A maioria da pessoas que diz está absolutamente certa não está absolutamente e, às vezes, nem relativamente certa. O marketing pode até vender certezas, nem toda a certeza vendida é verdadeira , assim como nem todo peixe grande e colorido é peixe sadio.
Está em curso há mais de três décadas nos templos, na rádio e na televisão, a pregação da certeza. -Deus me disse eu vi, eu sei! Será que viram? Caminha em direção assumidamente viés à de Paulo de Tarso, o pregador da esperança. O apóstolo era um homem de muitas esperanças e poucas certezas. Seus escritos estão, sim, recheados de esperança. Várias vezes, citando Habacuc, ele lembra que o justo vive da fé ( Rm 1,17; Gl 3,11; Rm 4,3-16).
Se Paulo vivesse hoje, talvez estivesse perguntando aos pregadores de rádio e televisão de onde eles tiram toda a certeza que demonstram de que vai haver milagre no sábado; de que um câncer vai desaparecer ou que no domingo em seus templos haverá curas? Como podem ter certeza de que alguém que aderiu à sua igreja será salvo? Judas aderiu a Jesus e acabou traindo-o! Se muitos que andavam com Jesus foram embora, como podem ter certeza e passar tanta certeza aos seus seguidores de que o futuro será exatamente como profetizam?
A pregação de Paulo é bem mais humilde. Ele anuncia a esperança que conduz à certeza, mas acentua muito mais o sentido cristão da espera. Quem decide é Deus.. É da fé fundada na esperança que ele vive. Quanto à sua salvação, ele espera e confia. Mas do futuro quem sabe é o Senhor. É dele uma das bonitas reflexões sobre a esperança:
Porque em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará (Romanos 8 : 24)?
Em outras palavras: dar garantia e pregar certeza é uma coisa. Pregar a esperança e a fé já é outro projeto. Quando prego a fé estou dizendo que eu também não sei. Quando prego a certeza estou dizendo que vi, senti e sei, por isso, posso garantir. Quantos pregadores da certeza foram lá, viram e ouviram e sabem? Quem é assim tão excepcional?
É verdade que, às vezes, Paulo fala de algumas certezas, mas sempre acompanhadas de dúvidas. Em Felipe 1,6 ele fala de certeza! Mas Paulo é o pregador da esperança fundada na fé. Paulo espera!
Aos meus ouvintes e amigos não hesito em dizer que sou um homem de muitas perguntas, poucas respostas e poucas certezas. Foi sempre assim. Considero-me afortunado, porque aprendi que a fé e a esperança costumam ser copiosas onde há muitas perguntas e poucas respostas claras. Temos então, como o justo de Habacuc e como Abraão e Paulo que viver da fé, já que as certezas nem Sempre viram evidência.
Trocando em miúdos, digo, com milhões de católicos, que, sim, tenho algumas certezas: “Deus existe, é pai e ama. Jesus Cristo é o seu Filho e veio nos mostrar o caminho para o colo infinito do Pai. O Espírito Santo ilumina e dá palavras certas do jeito certo e na hora certa. Tenho certeza de que nasci, estou vivo e morrerei, mas não sei quando e como. Também não tenho certeza de que me salvarei e estarei no céu com quem me precedeu. Apenas espero que assim aconteça”.
Por isso, ao anunciar Jesus e sua misericórdia e um céu futuro não garanto nada a ninguém. Não digo que Deus quer, Deus pede, Deus manda, Deus garante. Digo apenas que o Santo Livro tem passagens onde o escritor diz que Deus garante, Deus falou e Deus disse. Disse a eles e não a mim, porque eu nunca ouvi a voz de Deus a sussurrar o que quer que fosse aos meus ouvidos. Deus nunca me apareceu, nem anjo ou santo algum me disse qualquer coisa. Não sou vidente, nem ouvinte do céu. Sou aprendiz. Ouço a Igreja, leio os livros santos, leio os teólogos, leio irmãos mais sábios do que eu. E isso tem sustentado minha fé.
Deus não precisa me aparecer para eu crer nele. Jesus não precisa falar aos meus ouvidos, nem Maria ou santo algum precisam se manifestar para eu crer que estão no céu. Não tenho nenhum recado novo a dar ao mundo além dos que a Bíblia oferece e a Igreja dá nos seus documentos. Não prego certeza que, aliás, nem consta como virtude fundamental entre os cristãos. Não está na lista das sete virtudes. Ela vem como prêmio a uma fé serena, uma esperança sem alardes e à paciência de deixar que Deus nos conduza e vá mostrando seus sinais. Ouvi-lo e vê-lo nunca me aconteceu.
