ENTRE A TÚNICA E A TOGA

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O leitor guarde as palavras “pesquisa” “embrião” “ ser humano” e “segmento”. O Brasil é um país onde todos os segmentos podem opinar, mas em casos que exigem interpretação da Constituição que nos rege, a última palavra é a dos 11 juizes do Supremo Tribunal. Somos um Estado laico. A religião aqui pode existir, atuar e difundir suas crenças, mas não pode determinar os rumos da nação. Está lá no livro magno do País Brasil.

Catedráticos,religiosos,escritores,artistas, povo e cientistas opinaram. Uns segmentos queriam a permissão de pesquisar possíveis curas utilizando as células tronco de embriões, evidentemente, embriões vivos, ainda que congelados, fora do ventre da mulher e ali guardados porque a ciência também admite que aquele ser é uma vida. Não é mais espermatozóide nem óvulo. É a junção dos dois e ali está um novo ser. Mas que novo ser é ele? Aí começa o debate.

A maioria dos religiosos com grande número de cientistas, pensadores e juizes afirmam que aquele ser, ainda que congelado, já é humano desde o primeiro instante da concepção. Réptil ou celenterado é que não será. Afirmam que o embrião é um ser humano.

Uma minoria de crentes e um grande número de cientistas e pensadores afirmam que o embrião é vida, mas ainda não é vida de pessoa humana. Só depois de alguns dias poderá ser chamado de pessoa e tratada como tal. Segundo eles, não chegou ao ponto. Como existe um ponto em que a água se torna gelo ou vapor, assim é o embrião humano: não atingiu aquele ponto que eles chamariam de humano.

Baseado nisso, uns segmentos da sociedade pediram que os juizes decidissem se um cidadão tinha ou não o direito de pesquisa com as células-tronco deste ser vivo, mas congelado, que eles não consideravam ser humano. São do grupo pró pesquisa e pró possível descoberta de solução para quem precisa de revitalização e reconstituição de algum órgão lesado. Motivo: as células tronco do embrião humano se desenvolvem e crescem melhor do que as células do corpo humano adulto. Seriam como que o filé mignon das células humanas.

Os pro-embrião argumentam que se trata de vida humana e que não se mata e sacrifica esta vida, por menor que ela seja, em favor de qualquer outra vida humana, por mais ferida que ela esteja. Se, no mundo vegetal, a pequeníssima semente que traz vida em seu bojo pode ser sepultada viva e morrer para dar futuros galhos e futuros frutos, no mundo dos humanos não se pode permitir o mesmo; não somos vegetais.

Os religiosos, aqui no Brasil, principalmente a Igreja Católica e as Igrejas membros do Conselho das Igrejas Cristãs propuseram que se avançasse com as pesquisas, mas com células tiradas de corpos adultos que não morreriam com isso, e não com as dos embriões que morreriam.

O segmento que deseja pesquisar com células de melhor “qualidade”, advogaram o direito de sacrificar o embrião humano congelado que, afinal de contas, já fora descartado e estava conservado numa espécie de freezer. Foram ao Supremo Tribunal. Os 11 juizes , no dia 29 de abril de 2008, guarde-se bem esta data, disseram por 7 a 4 que, sim, no Brasil se pode pesquisar com o embrião humano, mesmo que isso signifique sua morte. E é o que acontece. Argumentaram que as vidas adultas, se um dia for descoberta a cura nascida dessa pesquisa, têm mais direito à vida do que o pequeno embrião.

Numa democracia, decisão de juizes se discute, mas não se desrespeita. Agora, se um religioso quiser protestar contra uma clínica onde se sacrificam embriões humanos, poderá fazê-lo, mas não poderá impedir que prossigam. Os juizes decretaram que tais mortes são válidas dentro de certas salvaguardas. Isto significa que, se amanhã for permitido o aborto aos seis meses porque os juizes decidiram também por 7 a 4 ou por 8 a 3, quem discorda que fale na rua ou fique dentro dos seus templos, mas não impeça aquela clínica de extrair aquele filho que a mãe não deseja. Já aconteceu e acontece em outros paises.

É a cultura do homem como centro de tudo. É a afirmação do direito dos pais ou dos cientistas sobre a vida que foi gerada. Quanto a Deus, num Estado laico, naquele país Deus não tem o direito sobre tais vidas. A decisão não passa pelos templos nem pelas túnicas, nem pelos púlpitos. Ma passa pelo Congresso, pela toga, pelo judiciário e pelo laboratório. Segundo eles, os cidadãos que acreditam em Deus, mesmo sendo a maioria, devem propor aos seus seguidores que não o façam, mas não podem impedir os outros cidadãos de fazê-lo.

Em conversa com um amigo ateu que apóia o uso das células tronco de embrião congelado ouvi dele o argumento.
- Vocês que acreditam em Deus dizem que aquela vida que sobrou e não se desenvolveu num útero pertence a Deus e deve ser guardada até que se saiba o que fazer por elas. Por isso estão lá congeladas. Vocês não apresentaram uma solução. Querem aqueles embriões que sobraram sepultados no frio até o dia em que eventualmente possam ser dados a um ventre e à luz. Nós temos uma solução. Sirvam para pesquisa e sejam sepultados com honra como se faz com cadáveres adulto até que um dia se descubra como usá-los e deixá-los vivas.
Respondi que cientista sério não mata um adulto para usar o seu cadáver; não deveria matar um embrião congelado para usar o seu cadáver. Não basta declarar que ao adulto é humano e o embrião ainda não é. E mesmo que os juizes tenham decidido que se pode matar ou usar tais embriões não cabe aos juizes determina quem é humano e quem não é. Isso não está na esfera do Direito.

Ele coçou a barba e disse: – Eu tenho razão e você tem razão e no fundo ninguém a tem. E concluímos: – A questão entrou para a esfera política e esta é a que menos pode decidir quem já é humano e quem ainda não é. Mas foi esta a esfera que decidiu! O homem que é um animal político esqueceu que também é um animal religioso! Venceu a opinião do animal político!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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