SIMPLES E ESPERTOS

Voltar

Quando Jesus propôs aos seus discípulos que fossem inocentes como pombas e espertos como serpentes ( Mt 10,16) propôs um modelo de santidade cristã. Devemos ser puros e simples, mas não ser bobos. Nem permitir que abusem de nossa fé ou paciência. Paulo reagia, Pedro reagia. Os discípulos reagiam. Pode-se fazer isso sem deixar de amar ou sem perder a santidade. Jesus enfrentou os fariseus sem perder a santidade. A serpente sabe fugir ou se defender se for preciso. Ele não disse que deveríamos ser como serpentes venenosas. Mandou ser espertos!

Todo mundo deveria ser santo. Foi para isso que o Pai enviou seu filho ao mundo (Jo 3,17). Não foi para condenar, mas para reeducar e aperfeiçoar o ser humano. Os bons devem ser incentivados, os pecadores motivados a mudar de vida e os maus devem saber quem somos e o que pensamos de sua maldade. Não devemos sair pro aí abençoando terroristas, baderneiros ou corruptos que desviam milhões. Eles devem ouvir o que Herodes ouviu de João Batista. És o rei, mas não te é licito (Mt 14,4). Jesus o chamou de raposa (Lc 13,32). Não era nada lisonjeiro naquele tempo ser chamado de raposa. Continua não sendo. Jesus propõe uma santidade ousada e se propõe criar legiões de santos que com seu comportamento justo, sem medo, solidário mudassem o mundo. Quando foi preciso ele fugiu do conflito ( Jo10,39) mas houve horas em que não era possível. Enfrentou quem agia com maldade e desrespeito aos direitos dos outros ( Mt 12,34) . Chamou os fariseus de raça de víboras. Estes, sim, serpentes perigosas!

Miremo-nos no seu exemplo. Santo é pessoa de brio que diz o que tem que ser dito e faz o que deve ser feito. Não confundamos fala mansa, mãos embrulhadas e cabeça torta com santidade. Jesus achou graça nos fariseus que tentavam parecer santos. Faziam cara de quem estava em jejum para ganhar aplausos e serem chamados de santos. Cabeça torta nunca impressionou Jesus (Mt 6,5; Mt 6,16). Siga os santos de cabeça erguida e sorriso acolhedor, mas se preciso de rosto severo e exigente e achará Jesus.

Já, os falsos santos e profetas, que vivem de pedir mais dinheiro, mais visitas ao seu templo, mais obediência cega ao que dizem, os que não dialogam e vivem impondo suas visões; os que, quando podem, passam rasteira nos outros e tomam o lugar dos irmãos e até invadem o território onde os irmãos conseguiam sua sobrevivência, vivem de competir para ver quem faz mais adeptos, usam de marketing mentiroso, eles cabem nos capítulos 14 e 23 de Isaias. Não são nem profetas, nem pregadores, nem pastores de rebanho, nem santos. São oportunistas que descobriram o poder da fé e o exercem para dominar. Gostam de ser bajulados de aplaudidos. Jesus diz que o caminho é outro. Quem gosta demais dos aplausos dos homens acaba sem os aplausos de Deus. Quem adora ser aplaudido. ganhar prêmios. títulos de cidadão, chaves de cidade e de aparecer aonde vai precisa rever seu conceito de santidade. Jesus pedia aos que ele curava que não divulgassem. Releia o evangelho de Marcos!

Aquele que se souber servir, acolher e lavar os pés dos outros e não procurar nem poder, nem riqueza, nem o primeiro lugar tem mais chance de ser santo, porque, mesmo que esteja no primeiro lugar estará humilde e sem se colocar como o centro de tudo. Madre Tereza de Calcutá, Dom Helder, Irmã Dulce, João Paulo II mostram como é possível aparecer sem se prevalecer. Quando grupos religiosos partem para a doutrina do vitorioso, do sucesso, fica difícil não querer o poder e o confronto. Para serem vencedores alguém tem que ser perdedor. Se for vitória contra o pecado , ainda bem, mas o discurso de alguns pregadores trai desejo de derrotar o outro crente, que ele dá um jeito de situar nas trevas e com o demônio! Imitam Jesus nesse confronto que foi inevitável, mas não o imitam na misericórdia e no amor aos inimigos, por quem ele pediu perdão.

Santo de verdade não posa de santo e não faz cara de santo. Ele é de Deus e sua coerência o diz, porque não cede à fama, ao dinheiro ou ao poder. Não puxa tapete para ocupar espaço que é do outro. Santo de verdade é pessoa desprendida. Está devendo e pode até fechar sua casa, mas dá o que nem tem. Despojado ele realmente confia em Deus. Preste atenção nos santos que o cercam. Alguns deles não parecem, mas são pessoas santas. E há os que parecem, mas não são! Ore agradecendo pelos primeiros e ore pelos segundos para que se convertam de verdade. Jesus já disse que tipo de santo vai entrar no céu e que tipo de santo entre aspas ele vai rejeitar. Corremos todos este risco. Se alguém chamar você de santo ou tratá-lo como santo proteste. Diga que é cedo para dizerem isso. Faça como aquele abade com fama de santidade que toda vez que o chamavam de santo dizia: – Por favor, não faça isso comigo! Me chame de abade ou irmão, porque isto eu sou. Mas santo, eu ainda não sou!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

Wallmedia