RAIO DE VIDA E RAIO DE LUZ

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A luz e a vida costumam ser sorrateiras. Amigos meus recém casados frequentemente passam por esta experiência, que conheço desde os meus primeiros anos de padre. E já se vão 45 anos! O casal planeja um filho para dois ou três anos, porque há um curso por concluir, há problemas financeiros por contornar, e, em alguns casos, há duas filhas em crescimento. De repente, vem a gravidez indesejada. Gravidez indesejada, mas feto aceito e sem rejeito!
Digo hoje, como dizia desde o começo, que raio de vida é como raio de luz. O raio de luz é um pouco do sol que nos chega e um raio de vida é um pouco do amor do casal. Cortina ou janela fechada não impede a luz de entrar. Se escapar uma fresta é por lá que entra a luz teimosa e sorrateira. Útero fechado não impede uma vida de chegar. Uma relação de amor pode achar aquele útero aberto à vida e, por uma fresta de homem e de mulher, uma vida nova se aninha dentro dela, com todos os direitos de um nascituro.
É como se o novo e querido intrometido dissesse: – “Sou aquele espermatozóide e óvulo que se encontraram logo após o êxtase de vocês. Vim de vocês naquela brecha aberta pelo seu encontro. Aconteci e agora quero saber o que farão comigo. Vão me eliminar porque cheguei na hora errada e trarei incômodo, ou vão me acolher porque sou fruto de um êxtase? Sou problema ou surpresa? Farão como o assassino que apaga e deleta quem o incomoda ou como pais que me acolhem? Já sou seu filho ou serei chamado de feto até o dia de ser dado à luz?”
Sem luz não há vida e sem vida não se entende a luz. É por isso que o aborto é mais treva do que luz. E é por isso que, desde os antigos egípcios, passando por dezenas de códigos até os modernos códigos de direito os povos afirmam o direito do nascituro. Foi concebido não pode ser devolvido!
Não se pode mandar a luz de volta, mas pode-se impedi-la de continuar entrando pelas frestas de nossa casa. Não se pode mandar uma vida de volta, mas pode-se eliminá-la por meios sempre violentos e até com o apoio da lei. E pode-se acolher a luz e a vida. Mas isso é decisão de quem as quer. Se alguém prefere a escuridão total, aborta a luz. Se prefere a liberdade de não ser pai nem mãe naquela hora, aborta a vida. Com a lei defende o feto eles querem mudança na lei.
Adjetivos e substantivos arranjam-se muitos para explicar a luz que foi supressa e a vida que foi eliminada. Mas a verdade é que alguém não quis nem uma nem outra. Numa sociedade na qual triunfa o indivíduo e o seu bem estar, fecham-se as frestas e os ventres. Se ainda assim a vida teima em aparecer, luta-se pelo direito de abortá-la. E amenizam tudo dizendo que ainda não era vida humana nem ser humano! Mas aí vira sofisma! O fato é que uma vida aconteceu e foi supressa! Não importa se congressos e governantes declaram que sua supressão não é mais crime. Decidir, por intenso marketing que o aborto é uma conquista da mulher que não quer ser mãe daquele feto e particular é esquecer ou omitir que o feto morre. E, vamos e convenhamos, eliminar um nascituro nunca foi nem jamais será progresso. Se lutamos contra a pena de morte para os piores bandidos por menos desejados que eles sejam, não faz sentido eliminar um feto inocente cujo crime é ter se aninhado no ventre certo, mas em hora errada.
Acusam a nós, religiosos, de sermos fanáticos, ultrapassados e mezozóicos por termos escolhido defender o sujeito que ainda não é sujeito. Os códigos de direito da maioria dos povos diz que é! E gritamos: -Mantenha-se o artigo 2, o 4 e o 5! E eles replicam: -Suprimam-se os artigos e suprima-se o feto indesejado!
A briga é boa! Vai levar muita gente ás ruas e aos estádios. E estarão todos brigando a favor ou contra o raio de luz e o raio de vida que teimosa e misteriosamente invade o casal! E aí estoura a pergunta: -O sexo é para a morte ou é para a vida?

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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