A FIGURA DO APRESENTADOR

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Você talvez não tenha refletido sobre o assunto, mas a televisão, embora não a tenha criado, projetou a figura do apresentador. Não necessariamente culto ou doutorado, às vezes com sofrível e pouca escolaridade, mas arguto, esperto, rápido de raciocínio, ele ou ela, ás vezes ele e ela apresentam, primeiramente a si mesmos, depois aos convidados que também aceitam apresentar-se aos olhos e aos ouvidos de milhões de pessoas.

Popularíssimos nos Estados Unidos, não demorou até que, em todos os países do mundo, – e o Brasil não poderia ser exceção-, ganhasse projeção a figura daquele ou daquela que apresenta alguém.

Se não precisam ser cultos nem ter especialização ou estudos avançados o que têm eles que outros não têm? Em primeiro lugar, bons assessores que vão buscar a pessoa, as novidades, o que vale a pena ser divulgado. Estes precisam de olho clínico e conhecimento de mídia acima do comum para não trazerem pessoas inadequadas ao programa. O convidado deve despertar a atenção de número suficiente de pessoas para justificar sua presença na televisão ou no rádio. Do desempenho do entrevistador e do entrevistado dependem os pontos de audiência e dos pontos de audiência, o patrocínio. Na indústria do espetáculo contrata-se um bom apresentador ou uma apresentadora a peso de ouro. O entrevistado deve valer aquele convite. Como milhares querem divulgar suas habilidades, sua canção, sua história, sua criação ou seu produto e como outros milhares adoram se super-expor, a tarefa de escolher entrevistados é relativamente fácil. Aí entra a profissão do apresentador.

Quando seu nome aparece na imprensa, vem anexo o adjetivo: “apresentador”, “apresentadora”. Vale dizer: é pessoa que traz para a luz e para os holofotes quem precisa de publicidade. Desfilam por suas perguntas, em alguns casos, previamente combinadas, às vezes nada previsíveis, artistas, cantores, esportistas, escritores, cientistas, educadores, médicos, modelos, gente que fez algo esdrúxulo, a mulher com dez quilos de silicone nos seios, o moço que salvou a criança no zoológico, a miss, o casal de lésbicas, a contorcionista, o ator pornô, o padre, o personagem Inri que afirma ser Jesus que voltou, o pastor e o fundador de uma nova Igreja. Todos precisam ser conhecidos, ou para angariar novos adeptos, ou para vender CDs, ou ainda para ganhar algum contrato. E há os que, simplesmente, desejam sair do anonimato. Os apresentadores perguntam e apresentam.

É uma forma de comunicação que sustenta o rádio e a televisão. O que seria destes veículos se não abrissem as portas ao cidadão que deseja repercutir e ir mais longe do que já foi? Trata-se, pois, de uma profissão altamente democrática, mesmo quando o apresentador chama a atenção mais para si do que para o apresentado e o interrompe o tempo todo, impedindo que o apresentado desenvolva seu pensamento. É que o veículo vive dos trinta segundos ou dos três minutos e vive do lema: Seja urgente que atrás vem gente! Se o apresentado é alguém excepcional, concedem-lhe 15 minutos, o que, em termos de televisão, é uma fortuna. Se a produção permite é porque ele renderá mais dinheiro do que a mídia investiu nele. Não admira que alguns apresentadores estejam milionários.

Agora, a digressão e o adendo! Você pretende s apresentar Jesus. Talvez detenha cinco ou seis títulos, seja doutor; talvez não tenha nenhuma qualificação além de sua fé e sua simpatia. Como Jesus não é entrevistável, vai depender mais de você do que das respostas de Jesus, prender a atenção dos que o virem na televisão e ouvirem no rádio.

Fará o quê? Contará com sua argúcia e enorme simpatia? Repetirá, todos os dias, a mesma coisa, como fazem alguns apresentadores de audiência cativa? Mostrará que, também no caso da nossa Igreja não é preciso conhecer o catecismo, os documentos e os livros da nossa fé para apresentar Jesus? Basta sua argúcia, vivência e simpatia? Vai dar ibope do mesmo jeito?

Observe a mídia e veja o que os apresentadores de outras sem muito estudo conseguem e o que os nossos, também sem muita leitura, conseguem. Que fórmulas usam para com ou sem conteúdo sólido atraírem a multidão? O apresentador de circo precisa de cultura, ou basta seu jeito simpático de chamar a atenção para o próximo número? E o apresentador da fé? Vai ou não vai chamar pessoas de conteúdo sólido e abrangente? Vai ou não vai mostrar, de preferência um documento da Santa Sé e dos bispos, com comentário de algum especialista? Ou dará mais espaço à garotinha ou ao rapaz que acaba de gravar o seu primeiro CD de músicas religiosas?

Quem ganhará mais espaço, o catecismo ou o mais novo candidato a cantor religioso? Quem sabe apresentar de maneira tão simpática e carinhosa a mais nova revelação da música católica não poderia, com a mesma simpatia, revelar o mais novo documento da Igreja Católica? E porque apenas uns poucos apresentadores o fazem? Os outros não perceberam, não se interessam? Não acham importante? Ou não foram provocados a colocar sua simpatia de apresentador ou apresentadora a serviço da catequese?

Se, um dia, você for apresentador do que quer que seja e onde quer que esteja, lembre-se desta provocação. Apresentador católico não pode ser como os apresentadores de emissoras laicas. Os objetivos não são exatamente os mesmos. Mas receio que os outros estejam apresentando coisas bem mais interessantes do que os nossos. Questão de mentalidade, de produção e de convicção.

Caso tenha um programa de rádio ou televisão e seja apresentador, diga muitas vezes a si mesmo: Estou aqui para apresentar os outros, a catequese oficial da Igreja, as novas idéias, as novas pastorais, os novos documentos, o passado e o presente da Igreja que me chamou a comunicar e a ajudar a comunicar. Isto, talvez, o ajude a falar menos de si e a trazer para os ouvintes e telespectadores matérias profundas e cheias de conteúdo. Existir, elas existem. Mas nem sempre são apresentadas ao povo católico. Deve doer demais ter que ler passagens de um livro de teologia ou de algum documento forte nas duas horas do seu programa… Devem achar aquilo chato! Então, eles dizem coisas, lindas, tocam música, entrevistam quem mal conhece a doutrina católica e escondem do povo este precioso tesouro chamado teologia, sociologia, antropologia e história da Igreja! Possuem a chave do tesouro, mas não a usam!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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