CULTURA DA MESMICE

Não se espera que tudo na vida seja novidade, até porque é impossível que tudo seja novo. Nem faria sentido viver apenas do novo. Nossas casas ficariam obsoletas em um ano, os carros ultrapassados a cada novo lançamento e as pessoas a cada aniversário. O novo tem o seu lugar, o antigo o seu espaço e a repetição a sua dose.

 

Mesmice é o que acontece quando se repete um gesto, um tipo de mensagem, um tipo de liturgia, um tipo de pregação, um tipo de programa, um tipo de canção ano após ano. Um faz, dá certo, e logo centenas ou milhares de imitadores seguem a mesma trilha. Mesmice são as palavras de ordem, as pregações, os comandos de auditório, as bandas, as canções e os gritos e danças repetidos, repetidos, repetidos… Poderiam renovar, mas não renovam. Você vai lá e já sabe o que cantarão, o que dirão e que mensagens ouvirá pela milésima vez.

 

Repetir com critério, com acréscimos, com adendos, com explicação é altamente pedagógico. Repetir educa! Mas repetir por falta de novas idéias e assumir a síndrome do papel carbono, do fax, da impressora, do carimbo é empobrecimento. Qualquer pessoa que lê livros, freqüenta faculdade, presta atenção no que vê e ouve sabe se o animador de televisão, o celebrante da missa, o pregador, a pregadora, o professor, o cantor e a cantora estão ou não estão caindo na mesmice. Lá vem o cantor XYZ, lá vem a cantora WWX, lá vem o pregador e a pregadora de sempre que cantarão e dirão o de sempre, pelo mesmo canal, mesma emissora, mesmo horário, mesma celebração.

 

Seriam capazes de mudar o discurso? Alguns seriam, mas não querem. Outros não seriam porque, de tanto não ler nem estudar, acabaram prisioneiros das mesmas palavras e das mesmas frases. Não é cultura, mas há quem diga que é.  Até a doceira da esquina e o fabricante de sorvetes variam e reinventam para chegar aos fregueses.   Mas, enquanto a fórmula dá certo, lá está o animador a dizer vinte vezes por dia no mesmo programa as mesmas coisas.  Cultura da repetição ou da mesmice?

 

São Repeteco e Santa Mesmice são os santos mais imitados em alguns altares e púlpitos. Doutor Carbono e Doutora Fax continuam em alta. O pior é que não são nem santos nem doutores. Apenas congelaram o discurso de alguns comunicadores de tal forma que, mesmo quando querem, não conseguem mais fugir do chavão e das frases feitas. Lembram o restaurante da esquina que há vinte anos serve a mesma sopa, o mesmo sanduíche e os mesmos três sucos. Mudar para quê, se há quem compre?

© Padre Zezinho scj

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