O PREGADOR DIANTE DA MORTE

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Quando me perguntam a respeito da morte, eu, que sou pregador cristão, começo falando da minha e deixo claro que sei que um dia vou morrer e não sei o dia. E acrescento que por isso oro todos os dias a Maria, mãe de Jesus que assistiu ao nascimento e à morte dele, que ore por mim, agora e na hora da minha morte. Eu creio que Maria está viva no céu. Jesus a levou para lá. Creio que no céu há bilhões de pessoas salvas pela misericórdia de Deus. Não creio que só depois do ultimo dia da humanidade é que as pessoas se salvarão. Jesus se antecipou aqui ajudando enfermos e ressuscitando mortos. Nem a viúva de Naim pediu a ressurreição do filho, nem o paralítico em Bethesda pediu a cura. Creio que ele salvou e salva. Para mim ele é um salvador eficaz.
Faço isso como todos os católicos. Católico pensa todos os dias na possibilidade da morte e pede a ajuda da mãe de Jesus e dos santos. Somos educados a não ter medo da morte, mas também a não ficar imaginando qual será o dia do grande chamado.
Tendo dito isso eu falo da morte dos outros, de quem ajudei a morrer e de quem morreu nos meus braços de sacerdote. E não foram poucos. Fui assistente de hospital por alguns meses. O primeiro pensamento que me vem à mente é o de Paulo: as coisas não acabam aqui ( 1 Ts 4,13-18). Um dia todos nos veremos de novo. Para os que sobreviveram fica a esperança de um dia reencontrar os que se foram para o outro lado da mesma vida, porque não há duas vidas, há uma só que nos é dada aqui no tempo e conclui-se e continua na eternidade. Achamos que seremos a mesma pessoa só que transformadas.
E digo então que assim como nascer, viver e amar são mistérios e não se escolhe, a maioria das coisas que acontecem em nossa vida devem ser assimiladas, porque não dependem de nós, inclusive o amor, que vem sem dar aviso e tem que ser assimilado. Entre os mistérios há o mistério do morrer. Sabemos de quem viemos e sabemos para quem voltaremos, não sabemos quando e em que circunstâncias, por isso penso em Jesus que disse: “estejam preparados, porque não sabem nem o dia nem a hora”. ( Mt 25,13)
Quando alguém me pergunta sobre o morrer, eu, pregador católico, lembro os santos que já morreram e continuam vivos em Deus numa outra dimensão. Se alguém me perguntar sobre morte, eu falarei de morte e de ressurreição. Para um católico não há uma coisa sem a outra, vida e morte são chamados. Viemos de uma semente, voltamos a ser sementes e, ao morrer, produzimos frutos de eternidade.
Digo que os que morreram estão em melhor situação porque eles sabem e conhecem os dois lados da vida e nós só podemos viver de esperança. Mal conhecemos este lado e nem sempre o vivemos direito. Eles concluíram seu ciclo. Vou mais longe, digo que acredito em anjos e santos, querubins e serafins e em aparições. Mas não acredito em todas as aparições nem em todos os videntes. Muitos videntes evidentemente estão enganados. Não acho que os anjos e santos apareçam tanto e se manifestem tanto como hoje em dia acontece na maioria das igrejas ditas pentecostais, não acredito que haja tantos recados e milagres quanto dizem que existem nas igrejas; acho que muitos são provocados, mas acredito sim, que existem milagres autênticos, aparições autênticas. Nunca, porém, ouvi dizer que basta chamar um santo que ele vem e aparece. A decisão não é nossa: é de Deus e Ele envia quem Ele quer, mas se eu negasse que anjos e santos podem aparecer, estaria negando a Bíblia e o poder de Deus, que tem mensageiros lá e cá.
Sou um pregador do aqui e do depois. Sei pouco sobre o aqui e praticamente nada sobre o depois. Se Jesus disse que anjos existem é porque eles existem. Jesus não é nenhum ignorante nem um mentiroso, se Ele foi citado com razoável grau de veracidade, deve ser verdade que anjos existem. Se a Bíblia disse, então anjos e santos existem e se ela o diz, os mortos estão vivos.
Se for verdade que Abraão, Moisés e Elias apareceram falando com Jesus então é porque não estavam dormindo. Então existe gente acordada no céu, viva. Por isso quando falo da morte e penso nas passagens bíblicas que nos enchem de esperança: o depois existe.
Sou como aqueles que sabem que este vale aqui é muito bom, mas depois da montanha há mais montanhas e mais vales e eu quero conhecer. Sou daqueles que acham que a vida começa e termina neste vale e neste buraco de montanha. Mais do alto, mais de cima pode-se ver que há outras montanhas, outros vales e tudo isso pode ser caminho de um ser humano.
É por isso que o caminho da espiritualidade é muito mais vasto que o do materialismo. Este acaba logo. Seus horizontes são curtos, mesmo que sejam intensos. Já, os horizontes de uma pessoa religiosa podem ser vastos e intermináveis, mas devem ser intensos. Infelizmente há horizontes superficiais. Pode-se mergulhar no raso. As conseqüências costumam ser trágicas.
Enfim, não encaro a vida de maneira superficial porque acho que ela é cheia de mergulhos profundos e novidades incríveis, mas também não encaro a morte de maneira superficial: ela também é cheia de mergulhos profundos e de novidades incríveis.
O que eu sei é que todos nascemos. Essa é a primeira verdade, estamos vivos. E a segunda, para um católico: um dia morreremos e continuaremos vivos numa outra dimensão da mesma vida que Deus nos deu. O que chamamos de outra vida é esta vida continuada, numa outra dimensão que não podemos nem se quer imaginar o quanto será melhor.
Enfim, pregador católico diante da morte não hesita, fala com naturalidade, com esperança, até com certeza. Sim, existe o agora e existe o depois, mas o depois não terá nenhum sentido se o agora não criar este sentido. De certa forma, nosso depois depende do nosso agora e nosso agora depende do nosso depois. Somos filhos da eternidade vivendo aqui para o encontro com o Deus eterno.
Eu me consolo com essas verdades e tento consolar os outros com essas verdades. Paulo aconselha isso. (I Ts 4,18) Um dia nos veremos, mas entre os que morreram e nós, os que morreram estão muito melhor. Eles, agora, sabem tudo o que é preciso saber a respeito da criação. Assim cremos, assim esperamos.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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