O SEGUNDO LAR

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Éramos e somos grandes amigos, mas ficou difícil para mim, sacerdote conhecido, freqüentar o novo lar dele e o novo lar dela. Eles sabem e compreendem. Quando meu amigo decidiu deixar sua esposa e viver com outra mulher e, quando minha amiga decidiu viver com outro homem e os dois fundaram nova casa e novo lar, deixei claro a eles que até jantaria com ambos, encontrá-los-ia em outros lugares, mas nunca mais dormiria na casa nem de um nem de outro e não os visitaria como antes.
Imediatamente compreenderam. Disseram que tinham feito uma opção que não podiam impor ao amigo sacerdote. Não esperavam que eu abençoasse a sua nova opção. Era coisa de consciência e de sentimento. Mas pediram-me que os encontrasse de vez em quando. Isso, de um jeito ou de outro, eu tenho feito, em restaurantes ou na casa de outros amigos. Acho que foi sabedoria deles e minha.
Dentro da doutrina católica, toda e qualquer decisão que envolve separação supõe uma reflexão profunda sobre o antes o durante e o depois daquela separação. Continuo padre católico, amigo de ambos. Às vezes nos telefonamos, mas nunca mais os visitei e nunca mais, quando em viagem, posei na casa deles. Continuo achando que são irmãos maravilhosos, mas, para eles, o primeiro matrimônio não foi como sonharam. O desgaste foi sem remédio. Não pude apoiar nem sacramentar a segunda união. Ficou entre eles e Deus. Não seria justo por nossa amizade acima da fé e da Igreja. Nem me pediram isso. Nossa amizade não diminuiu nem um pouco. Sabem que os amo, mas amo a Igreja mais do que a eles.
Religião é proposta, as vezes radical. Dá para ser amigo e, até, irmão espiritual de alguém que optou por não seguir as leis da Igreja. Mas, por questão de coerência, não posso nem mesmo dar uma bênção oficial, como a vó dela pediu. Seria, de certa forma, simular um sacramento. Jantei duas vezes com eles; uma vez com os dois e as filhas e outra com ele e sua nova companheira. Prometi que faria o mesmo com ela e seu novo companheiro. Nenhum me convidou a ir à casa deles nem pediu nada além da minha amizade. Sabem o que penso. Sabem que permaneço discordando, mas o amigo e o irmão de sempre. Não houve concessão de doutrina. Nem eles querem isso do padre a quem chamam de irmão. Se isso é permitido pela Igreja? Com a devida prudência, sim! Consultei o bispo e ele me disse que jantar com bandidos não faz sentido, mas com pessoas feridas na alma e em busca de diálogo com a Igreja, sim! Foi o que fiz! O casal que não concordou, dois anos depois viu sua filha enfrentar a mesma situação. Agora concorda!..

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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