarizar a sexualidade. A Igreja quer colocar a sexualidade no contexto de carinho, compromisso e família. E não aceita artefatos que facilitem o sexo fora da união conjugal. Hoje, você vê numa novela, num filme ou numa propaganda pessoas se conhecendo e no mesmo dia fazendo sexo. A Igreja diz que o lugar do sexo é o amor e o lugar do amor é a família e o compromisso. Errar é humano, mas querer que isso seja uma norma nova de comportamento é vulgarizar o sexo.
A Tribuna - E quanto aos jovens, que não têm uma união conjugal e estão em fase de descobertas, inclusive sexuais?
Padre Zezinho,scj - Temos que ensinar-lhes a catequese da espera. Criamos uma geração urgente porque o mundo tornou-se urgente. As pessoas querem tudo agora já., Por isso também há tantos assalto e tantos crimes. Querem o dinheiro logo, sem anos de trabalho! Por mais bonita que seja uma maçã, ela tem que esperar amadurecer para ter sabor. A nossa geração é imediatista e apressada. Quer tudo para ontem e não para o amanhã. A maior virtude, depois do amor e da fé, é a da esperança. O mundo anda se esquecido dessa virtude.
A Tribuna - Há solução para um mundo cada vez mais envolto pela violência e pela banalização?
Padre Zezinho,scj - O grau de violência no mundo é tão grande e difuso que vai assumindo contornos de loucura, como esses tiros em Columbine e agora na Virgínia (EUA). Isso é desespero. É a síndrome de Caim. As pessoas não aceitam perder e não acham que amanhã poderiam vencer. Então abrem caminho a abala, à força, e explodem o que podem. Ou matam seu irmão que venceu. Não foi essa a mensagem do moço que recentemente matou 33 pessoas na Virginia mais trinta? Os torcedores que quebram tudo porque seu time perdeu naquela tarde são vitimas da síndrome de Caím. Não sabem perder e não esperam pela próxima partida. Isso é conseqüência da maléfica doutrina de que o ser humano nasceu para ser um vencedor. Nasceu, sim, mas, para ser vencedor vai ter que aprender a perder com serenidade e a vencer com generosidade.
Perdemos a esperança! Até os pegadores das nonas igrejas andam pregando mais certeza do que fé e esperança. Garantem o que não podem garantir. Chegam a dar a data, a hora e o lugar do próximo milagre! Isso é marketing da fé, mas não é fé nem é esperança. A fé não pode garantir nem a hora, nem o milagre! Ela o espera! É essa esperança que o mundo perdeu. Penso diferente daquele cantor que disse que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. A pergunta é: que hora e que acontecimento? Não vale para tudo! Quem seguir isso à risca vai acabar a Java inteira e cura. O fruto também tem a sua hora!