Aprendi no catecismo que as principais virtudes são fé, esperança, caridade, prudência, justiça, equilíbrio e fortaleza. Há outras, mas nunca me disseram que devo pregar a certeza, talvez pelo fato de que a maioria dos que tinham certeza acabaram fundando novas igrejas e grupos dissidentes.
Sua certeza era tão grande, que não conseguiram mais aceitar as certezas dos outros. A maioria deles acabou sem a humildade de admitir um eventual erro de profecia ou de anúncio de milagre, Acham sempre uma explicação quando o milagre certo e garantido não acontece. Mas como voltar atrás, se haviam pregado certeza? Sabe-se que alguém é falso profeta quando não se retrata nem pede desculpas pela certeza que deu para algo que não se verificou. Nunca se ouve desses irmãos ou irmãs a frase: – Eu errei. Eu me enganei! O milagre que anunciei não era milagre!
A pregação mais incerta que há é a da certeza. Pregador sereno mostra os fatos de ontem e aponta humildemente para um possível futuro, mas ele mesmo admite que sabe pouco diante do que é preciso saber sobre Deus e seu amor por nós. Certeza de céu e de salvação é uma coisa, promessa de céu e de salvação é outra. Promessa ainda não é certeza. Paulo, antes de morrer, fala desta esperança que virou certeza, serviço fraterno e esperança (2 Tm 4, 7-8). No fim, dizia que combatera o bom combate e agora esperava com mais força ainda. Suas epístolas são eivadas de esperança.
O justo vive da fé (Rom 1,17; Gl 3, 11; Hb 10, 38) dizia ele. Em mais de 50 passagens ele fala da esperança cristã. Os novos pregadores de mídia eletrônica são bem mais ousados. Apresentam-se como os novos porta-vozes da certeza de céu para quem os seguir. E conseguem adeptos aos milhares. Afinal, quem não quer ouvir palavras de alguém que cura caroços e enfermidades, garante empregos e sucesso nos negócios e liberta de tumores? Por que viver da fé que pode um dia gerar a certeza se já podem viver da certeza que pode um dia levar à fé?
Um desses irmãos me dizia que foi para aquela igreja porque viu o milagre acontecer diante dos seus olhos. E eu lhe disse:
- É aí que começam as diferenças entre a sua fé e a minha. Você crê porque viu e eu creio mesmo sem ter visto nada. No seu caso, é a busca de evidência e no meu é busca de mais fé. Eu não vi, mas creio. Você não acreditava, mas depois que viu, agora crê. Acho que Deus pode operar prodígios na minha e na sua igreja e em qualquer lugar do mundo. Mas, mesmo que não aconteça nenhum milagre por anos a fio, exceto o milagre da eucaristia na minha paróquia católica, eu ainda assim creio que Jesus está lá conosco. Jesus não precisa fazer nenhum milagre lá no nosso templo para eu acreditar que ele é um redentor eficaz. No dia em que o fizer, acharei perfeitamente normal, porque chegou a hora dele fazer o que achou que deveria fazer por aquela pessoa. Mas, quem decide é ele, sem marketing do tipo: – “Venha conosco porque no nosso templo há milagres”<
A uma senhora, que disse que ficou curada após tocar na manga da minha túnica, numa eucaristia à qual presidi, respondi com serenidade:
- É que a sua hora de ser libertada chegou e certamente não foi por minhas palavras ou por minha pregação de certeza, nem por minha túnica, mas por sua fé que Jesus curou. Motivei a sua fé, até sem o perceber e sem nada lhe sugerir. Eu nem sabia do seu problema. Não brinquei de profeta e nem disse que no auditório havia alguém com câncer. Apenas falei do Cristo que se importa conosco e tem poder para nos libertar. Não dei garantias e nem prometi nada. Fui um instrumento inconsciente. Se outro pregador quiser assumir que foi instrumento de alguma cura é um direito dele e é também um risco. Eu prefiro anunciar a fé e a esperança. Sou mais da linha de Paulo. Não a certeza, mas a esperança o fortalecia, porque ele levava o tesouro da fé em vaso de barro. Ele sabia dos perigos da pregação e da fragilidade do pregador que às vezes, não resiste em divulgar o produto do seu quintal como o melhor do mundo.
Não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pela conversa enganosa dos homens que com astúcia agem fraudulosamente. (Efésios 4 : 14)
A esperança não semeia confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. (Romanos 5 : 5)
Leiamos Paulo e sua catequese da esperança, mesmo sem certezas. Quem tem esperança não sai à cata de certezas. Diz ele que a esperança não decepciona. A falsa certeza, cheia de ”converta-se já, “Jesus está lhe dizendo neste momento, pela minha boca” “aqui- agora- já , esta engana!




