AOS NOVOS EVANGELIZADORES

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Criemos alguns neologismos. Os cristãos dividem-se em evangeliófilos, evangeliófobos, e evangelizadores. Pode até haver mais categorias. Mas sabe-se dos que jamais leram aqueles quatro livros; dos que apenas leram e até gostam, mas encaram-nos como informação. Dizem crer em Jesus, mas os evangelhos não mexem com eles. Também leram o Corão e o Rig Veda e os acharam apenas interessantes… E sabe-se dos que, à sua maneira, tentam tornar conhecidos aqueles quatro livros e seu personagem principal.
É bom que se diga que não são livros fáceis de ler e de neles crer. Há passagens difíceis de interligar e interpretar. Não é qualquer crente em Jesus que pode ler e dar aulas sobre aquelas narrativas. Há cursos para quem deseja divulgá-los. Quem sabe da origem deles e dos muitos livros que circulavam pelas comunidades cristãs até o Século IV entenderá o sentido eclesial e histórico desses quatro volumes que traduziam um caminhar e uma visão que, sob os nomes de Mateus, Marcos, Lucas e João foram colocados por escrito. Mas convém que se saiba que também havia proto-evangelhos como o de Tomé, evangelhos atribuídos a outros apóstolos, a Maria Madalena e até cartas que Jesus teria escrito a autoridades do seu tempo.
Cristãos em autoridade, não sem sérios conflitos, optaram por não ficar com todos e, sim, com estes quatro. Quem leu os outros perceberá que os quatro são mais verossímeis. É a impressão que me ficou daquelas leituras. Também fiz a minha escolha.
Hoje, fala-se muito em evangelizar. Ninguém detém os direitos desta palavra. Há evangelizadores que mal leram a Bíblia e outros que foram fundo. Nem é correto pensar que nós evangelizamos bem e os outros não. O fato de alguém saber mais também não lhe dá o monopólio da palavra evangelizar. É termo largamente usado em diversos meios e veículos, movimentos de igreja, grupos pastorais, e não apenas na Igreja católica. E é bom que milhões de crentes queiram tornar Jesus querido, admirado e aceito, mesmo que os outros não o adorem. Jesus continua a mais rica personalidade destes últimos 20 séculos, gostem dele ou não, neguem ou afirmem sua divindade.
Resumamos a idéia e evangelizar neste nome: Jesus. A boa notícia desses últimos 20 séculos foi sua vida, sua doutrina e sua morte. Nós cristãos a aceitamos. Se alguém não a considera boa, respeitemos. Que este alguém ache sua motivação de vida em outras filosofias ou em outra pessoa. Sua luz é bem vinda, mesmo que ele negue a luz de Jesus…Foi o que Jesus ensinou quando viu luz em quem não o seguia!
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A noção básica de anúncio decorre de eu-anguelion: notícia boa. Ánguelos (de onde vem a palavra anjo) é quem traz a notícia, anguélion é a notícia e eu-anguélion é a boa notícia: a que todos esperavam… Anunciar o evangelho, supõe duas propostas: uma é a linguagem para quem nunca ouviu a notícia; outra é a que se dirige a quem já o conhece.
Iniciação e aprofundamento fazem parte do catechein (repercutir). Quem deseja passar adiante e repercutir estas histórias, isto é, tornar-se catequista, precisa saber introduzir Jesus e prosseguir o anúncio cada dia com maior profundidade. Mas, para tornar Jesus conhecido, convém que o anunciante conheça os fundamentos da cristologia. Só entusiasmo não dá. Sem estudos não dá…E é o que muitos fazem. Encantam-se com o Jesus que conheceram num retiro e saem falando dele sem ter ido mais fundo. Se pedirmos dez frases a ele atribuídas não saberão dizer. Mas declaram-se evangelizadores.
No caso dos católicos, o primeiro objetivo da evangelização é tornar Jesus conhecido e amado. Não se faz isso sem aprofundar. A maior inimiga dos evangelhos é a superficialidade. Ou se vai fundo ou não é evangelização.
O conceito é ainda mais amplo: subentende o anuncio o aprofundamento o diálogo, a abrangência e o testemunho. Anuncia-se Jesus em palavra, gestos e atitudes, anuncia-se nas celebrações nos congressos nos encontros e nos veículos de comunicação. Anuncia-se Jesus no diálogo interno, nas mais diversas pastorais e movimentos e místicas que há na igreja católica. Anuncia-se também no dialogo com outras igrejas e outras religiões.
