FIEIS OU CONSUMIDORES?

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O mundo do deus Mercado é um mundo de fazedores de adeptos: fieis compradores. É parecido com o mundo das igrejas de resultado. Suas práticas se assemelham. E a semelhança é tanta que no passado se chamava de freguês quem freqüentava uma loja, agora é cliente com cartão de fidelidade.

Quando entro em algumas super-lojas tenho a impressão de estar entrando num templo dedicado ao deus Mercado que não tem imagens, mas que está presente em tudo e a dizer: -”Deposite aqui o seu dinheiro, leve meu produto e seja feliz por mais uma semana. Eu tenho tudo o que você precisa”. Muitas ofertas, muitos apelos, cada dia um novo convite para que voltemos. Ao pagar perguntam se já fomos batizados naquele supermercado. Isto é: se já temos o cartão ” mais” e se achamos o que queríamos. O cartão “mais” nos dará direito de ser um pouquinho mais do que os outros compradores que não aderiram nem prometeram fidelidade. Com o cartão há uma adesão que traz vantagens. Ficamos meio sócios do reino das compras. Com a adesão àqueles produtos naquela loja teremos vantagens sobre os outros compradores. Ficamos um pouquinho “mais eleitos” porque aceitamos aquele mercado como o nosso fornecedor preferido. Precisam de nossa fidelidade para prosperar e construir novos templos. Não querem compradores avulsos, querem fieis consumidores.

Em tudo são semelhantes a certas igrejas ou grupos religiosos de resultado que têm o mesmo discurso de vantagens e bênçãos para quem deu mais ou aderiu com mais generosidade. E os testemunhos são sempre na linha de quem deu mais e fez mais e por isso recebeu mais. Quem ousa não fazer adeptos ou dizer que há outras maneiras de chegar aos outros fica alijado do esquema. O marketing existe para conquistar mais gente e não para dialogar e acabar dizendo que o produto do outro é bom…Supermercado não faz isso. No mundo do deus Mercado quem não se auto-elogia morre! Nada de elogios ao concorrente! Por isso as igrejas históricas perderam espaço e as novas ganharam adeptos. Na era do visual e da persuasão do marketing, pregadores que descobriram a arte de se auto-elogiar e de se evidenciar e alavancar seus produtos conseguem mais adeptos. Chamam a atenção para si e para o seu grupo e oferecem um produto em troca: livro, disco, Cd,. Objetos que mantém o fiel ligado a eles e não a outros grupos. O feil pode morar a cem metros da matriz, mas manda sua contribuição para aquele grupo a 1.500 kms de distância. Aderiu a eles.

Jesus propunha que se fizesse adeptos, mas não necessariamente com esse tipo de marketing na base do mais e melhor. Ele proibiu os seus discípulos de atrapalhar, proibir ou boicotar os outros que ousaram falar em seu nome! (Mc 9,38) E fez uma profecia: Quando os membros de uma casa se dividem indo uns contra os outros a casa entra em ruínas (Mc3,24-27) Basta ver as divisões dos cristãos e pentecostais em franca guerra por adeptos em algumas cidades ou mídias para ver que há mais mercadologia do que teologia nestes segmentos. Virou disputa aberta por novos adeptos: -Venha que nós temos mais a oferecer. Conosco, satisfação garantida! Vendemos mais barato! Cobrimos qualquer oferta!” Quando numa igreja o mercado grita mais alto a teologia e a ética se calam!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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