Eutanásia significa boa morte. Teria a ver com o direito de uma pessoa morrer bem. Mas o conceito tem sido usado como direito de alguém abreviar a vida de uma outra pessoa. O terrorista que joga uma bomba num shopping também está abreviando vidas indefesas. Se ele é assassino, também aquele abrevia a vida de um doente terminal, mesmo que ele o peça, é assassino.
Uma coisa é o direito de morrer, outra deixar morrer com dignidade e outra ainda, matar um enfermo. A bioética moderna coloca religiosos, juízes, advogados, políticos e famílias diante do drama da morte do outro. Como não se admite que militares em guerra ou terroristas joguem bomba sobre crianças ou população inocente, não se admite que alguém vestido de branco, ou de toga mate ou mande matar quem não pode se defender. Não se pode confundir o direito de morrer com dignidade com o direito de matar por piedade.
Uma coisa é a retirada de tratamento extremamente custoso para a família ou para o Estado para alguém mantido apenas por aparelhos e outra negar água e alimentação a um corpo para um moribundo, para que morra mais depressa. O critério de morte cerebral é questionável. Não se trata apenas de um corpo cujo espírito já morreu, portanto é apenas um monte de carne. Não há como saber se ainda tem reação de ser humano.Os aparelhos não registram tudo. Por isso a quase totalidade dos religiosos em geral se posiciona firmemente contra a eutanásia. Eles acreditam que Deus é autor da vida e o direito de chamar esta vida é dele. A medicina não chegou ao estágio de saber se um ser humano ferido mortalmente deixou de ser pessoa.
Você já conhece a versão de muitos jornais e revistas, a dos médicos, a dos políticos e a dos juizes a respeito da vida e dos direitos de Terri Schiavo. Trata-se do dilema da morte do outro. A família tem o direito de opinar. O Estado tem o direito de questionar se deve manter esta pessoa para sempre num UTI. O ex-marido mesmo que seja o tutor, não tem o direito de pedir em nome dela, se os pais querem que ela seja mantida em vida, ainda que vegetativa. Os pais também têm direitos e deveres que não cessaram com o casamento dela… Alguns políticos, entre eles o presidente Bush e o governador Bush que, lembremos, são irmãos, querem que ela viva. Isto mesmo! É o que você leu. O mesmo presidente que mandou jogar bombas no Iraque e enviou para lá milhares de soldados para matar ou morrer, quer a Terri viva com o dinheiro do Estado. Mostra misericórdia ao menos para com ela. Juízes se dividem sobre o dever de mantê-la viva. Há os que dizem que o Estado tem tal dever e os que dizem que não tem.
Conheça agora a opinião da Igreja católica. Caso você seja católico lembre-se que a nossa Igreja que assume, com João Paulo II, o “Evangelho da Vida” (l995) defende o direito de nascer e o de morrer com dignidade. A mesma Igreja que não permite que se mate um embrião, porque o considera uma vida, não permite que se mate uma pessoa em estado vegetativo porque a considera mais do que um corpo.
Uma coisa é desligar um aparelho e outra não injetar nele nem água nem alimento para que aquele corpo morra de inanição. Desligar aparelhos de uma pessoa cujo cérebro é dado como morto é uma coisa. Embora questionamos o conceito de morte cerebral, entendemos que isto ainda não é eutanásia. Mas negar água ou alimento para aquele corpo é matar mais depressa. Isto é eutanásia. Num caso deixa-se a vida seguir o seu curso natural até o desfecho, posto que a medicina esgotou todos os recursos. Noutro trata-se de assassinato. O que médicos e juizes fizeram com Terri foi negar água e alimentação para que morra mais depressa. Isto é eutanásia. A Igreja considera isto um assassinato,
Da mesma forma, a Igreja considera assassinato extrair um feto, ou matar um embrião. Acusem-nos do que quiserem, mas quem está lutando pela vida somos nós. Quem está extraindo e pedindo leis que permitam que se mate são eles. O embrião é uma vida humana concebida e possível de gestação que ainda não parece humano, mas é. Pode-se discutir se têm alma ou se já é pessoa, mas para a Igreja é vida que poderia vir a ser pessoa. Terri com 41 anos e 15 anos de vida vegetativa pode não se parecer mais conosco, mas está viva. Esta jovem mulher agiu como ser humano é ser humano, está vivendo, ainda que mantida por aparelhos. Não se trata, pois de dar fim apenas a um corpo. Terri é uma pessoa tremendamente limitada, mas é gente. Enquanto eu escrevo ela ainda está viva. Tem o direito de morrer com dignidade ou de viver. Mas não pode ser assassinada. Negar água e alimento a um prisioneiro é assassinato. Terri é prisioneira de sua enfermidade.
Um juiz não pode decidir que ela morra, porque Terri não foi julgada, logo, não pode ser condenada. Além disso, mesmo nos Estados Unidos onde se aplica a pena de morte, ela não é passível de tal pena porque não cometeu nenhum crime que as leis de lá justifiquem. O ex-esposo quer que a deixem morrer, os pais não querem, os amigos não querem, os religiosos não querem, a maioria da nação não quer, porque mesmo uma morta viva tem o direito de viver.
Não havendo nenhum papel onde ela expressa esta vontade não pode valer a palavra do ex marido. Mesmo que houvesse o papel, advogados garantem que é questionável executá-la pela fome ou pela sede, porque não é decisão que ela possa tomar. O máximo que se pode admitir, desligados os aparelhos que prolongam artificialmente as funções vitais, como bombeamento de sangue ou respiração artificial, o é que corpo de Terri entre em falência. Mas negar água e alimentação é apressar a sua morte. Nós dizemos que isto é assassinato. Ninguém tem esse direito.




