Civitas (pronúncia: cívitas) e polis (pronúncia: pólis) referem-se à arte de viver em comum. Delas vieram os conceitos de cidadão, cidadania, civismo, civilidade, civilização, política, politicagem. Trata-se a virtude da convivência, de achar o nosso lugar e nossa vez e respeitar o lugar e a vez do outro.
Platão no seu “De Republica”, Livro V, cita como sinal claro de cidadania a descoberta do “meu” e do “não meu”. Quando, pois, na cidade e no país se rouba, se desvia vultosas e polpudas quantias de dinheiro do povo para o bolso do político, do partido e dos seus apaniguados, quando se aplica errado o dinheiro das igrejas e o pregador enriquece visivelmente, quando alguém assalta, rouba e mata para tomar posse do que pertence ao outro, quando nossos parentes e amigos têm mais chance porque estamos no poder, quando damos emprego a familiares e amigos do peito; quando nos colocamos em primeiro lugar como se, por termos dinheiro, fama, ou poder fôssemos mais cidadãos do que os outros… Uma cidade e um país correm perigo, posto o nosso é cada dia mais nosso e o dos outros passa a ser cada dia mais nosso.
É o caso do Brasil de agora que, quase todos os dias instaura mais um inquérito e abre mais uma sindicância para verificar as responsabilidades. No fim o culpado é o clima, são os raios, os pilotos que morreram. Quem tem algum poder escapa ileso: a grande construtora e o grande funcionário. É a clássica versão da culpa do mordomo. Onde há muita corrupção e impunidade há pouca cidadania e onde há brechas demais para quem tem poder há sangramentos demais nas reservas moais de um país. Mina-se a confiança do povo.
Tudo começa no cotidiano. Cidadão que fura fila porque é amigo do amigo do secretário do prefeito; distinta senhora que consegue porque é prima da primeira dama e por quatro anos a família dela será mais cidadã do que as outras… Um jeito aqui, outro jeito ali e, de jeito em jeito, criamos um país sem jeito.
Os fura filas, o lixo nas ruas, os pneus e fogões boiando no rio, o barzinho com o som ao máximo após as 10 da noite, os palavrões e os murros, os gritos na rua em plena madrugada, o carro estacionado em frente à garagem do outro… Quando isso deixa de ser exceção para ser corriqueiro, a democracia corre perigo. Começa na rua e continua no Congresso.




