CANTAR SEM RECEBER APLAUSOS

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Quando canto, pedindo ao rico que dê mais e reparta; ao fanático, que respeite a fé do outro; ao dono do poder, que o partilhe; quando peço diálogo entre as igrejas, quando canto contra o aborto, ou em favor dos oprimidos, meu canto começa a incomodar. Aí já não encontro tantos patrocinadores, nem tanta gente que deseje me ouvir. E então? Cedo para vender e ser tocado? Mudo meu canto para poder ser convidado e ter os estádios cheios, ou sigo minha consciência? Quem me ouve há décadas já sabe que caminho foi o meu. Quero ser popular, mas não às custas de minhas convicções.

Há uma canção que dói, quando o cantor pede qualidade. Se o som não está bom será difícil dar o show que esperavam. Somos, então, mal vistos e mal falados, porque “exigimos” de um lugar pobre um bom som. Acham que cobramos caro e queremos demais. Pedimos água no palco para podermos cantar direito por três horas, pedimos um sanduíche ou frutas porque chegar de viagem e cantar com fome é impossível. Pedimos um banheiro, porque sair do palco, atravessar no meio do povo para ir ao banheiro lá no outro lado, às vezes fica impossível. O povo quer falar e segura a gente. Há organizadores que entendem isso como ofensa.

Já houve cantores que literalmente molharam as calças porque o povo não os deixava ir ao banheiro. Chega uma hora em que o som não sai e o corpo tem fome. Acresçamos a isso, viagens de oito ou dez horas de avião, mais cinco de carro. Poderíamos não ir, mas, então, aquele povo não teria o que deseja: ouvir ao vivo quem chegou a eles em disco. Pobre tem o direito à nossa presença. Para o pároco, nossa presença pode ser impulso para muitos meses de pregação. Se o conteúdo do show for denso, ele tirará proveito disso.

Por isso, vale a pena ir cantar. Fácil não é, mas também não é fácil ser bispo ou ser pároco. Cada qual com seus méritos e com suas cruzes. Cantores da fé também às têm. Critiquem-nos se formos exigentes demais. Mas aceitem o fato de que para cantar há que haver o mínimo necessário.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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