Anunciamos Jesus cuidando dos carentes, praticando a justiça ao social, anunciando a justiça e a paz; lutando pela justiça e pela paz e influindo politicamente na nossa sociedade. Anunciamo-lo criando ânimos de libertação dos oprimidos e sofredores, suando em todos os campos onde seja preciso minorar as dores e melhorar a vida de alguém. Anunciamos Jesus louvando-o como filho de Deus que ele é, alertando para sua doutrina de que, sem justiça não há paz e sem a pregação dos direitos humanos não o estaremos anunciando.
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Pelos documentos da igreja, desde Rerum Novarum, Mater et Magistra, Gaudium et Spes, Populorum Progressio, , Solicitudo Rei Socialis , Declaração de Puebla, Documento de Aparecida, só para citar alguns, está mais do que claro que evangelização supõe ir aos carentes, aos pobres e necessitados e anunciar-lhes a libertação. Também supõe ir aos ricos e bem afortunados e anunciar-lhes a mesma libertação, que no caso deles virá através da justiça, da caridade, do espírito empreendedor que aumente as chances de trabalho para milhares de pessoas. O rico se libertará pela solidariedade da partilha, porque rico também e carente. Não há quem não precise de uma palavra libertadora. Quem mais tem deve dar mais, mas é preciso dar atenção a ele. Nenhum rico está excluído da Boa Nova. A mesma que se anuncia aos pobres seja anunciada aos ricos, que evidentemente têm outras necessidades. A Igreja sabe que o dinheiro também gera angústia e solidão.
O conceito de evangelização não exclui ninguém, nem mesmo o psicopata que pouco se lixa para os outros. A ciência não descobriu um remédio para tamanha anomalia, mas até um Hitler, um Idi Amin e um Pol Pot que mataram milhões seriam destinatários desta boa nova. “Deus esteve aqui e ensinou o oposto do que vocês fazem”…
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Depois de um louvor que nasce da evangelização há uma pastoral social e libertadora que nasce da mesma evangelização. Não há como assumir um sem assumir o outro. Está expresso em São João, quando ele diz que quem afirma amar a Deus, mas odeia ou ignora seu irmão está mentindo; é um falso adorador. A ninguém que evangeliza ou se considera evangelizado é permitido pensar que basta louvar para estar evangelizado. Também não basta fazer pastoral social para estar evangelizado.
A cruz tem dois riscos: um horizontal e um vertical. O horizontal é para abraçar a humanidade com todos os seus sonhos dilemas e problemas; o vertical é para procurar o céu com a prece, adoração e louvor. Você já deve ter ouvido seu padre preferido pregar sobre isso na missa.
Canções mais corretas portanto seriam louvai e ajudai, enaltecei e acolhei, celebrai e libertai. Bom evangelizador é quem conjuga o verbo ir ao sacrário, ao lado do verbo ir aos pobres e aos necessitados, aos carentes e ao feridos na alma. Entre os feridos na alma está incluindo quem tem conta polpuda no banco, mas já está no quarto casamento e faz meses que não vê os filhos por conta da vida conflituosa que vive.
Aos infelizes e desencontrados se destina o anuncio da justiça e da misericórdia, parte essencial da evangelização. Quem exclui não evangeliza Quem não sabe aplaudir o irmão que tem outro enfoque da fé não evangeliza. Quem se nega a fazer pastoral social e a se envolver com mudanças justas para um país ferido e dominado pela corrupção endêmica ou por alguma ditadura, limitando-se apenas a orar, não estaria orando em plenitude.
Quem suprime contato com os céus, e limita-se apenas a pregar mudanças sociais também não está pregando em plenitude. A boa nova é a de que precisamos falar com o Deus que se revelou e procurar o irmão pobre e machucado a quem ninguém revela nada. Evangelizar é revelar a ele a misericórdia infinita do Deus que viemos a conhecer.
Quem se deixa imbuir desse sentimento e dessa formação esta em processo de evangelização. Quem foge de qualquer discurso social ou político e omite tudo isso dedicando-se apenas a ensinar a orar e a louvar não está evangelizando a contento. Quem busca ficar cada dia mais rico enquanto anuncia Jesus também não evangeliza. Está puxando demais para si mesmo.
O Jesus que dizemos estar no sacrário também esta lá fora naquele irmão catador de papel, no menino que se droga e na família que não sabe mais o que fazer pelo filho bipolar ou psicopata. Podemos até não achar a solução, mas se buscarmos e tentarmos, estaremos evangelizando. Quem dá sem querer devolução porque sabe que o outro poderá crescer com aquela ajuda está evangelizando. Não nos iludamos. Só fazer política não é evangelizar. Mas só orar e fazer jejuns e vigílias, também não é. Amar somente a Deus é pouco. Amar somente os pobres também e pouco. Evangelizar é amar os dois e saber a diferença…

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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