Em algum lugar deste país uma jovem mulher tem dentro dela um embrião que não deseja carregar. Já marcou visita a uma parteira que extrai. Teve algumas noites de prazer com um rapaz que ela ama, tomou os devidos cuidados para não engravidar, mas o espermatozóide dele encontrou o seu óvulo. Foi fecundada. Mas ela não quer ser fecunda. Não quer gerar, não deseja aquele fruto, não aceita ser mãe aos vinte e dois anos, não considera o embrião como filho e, não importa o que digam autoridades ou a igreja que ela freqüenta, a jovem mãe contra a vontade já decidiu: vai tirá-lo. No ventre dela manda ela!
A mãe e o pai são contra. Já argumentaram que ela mesma já foi embrião, a família era pobre e a pobreza se complicaria com o seu nascimento, mas eles a assumiram porque, desde o primeiro aviso até o presente momento, viram a filha como um ser sagrado. Filho é sagrado, não importa quando e como veio. Foi concebido, tem o direito de nascer.
Ela não se dobrou. Argumentou que isso era no tempo deles. Quatro amigas jovens na loja onde ela trabalha garantem que abortaram e não se arrependem. Uma delas afirmou que o feto já era de cinco meses. Nunca o viu como filho. Era só um feto. Filhos é para quem quer! Se não quer, tira!
As quatro garantem que são modernas e que os tempos e as cabeças mudaram; hoje, segundo elas, a mulher é dona do seu corpo. Três outras colegas, católica, pentecostal e espírita discordam e dizem que, com o matrimônio, o marido também tem direito ao corpo da esposa e ela ao do marido. Acentuam que, mesmo que a mulher fosse a única dona do seu corpo, ela não seria dona da vida que concebeu. Foram duramente rejeitadas pela quatro defensoras do aborto. O clima ficou tenso. Aa defensoras do aborto, é claro, consideram-se modernas e em dia com a ciência e os rumos do mundo. Religião só atrasa!
E se o zigoto, embrião ou feto pudesse falar, à medida que tomasse vulto e fosse dando sinais de sua presença naquele corpo de mulher que o considera um intruso? Diria o mesmo que ela diria se alguém ameaçasse tirar-lhe o emprego ou a vida. Gritaria por uma chance. Diria que não é intruso porque não veio de fora: nasceu lá dentro. Só o espermatozóide do seu “cara” veio de fora. Diria que aquela já é e será sua casa por muitos meses.
Mas ela não quer ouvir ninguém que defenda o filho concebido. Não é filho dela e, pronto! Vai tirar! As amigas que aprovam seu ato podem opinar e se meter na sua vida. Quem desaprova, que não se meta! O óvulo era dela, o espermatozóide era do namorado, o zigoto ou embrião é dela. Nem o namorado pode opinar.Segundo ela, as mulheres hoje são donas absolutas do que está dentro delas. Ninguém nesse mundo a impediria de fazer sexo com o rapaz que ela ama e ninguém a obrigará a ter um filho que ela não quer.
Brasil, Século 21, liberdade total, direito ao sexo total, direito a manipular embriões, direito ao aborto, direito de decidir sobre uma vida frágil e indefesa, direito de considerar que aquela vida ainda não é humana. Quase nenhum dever! Não se pode extrair um mico-leão-doutrado da mãe. Mas um feto humano, pode! Venceu o mais crasso individualismo. O outro só existirá depois que der o primeiro vagido! A lei só é severa depois dos nove meses. A impressão que fica é que, se está dentro da mulher ainda não é gente!




