INCAPAZ DE SENTIR JUNTO sugere muita coisa. Sugere, em primeiro lugar, a palavra com. Daí vem; com-paixão, com-miseração, co-lega, com-padre, com-madre, com-igo, com-unidade, com-unhão. Tem sempre a palavra com na frente.
Pois é, existe gente que não é capaz disso! E não é capaz por uma série de sofrimentos. Não aprenderam- em casa, na escola, no bairro – a ver o valor do outro e a ver a vida, ao menos por alguns minutos, pelo lado do outro. Não conseguem fazer amizades e, quando fazem, agarram se só àquele amigo, enchem a paciência desse amigo, porque não são capazes de fazer amizade com mais ninguém. São pessoas problemáticas, porque não admitem que, o outro possa ter bons sentimentos, que o outro possa sentir dor. Então, pisam, ofendem, magoam, vingam-se, porque não capazes de sentir. Vale o que eles sentem, só aceitam o que eles querem. Nenhuma renúncia. Os outros que se adaptem às suas necessidades. Estão no mundo para amar uma só pessoa. O resto que se ajuste. Escolheram um outro e rejeitam todos os outros.
Ora, sentir junto é colocar-se, de vez em quando, do lado do outro e ficar olhando a montanha do lado do outro: “O que será que ele vê?”, “Como é que será que ele sente?” “Como é que será que dói para ele …?” “Será que o que dói para mim, dói para ele do mesmo jeito?” “Será que ele também pensa como eu penso?”.
Sentir junto é tentar entender porque que o outro é assim, porque age assim, porque que sofre, porque chora, porque bebe tanto, porque faz isso e faz aquilo.
A gente procura entender o que levou aquela moça para a prostituição, o que levou aquele rapaz a se tornar um michê, o que levou aquele homem a roubar e o que fez esse sujeito mendigo, viver na rua todo maltrapilho. Quem será que ele era antes?…
Tentar entender a vida do ângulo do outro é sentimento que depois desperta compaixão, comiseração, companhia, companheirismo e, quem sabe, uma comunidade. A graça de sentir com o outro é uma graça profundamente cristã. Jesus veio e está conosco. Nós falamos de imanência, Emanuel; do hebraico: Deus conosco.
Falamos de um Deus que vem aqui estar com a gente, de um Jesus que sentia pena do povo e até antecipava o milagresentia dó. De um Jesus que tinha suspiro de dó ao ver uma mãe viúva, trazendo o filho único morto. Sentiu pena, chorou sobre o tumulo de Lázaro e sentiu compaixão com Maria, irmã de Lázaro, de Betania e com Marta. Jesus sentiu com, e queria os discípulos com ele: “Não podeis fazer comigo uma vigília de uma hora? Jesus era um homem sensitivo, sensível, compassivo: sentia com, queria estar com: “Ansiei ardentemente comer esta páscoa convosco”. Jesus gostava da palavra com, por isso fundou a primeira comunidade de discípulos, veio estar conosco e disse que estaríamos com ele no céu para sempre com ele e com o Pai”. Usou a palavra com magistralmente. E a usou muito bem.
Faz parte da essência do cristianismo a palavra com: juntos, junto, juntos… É assim que se faz Igreja. Por isso as celebrações são para todos juntos. Por isso, orar em público, todos juntos. Por isso, os sacramentos todos juntos. Por isso todas as cerimônias em que se congrega o povo de Deus para juntos louvar o senhor.
Existe a oração individual e ela é muito importante. Mas, a Igreja desaconselha uma pessoa a viver só disso. Não é por aí. Também é um caminho, mas ele passa e bifurca-se no caminho da comunidade. Eu oro sozinho sempre que posso, mas quero orar com meus irmãos. Por isso, é que eu vou a missa, ao culto. Não basta ter minha religião pessoal, eu quero partilhar. A partilha faz parte do cristianismo. Somos a religião da palavra repartida, do pão repartido.
Com é uma palavra muito bonita. E existe gente que infelizmente, é incapaz dessa palavra. Oremos por tais irmãos, para que se sintam capazes de conviver. Viver é relativamente fácil: conviver é que é difícil. Mas não há outro jeito de construir um sociedade mais justa!




