FOME DE LOUVAR

Voltar

Acho que entendo a fome de louvar dos irmãos da RCC. Também compreendo o seu testemunho festivo e prolongado quando se reúnem. Faço força para entendê-los. Meus carismas são outros e minha linguagem não é a deles. Mas entendo porque falam e oram daquela maneira. Encontraram, extasiaram-se e agradecidos cantam, oram, falam, dão testemunho do que Deus fez e faz numa vida que ele toca. Querem sempre falar com Ele e quando podem falam dele e o exaltam. Não acham palavras e usam de todas e de outras muitas e muitas vezes para dizer que estão encantados com o mistério. O canto “eu louvarei o meu Senhor”, está incrustado no seu jeito de ser. Se antes não estava, agora está. Tornou-se neles, segunda natureza.

Entendo o louvor bem mais sereno e tranqüilo das carmelitas, das clarissas, das beneditinas, das concepcionistas e sacramentinas e de milhares de mulheres contemplativas. Também o dos homens a quem Deus chamou para as alturas e profundidades da contemplação. Expressam de maneira diferente. Não oram em línguas, não vão para os palcos e púlpitos dar testemunho. Usam as palavras oficiais da Igreja e, quatro a cinco vezes por dia, entram em preces e leituras de louvor. Seu silêncio e sua vida de claustro falam por eles. Não saem a proclamar os louvores do Senhor. Quando saem em geral os proclamam de maneira serena e contida. Também neles louvar é uma segunda natureza, mas a maneira de expressar o louvor é outra. Seu êxtase é bem mais sereno.

Nenhum desdouro. Pedro, Tomé, Paulo, João, Marta e Maria de Betânia certamente eram diferentes no captar e no transmitir a sua fé. Havia os entusiasmados, os questionadores, os que aderiram de imediato, os que provavelmente nunca tiveram explosões de fé. Há fiéis-copo e há fiéis-esponjas. E há o fiéis-pires. Uns assimilam mais e outro menos. Uns derramam depressa, ou precisam de pressão. O conteúdo deles é puro e há quem tenha mais e quem leve menos. Além disso, a maneira de levar varia. Não há porque exigir que um seja o outro. Esponjas absorvem, copos e pires recebem. Seria erro acusar o pires de terem pouca profundidade. Alguns deles, de tão abertos, conseguem armazenar a mesma quantidade de água de um copo fino. Copos finos são profundos, mas ás vezes armazenam pouco. O toque ou o ato de armazenar, verter-se ou converter-se determina em cada fiel o acolhimento do Espírito que sobre eles se derramou.

Errado seria negar ou desprestigiar o louvor de um e de outro. Quem quer louvar em línguas e acha que aquele som vem do Senhor continue a fazê-lo. O tempo dirá que era som ou se era e permanece dom. Quem o louva falando em nome dos pequenos e em língua que os grandes precisam ouvir e sai anunciando a justiça e o diálogo, prossiga. O tempo dirá se foi ira ou se foi amor legítimo pelos pequenos e sofredores. O martírio de um e de outro revelará se foi apenas festa da fé e apenas discurso irado, ou se foi mesmo chuva de dons do Espírito Santo.

Demos tempo ao Espírito Santo como ele o dá ás sementes e ás frutas em processo de amadurecimento. Veremos quem amadurece no pé, quem cai antes e ainda verde e veremos também quem espera até ser colhido pelas mãos que o semearam. O perigo de sempre é o açodamento e a pressa. Em nome do Espírito já se apressou muita coisa na Igreja. A pressa pode tirar o sabor da comida ou azedar a receita.

A fome de louvar o Senhor, também ela é louvável. A pressa de proclamar é que pode ser um perigo. Perguntemos ao rapaz ferido que, assim que aprendeu a dirigir, já estava dando 140 km no carro do pai… Cristãos acima da velocidade precisam aprender com os que há tempos atuam na velocidade certa! Nem a lentidão excessiva , nem a pressa são sinais de maturidade na fé.

Alguns de nós temos pressa e gostamos de apressar o rio! Queremos sinais aqui, agora, já e açodadamente proclamamos sinal o que não era sinal. Pior ainda, quando justificamos nossa pressa de fazer adeptos e revelar novas mensagens, dizendo que foi Deus quem o pediu! Discernimento e louvor precisam andar juntos. Que se ouça os contemplativos! De louvar eles entendem!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

Wallmedia