MULHER MERCADORIA

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Traficante poderoso no bairro, aos 34 anos, ninguém lhe opunha. O que ele queria, conseguia. Separado da terceira mulher, pôs os olhos na Ernestina. Menina de 17 anos, bonita que só ela!

Deixou claro aos comparsas: “- Essa mulher é minha. Quando fizer 18 anos, vou pegá-la para mim!”. E foi o que fez. Assim que ela completou 18 anos, o barão da cocaína do bairro, chegou aos seus pais e disse: “- Ela não pode namorar ninguém, porque eu a escolhi para mim”. Como um sultão das lendas das Mil e Uma Noites falou e decidiu. E ai do pai e da mãe se o fizessem.

Tentaram mandá-la para fora, mas não adiantou. Ele ameaçou estuprar a mais nova. E se ela não voltasse, mataria os pais ou alguém da família. Amedrontados, chamaram a filha de volta. Ela aceitou ir morar com ele porque não tinha outra escolha.

Aos 20 anos, ele a devolveu. Razão alegada: ela não lhe servia mais! Na verdade, naqueles dois anos ele não conseguiu absolutamente nada dela, exceto sexo. Ela deixou claro que ele poderia matá-la, se quisesse. Ficava ali, imóvel, passiva como pedra e deixava que ele fizesse o que bem entendia. Primeiro ele bateu, depois desistiu de bater. Finalmente, suplicou pelo seu amor, que ela não deu. Estuprou-a de muitas maneiras, mas não obteve um gesto de carinho. Chegou a quebrar-lhe um braço, tamanha a violência de que usava para ser dono dela e ao menos uma vez amado por aquela moça bonita.


Devolveu-a, como se mercadoria fosse. Quando fez isso ela já não era mais tão bonita, de tão sofrida e maltratada que fora. Nunca disse uma palavra. Calou-se por dois anos. O bairro inteiro sabia. Finalmente, começou a falar: “- Eu ainda sou virgem. Fui ferida, machucada e estuprada. Perdi meu hímen, mas não perdi minha virgindade. Recomeçarei com alguém digno de mim e eu dele”.

E assim aconteceu. Encontrou um advogado, com ele reconstruiu a sua vida, mora bem longe do lugar do seu martírio e hoje é uma pessoa serena. O poderoso morreu nas mãos de outro traficante que se apressou em avisar á família que podiam todos ficar em paz. Com o seu grupo no poder ninguém mais faria isso. Há menos violência por lá, mas o bairro continua nas mãos do tráfico.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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