O BULE E O CAFÉ

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Quando leio a História da Fé e das Religiões no Mundo- e ultimamente li seis livros de autores sérios e respeitados- entre eles Karen Armstrong, Gerald Messadier, Justo Gonzáles, percebo o lado bonito e o lado tenebroso das religiões e das igrejas. Houve os santos e os lúcidos e os que foram longe demais na sua fé. É um erro achar que a fé não tem limites. Tem que ter. Se não tiver, acabará como o avião com excesso de combustível. Explode ou torna-se incontrolável.

É o controle do fogo que tornou possível o carro, o barco a motor, o avião, o fogão a gás. Fogo demais foi sempre causa de desastre. Fé em excesso é como luz na cara: deixa cego. Ou é como fogo demais nas turbinas: o avião se descontrola, o barco explode. O mal do fanático é encantar-se de tal maneira com a luz que diz ter recebido, que sai por aí, cego de tanta luz que viu e desesperado para jogar seu holofote na cara dos outros. Ou age como o sujeito que corrigiu a sua miopia com determinadas lentes e agora quer que todo mundo use os seus óculos. Não se dá conta de que o que aparentemente o ajudou a ver melhor pode não ajudar o outro.

Fanático vem do grego. A raiz da palavra é usada para o verbo mostrar, ou para farol, tocha, archote. De repente ele, que vivia no escuro, agora anda de archote ou de lanterna salvadora em punho e a enfia na cara de todo mundo, na suposição de que os outros ainda estão nas trevas e precisam conhecer a verdade que ele conhece.

Era muito mal educada aquela senhora que aprendera a melhor receita de todos os tempos e agora enfiava os pedaços do bolo daquela receita na boca de todo mundo porque todos tinham que experimentar o que para ela era paraíso. Um dia, uma senhora tão mal educada quanto ela, enfiou-lhe nos olhos a receita de patê com pimenta que trouxera. Fanático, além de empurrar sua receita espiritual sobre os outros não admite que alguém lhe empurre qualquer outro conhecimento além do seu. <

Pensam que ela se corrigiu? Estava obcecada com a doçura do seu bolo. Mudou de cidade e continua a fazer o que sempre fez. Não perde uma festa e aonde vai, lá está ela com o seu melhor bolo do mundo, receita que evidentemente só ela tem!

Nenhum fanático admite que é fanático. Mas se alguém anda empurrando a sua fé e os seus folhetos pela goela e pelos ouvidos dos outros, pode ter certeza: andou olhando demais para o sol. Excesso de fogo queima os dedos, e excesso de luz queima os olhos. Excesso de fé queima o juízo!

Você conhece algum fanático na sua vizinhança? E ele o visita sempre para convertê-lo? No dia em que ele aparecer com aquele folheto, convide-o para a mesa, encha um bule de café forte, quente e meio amargo e, quando ele começar a falar do quanto Deus fala com ele, vá atochando café na xícara dele e exija que ele beba. Ele acabará pedindo que você pare. Diga-lhe, então, que enquanto ele insistir que você o ouça falar da sua maravilhosa religião, você insistirá que ele beba do seu maravilhoso café que também é um café muito especial.

Fanáticos raramente mudam. Ele não vai parar de querer converter os outros para a sua igreja, mas na sua casa ele não virá mais, por medo do seu bule e do seu café!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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