A civilização na qual triunfa o “eu” em geral adoece, sofre e, se não morre vive na UTI. É para onde leva o crasso individualismo, supremacia do indivíduo sobre a lei, sobre a família e sobre a comunidade. O Senado e a Câmara em Brasília volta e meia são sacudidos por esta mentalidade. Alguém é pego usufruindo para si e para os seus do que pertence a todos nós.
O sujeito, quase sempre narcisista desvia para si os bens de todos e não paga nem devolve porque acha que tem seus direitos. Não tem! Quem faz o que bem entende com sua moto, seu carro e seu cigarro, periclita a vida dos outros, e ainda briga pelo seu direito de poluir, de fumar perto de crianças e de enfermos; quem passa com ruído enorme diante de um hospital, explode os sons do seu alto-falante sobre toda a vizinhança, berra até alta madrugada em frente ao barzinho, tudo pelo seu direito de fazer o que quer é um narcisista.
Hesíodo, famoso pela sua “Teogonia”, há 29 séculos atrás, falava disso em “Os trabalhos e os dias” ao descrever o que seria um mundo no qual o indivíduo tivesse todos os direitos. Seria um tirano. Uma coisa é ter alguns direitos intocáveis e outra é ser intocável em tudo o que faz. Alguns direitos são intocáveis. Nos outros, toca-se, porque passam a ser relativos diante de um bem maior. O fumante tem mais é que apagar seu irrenunciável cigarro diante do irmão com grave problema de brônquios ou perante sua esposa grávida ou diante do seu filho recém nascido. Use o argumento que quiser, recorra a todos os advogados do mundo, mas seu direito de fumar é menor do que o dos outros que não suportam o fumo. Se hoje parece ditadura de quem não fuma ela é reação à ditadura de quem fumava e não se importava com a saúde dos outros.
Diga-se o mesmo sobre a droga, o dinheiro, os paraísos fiscais, os devedores contumazes, os chantagistas, os usurários, as reservas de mercado e os sons altíssimos de novíssimas igrejas no bairro. Ninguém pode impor-se desta forma. Doeu, dói e doerá uma civilização que gira em nome da excessiva liberdade do pequeno “eu”. Nem ditaduras, nem anarquia! Deve-se reprimir um indivíduo sem o oprimir, mas reagir é preciso! Quando os direitos são demais, a lei acaba torta.




