Uma coisa é parecer piedoso e outra ser piedoso. Alguns cristãos parecem piedosos, mas agem de maneira impiedosa. Falam manso, abençoam solenemente o outro com um suave Jesus te ama, semeiam olhares santos, olham para o céu como se anjos fossem, mas não hesitam em julgar e destruir a obra de quem não é da igreja ou da linha deles.
Como não aconteceu apenas uma vez, mas muitas, acho por bem contar um fato que ilustra esse tipo de comportamento de piedade-impiedosa. Piedosos com Deus e impiedosos para com quem não crê nem prega como eles. Serve para católicos e para evangélicos fanatizados.
Eu acabara de pregar numa missa com multidão, e íamos para outra cidade para um show. Paramos numa barraca de peixe para o almoço. À mesa, treze pessoas entre sacerdotes e leigos. A maioria bebeu refrigerante. Um deles pediu uma garrafa de cerveja que veio num invólucro de isopor, onde se lia Aguardente Pitu. Mas era cerveja. Não costumo beber cerveja. Mentiria se dissesse que não bebi um gole. Nem foi copo. Foi um gole mesmo. Pedi pepsi-cola e todos viram que foi isso que bebi com a refeição.
De repente a mocinha, super piedosa que certamente me conhecia, aproximou-se, dizendo que nos estava observando da outra mesa e entregou-me um bilhetinho. Perguntei se podia lê-lo para dar uma resposta. Não quis que eu lesse. Era para depois. Ela usava uma camisa onde se lia Eu amo Jesus.
Assim que ela se foi, abri o bilhete. Pensei que fosse pedido de oração. Mostrei-o aos colegas, que ficaram revoltados. Depois de me dar duas frases bíblicas sobre Jesus, bênção e verdade, perguntava: – Padre. Só não entendi a garrafa de bebida alcoólica na sua frente…
Não era minha, não era aguardente, eu estava bebendo refrigerante e ela não quis ficar para ouvir a resposta, mas perguntou acusando. Contudo, a camisa dela dizia que ela amava Jesus e o bilhete dizia que Jesus me amava.
Foi embora e Deus sabe o que não estará dizendo sobre o padre da outra linha de Igreja que mal saiu da missa e já estava com uma garrafa de Pitu à sua frente.
De nós todos a que se mostrou mais embriagada foi ela. Nós, ao menos, conversamos lucidamente, ninguém acusou ninguém e um quis ouvir o outro, mesmo sem dizermos Jesus te ama com olhar de santo. A santa, com camisa que anunciava imenso amor por Jesus, achou-se no direito de questionar e não ficar para ouvir a resposta. Como não deixou nome nem endereço só posso concluir que desejava me converter para o Cristo dela, como ela o via.
Ajudou mais do que imagina. Ajudou-me a escrever sobre esse tipo de piedade impiedosa. Sua boca e seu peito estavam cheios de mel, mas o bilhete era de fel: perguntou e não quis resposta, julgou-me sem me dar o direito de defesa, perguntou e foi embora! Nunca vai entender o porque daquela garrafa, porque não me deixou responder. Mas seu gesto farisaico mostrou que entender era o que ela menos queria. Afinal os santos julgarão o mundo,( 1 Cor 6,2 ) não é mocinha? Só que Paulo estava falando do outro tipo de santos: os que falam, mas também aceitam ouvir!




