GRADES E ALARMES

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As casas da Vila São Geraldo, bairro onde entre os anos 45-53 do século passado, – nossa como estou antigo!- passei a minha infância em Taubaté, continuam as mesmas. Aqui e acolá algum sobrado, ou alguns retoques. Mas o retoque principal foram as entradas. Não havia nem ladrões nem assaltantes a nos ameaçarem, mesmo estando a Penitenciária do Estado a apenas 900 metros, do outro lado da linha de trem. Por isso, todas as casas tinham muros de 90 centímetros de altura. As portas ficavam abertas e as crianças entravam e saiam de uma para a outra casa, todo mundo conhecia todo mundo e todos, de certa forma, cuidavam das crianças de todos.

Éramos pobres, mas aquilo sim é que era país. O dinheiro dos três que trabalhassem numa casa dava para pagar o aluguel ou a mensalidade da casa própria, pagável em trinta anos. Comia-se bem, comprava-se para o mês no armazém do SESI e pagava-se o pequeno armazém da esquina no dia 5, porque ficava tudo no livrinho de contas. Comprava-se na fiança. Poucos tinham conta em banco e ninguém ouvira falar de shoping centers ou supermercados. Não sei se eram tempos melhores, mas confiava-se mais nos outros.

Enquanto, no segundo dia do novo ano, percorro a mesmas ruas onde brinquei em criança e as pessoas me saúdam, agora que fiquei conhecido mundo afora por conta de minhas canções e artigos, vejo como o Brasil ficou tétrico e medroso. Não há mais nenhuma casa de muros baixos. Os portões passam de 2,5 metros, há cacos de vidro nos muros que também subiram, há cercas eletrônicas e tudo é trancado a cadeado. Onde as crianças entravam e saiam livres, vem um adulto abrir, para que entrem ou saiam. E há campainhas e vigias. Quase todo mundo tem carro, mas ninguém tem sossego. A vila está bem mais iluminada, mas, depois das dez, pouca gente passeia pelas ruas como antigamente. Perdemos. Quem venceu foram os amigos do alheio. Antigamente eles iam presos, mas agora estão soltos e organizados. O guarda da vila nem nome tem. Naquele tempo ele era um amigo confiável.

Piorou a justiça? Piorou a qualidade de vida? Agora que todos têm mais bens, todos têm menos liberdade. Valeu a pena? Os muros e as grades de agora dizem que não. O casal com microondas, geladeira e fogão a gás na cozinha, sentado na sala e a ver televisão, não sabe o que dizer. Mas todos admitem que o progresso custou-lhes a liberdade. Antigamente pagavam três ou quatro contas. Agora pagam nove a doze. Custaram caro demais o talão de cheques, o telefone celular e o cartão eletrônico. Agora a vila pode falar com o mundo inteiro. Só não pode sair lá fora depois da meia-noite! Progredimos ou regredimos?

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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