O perigo de criar oásis no deserto é que, se este for artificial e sem capacidade de refazer a vida, ou o deserto engole o oásis, ou o oásis fica tão distante dos outros que os seus moradores acabam fora de toda e qualquer realidade. Os oásis parecem bonitos do lado de fora, sobretudo quando o viajante cansado da areia os avista. Depois vem a realidade do oásis. Há regras de sobrevivência e de luta para que o deserto não o engula.
O mundo, sobretudo as religiões sempre tiveram os seus oásis. Ilhas de contemplação, comunidades de oração, de louvor, de estudos, de fé. Judeus, cristãos, budistas, muçulmanos, e, dentro de cada religião, as denominações, criaram os seus lugares de prece e de escuta do céu. Mosteiros, cenóbios, casas de oração, templos do silêncio serviram de refúgio e de fonte de vida para milhões de peregrinos cansados de vagar no deserto deste mundo. Foi bonito e é bonito.
Mas no decurso dos séculos milhares de grupos criaram rotas de fuga que não tinham nada a ver com a verdadeira contemplação. Muitos que foram lá, não foram contemplar e, sim, fugir. Imaturos, levaram outros fugitivos com eles. Criaram, como só poderiam criar, centros de fuga da realidade. Não tinham suficiente fé, nem suficiente teologia para estar lá. Abrigaram-se em telhado furado. Geraram religiosos fechados, medrosos e belicosos, que mais odiaram do que amaram o mundo. Alguns deles acabaram tragicamente, como o grupo do pregador Jim Jones, em l968, nas selvas do Suriname. Ele envenenou 800 dos seus seguidores, porque não sabia mais para onde leva-los, já que o mundo os invadia e ele perdera o discurso e a fé.
Mais dia menos dia, ou o deserto invade o oásis, ou o oásis não segura mais os seus moradores. Foi isso que Jesus evitou, quando os discípulos pediram para ficar naquele oásis espiritual chamado Tabor. Mandou-os descer para a realidade e ir morar no meio do mundo.(Mt 17,1-10) e, ainda por cima, os proibiu de falar do assunto. Não era hora! Foi também, o que Jesus fez com o ex possesso de Gerasa. ( Mt 5,15-20) O homem quis ficar perto de Jesus e viajar com ele. Jesus o mandou ficar em casa. Ele, então, passou a anunciar Jesus na Decápolis. Nem todo mundo está preparado para fazer parte de grupos de oração ou comunidades de vida. Nem todo mundo tem vocação de morador de oásis. Não é um chamado universal. Há que se ter critério e discernimento para saber quem está fugindo do mundo e quem está indo buscar forças para viver no mundo sem ser do mundo! ( J0 17-1-17 )
Nem tudo é mau no deserto do mundo e nem tudo é lindo e maravilhoso no oásis da fé. Lá moram seres humanos que podem ser serenos, lúcidos e fortes ou frágeis e sujeitos a erros. Não se demonize os desertos e não se canonize os oásis. Tudo depende do porquê. Se for fuga e medo, oásis nenhum resolve. Não sei se você sabia, mas a grande maioria dos viajantes usa o oásis como passagem. Depois, eles voltam ao deserto! Morar no oásis é para poucos. E estes devem saber morar lá. Pode até ser poético, mas não é nem nunca foi fácil! Pergunte aos verdadeiros contemplativos! Quem se apega demais ao seu eu e o tempo todo vive solicitando atenção e cuidados, honras e mesuras, aplausos e atenção total e permanente, não se faça monge. Contemplação é para os que pensam mais nos outros do que em si mesmos!




